MOSTRA 2019: refilmagem de “O Invasor” expõe antigo debate de cinema

Última noite de segunda na Mostra 2019. Durante um descontraído bate-papo no CineSesc São Paulo, após uma agradável sessão dupla de O Invasor (2001) e sua ainda inédita refilmagem francesa Persona Non Grata (2019), alguém do público externou o que estava na cabeça que muitos: “Nenhuma refilmagem é boa. Não conheço um filme que seja melhor que o original”.

Não sei se concordo totalmente. Existem dois tipos de refilmagens e alguns bons exemplos imediatamente vieram na minha cabeça. É verdade que Scarface (1983), O Chamado (2002), Os Infiltrados (2007) e Millenium – Os Homens Que não Amavam as Mulheres (2011) tem a vantagem de ter diretores extraordinários por trás. Enquanto os dois primeiros exemplos são uma reimaginação do mesmo conceito, os dois últimos são cópias quase fieis dos originais, e mesmo assim, todos têm muito mais qualidades e ganharam mais destaques na história do cinema.

Infelizmente não é o caso de Persona Non Grata, de Roschdy Zem (melhor ator no Festival de Cannes 2006 por Dias de Glória), que na nova versão vive o premiado personagem de Paulo Miklos. A trama parte da mesma ideia do original; dois sócios contratam um misterioso assassino de aluguel para executar o terceiro sócio de uma construtora prestes a fechar um negócio milionário, mas ilícito. O problema é que depois de cumprir sua missão o sujeito se recuso a sumir e começa lentamente a tomar conta da vida dos dois mandantes, colocando um contra o outro.

A nova produção é apenas cinco minutos mais curta que o original mas, ao assistir ambos em sequencia, a sensação é que parece ainda menor. Cenas foram condensadas, outras criadas e o ritmo é mais imediatista. A principal diferença se destaca exatamente no personagem do invasor, a grande alma da trama.

Enquanto no original brasileiro (dirigido por Beto Brant), acompanhamos a evolução do personagem conforme ele ganha confiança a cada cena,  sentindo-se mais confortável em fazer parte da nova classe social, a versão de Zem surge mais contida, quase sempre como um observador neutro, arquitetando planos, mas contraditoriamente menos ameaçador.

Brant, alias, participou do debate ao lado do roteirista Marçal Aquino e do produtor Renato Ciasca (foto), que comentou essa diferença crucial dos personagens: 

Renato Ciasca: O que me incomoda pessoalmente (…) é ele estar sempre seguro e isso faz uma diferença. O Paulo (Miklos) não estava seguro. E por não estar seguro ele incomoda todo mundo ao máximo. Ele é o ponto de O Invasor!

O processo que envolve a realização de cada filme é talvez o grande fator que diferencia uma produção de outra, seja novo ou refilmagem. O fato é que Roschdy Zem é o diretor do filme e isso transparece no produto final. Todos os atores parecem respeita-lo como tal, mas esta aceitação não passa pro lado de cá da tela.

Assistir a liberdade e os improvisos de Paulo Miklos (até então, um ator iniciante), mesmo 18 anos depois, nos causam certa ansiedade e apreensão. Uma sensação de que ele é capaz de qualquer coisa, deixando o público sempre grudado no braço da poltrona (a cena em que ele quebra a quarta parede e fala sobre respeito olhando em nossos olhos até hoje me assusta). O produtor comentou sobre essa relação: 

Ciasca: (Quando começamos) não tínhamos nada fechado, então o filme foi se construindo. Não só naqueles primeiros drafts mas nas filmagens. Inclusive com o Paulo, que não exatamente decorava. Ele sabia o que tinha que fazer, mas trazia uma movimentação no set de filmagem que era muito bacana. Os atores que vinham com o texto decorado, não sabiam muito bem como ele viria, porque ele mesmo não sabia. (…) Isso faz com que nossa versão tenha um movimento inesperado.

Essa tensão (ou movimento) definitivamente é um dos maiores trunfos de O Invasor, mas desapareceu de sua versão francesa. Quiseram eles que as diferenças infelizes parassem por ai; Pequenas mudanças simplesmente eliminaram o conceito de corrupção dos órgãos públicos e esvaziaram o peso e impacto da conclusão do filme.

Beto Brant: (Persona Non Grata) tirou todo contexto que tinha, político-social, do filme original. Do rap, da obra publica. Tirou tudo que era ideológico para enfeitar. O nosso na questão estética é mais despudorado, ainda tem isso, né? Eu sei lá, achei esquisito.

Brant comentou um pouco mais sobre essa mudança. Lembrou que este foi inicialmente um dos elementos que mais chamou atenção dos idealizadores franceses para seu filme:

Brant: (A distribuidora francesa) me disse que gostaria de distribuir (O Invasor) na França porque isso acontece lá também. De desvio de dinheiro em obra pública! No caso deste filme não é bem isso. (a refilmagem) tirou essa questão.

Se existia a familiaridade com a ideia, então por que muda-la? Por que diminui-la ainda mais em favor de um final ambíguo? Sempre nos atemos ao fato de que uma refilmagem precisa adaptar elementos para dialogar com sua sociedade, daquele tempo. O que verdadeiramente me surpreende é o cinema francês, tão violentado por versões americanas ao longo de anos, apresentar um produto com pouco respeito pelos principais elementos que fazem de O Invasor um grande filme. Opinião compartilhada pelo roteirista Marçal Aquino:

Aquino: Do ponto de vista do roteiro, eu acho que (nosso filme) continua fortíssimo. Ele tem uma virada no final que é sombria. Essa coisa do mal triunfar, sabe? É o melhor roteiro que nós fizemos. O livro, curiosamente, eu não tinha nem fechado na cabeça (…), nós partimos pro roteiro, e todas as pendências dramáticas foram resolvidas (…). E eu finalizei o livro à posterior. Pra mim foi uma experiência muito marcante, e não desejo repeti-la, porque foi horrível. Você começa a ver seu personagem com a cara do Paulo Miklos, que eu já tinha visto no set. Mas da minha parte eu não mudaria nada.

Acho que a pergunta que devemos nos fazer talvez não seja necessariamente sobre remakes e adaptações. A grande questão que sempre me faço é se bons filmes ainda conseguem mexer conosco mesmo depois de anos. Neste caso, se o original foi bem recebido na França, qual o intuito de uma refilmagem? Se não para mexer com nossas emoções, então qual a razão de assistir o mesmo filme de outra forma? Talvez a resposta reside na afirmação de Aquino:

Aquino: Remake é uma homenagem. Você só tenta copiar aquilo que você gosta. Quando é posto lado a lado com O Invasor, como aconteceu hoje, reafirma a força do original. Isto aqui é uma coisa pop, é chiclete. Chiclete a gente masca e cospe.

Eu diria que um certo Martin Scorsese, diretor de alguns remakes, não discordaria. O debate continua…

Marcelo Cypreste

Persona Non Grata ainda tem exibição na Mostra de São Paulo nesta Terça 29/10, às 22h10, e Quarta 30/10, às 18h10.
Aguarde a cobertura final de outros filmes da 43a Mostra Internacional de Cinema no Ratos de Cinema até o encerramento do evento, dia 30/10.