MOSTRA 2019: 10 Filmes em Destaque

A 43 Mostra Internacional de Cinema 2019, em São Paulo chegou ao fim nesta quarta 30/10, mas o Ratos de Cinema não desligou ainda do maior festival de cinema do Brasil.

Confira a lista dos filmes que tivemos a oportunidade de assistir e descubra quais merecem entrar ou não na sua listinha:

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O RELATÓRIO (EUA)

(The Report, 2019) de Scott Z. Burns. Com Adam Driver, Annette Bening, Jon Hamm, Michael C. Hall, Maura Tierney, Linda Powell, Douglas Hodge, Matthew Rhys e Corey Stoll.

Depois de uma estreia discreta na direção com o longa Pu-239 (2006), Scott Z. Burns (mais conhecido pelos roteiros de Ultimato Bourne (2007), Contágio (2011) e mais recente, A Lavanderia (2019)) retorna com um filme bem a cara de seu amigo e colaborador de longa data Steven Soderbergh. A trama gira em torno de Daniel Jones (Driver), encarregado de liderar uma investigação sobre o Programa de Detenção e Interrogatório da CIA, criado após os atentados de 11 de setembro.

Mesmo para quem estiver muito bem informado sobre o assunto, o filme revela segredos dos bastidores políticos sobre a investigação (vista por muitos como vergonhosa), expõe acobertamentos do governo Bush e Obama e, de quebra, apresenta Adam Driver e Annette Bening em um show de interpretações. É um suspense-político-baseado-em-fatos-reais na linha de Todos os Homens do Presidente (1976), A Conversação (1974) e A Trama (1974), portanto não espere mais que isso; muitos diálogos em salas fechadas, nenhuma ação, e um tema vai  chocar, revolta e ultimamente será esquecido. A direção de Burns é excelente com os atores mas falta ritmo para conduzir a trama, que se perde um pouco nos flashbacks (alguns, extremamente desnecessários que só fazem alongar a duração). As óbvias cenas do “pequeno homem solitário contrastando com o peso dos monumentos grandiosos de Washington” também não agregam tanto à um filme que vale a conferida, mas que infelizmente não carrega o peso que poderia ter, por exemplo, nas mãos de um diretor mais experiente.

A VERDADEIRA HISTÓRIA DA GANGUE DE NED KELLY (Austrália)

(True History of the Kelly Gang, 2019) de Justin Kurzel. Com George MacKay, Essie Davis, Nicholas Hoult, Earl Cave, Thomasin McKenzie, Charlie Hunnam e Russell Crowe.

Depois do sucesso de crítica de Macbeth (2015) e o fracasso de Assassin’s Creed (2016), o diretor Justin Kurzel retorna as produções independentes de sua terra natal para contar a história do criminoso transformado em herói mais famoso da Austrália, desde sua infância até a morte. Baseado na obra literária de Peter Carey.

Assim como a carreira de Kurzel, A Verdadeira História (será?) é um filme irregular do começo ao fim. Dividido em três atos (Menino, Homem, Mito), a trajetória de Ned Kelly mescla momentos dispensáveis pra trama com cenas visualmente deslumbrantes que mostram um lado menos glamouroso de um jovem que ganhou notoriedade por desafiar o exército inglês. Tirando este único motivo, Kelly em nenhum momento é retratado como uma figura admirável ou heroica (aliás, o filme se recusa a nos deixar simpatizar por quase 99% dos personagens). As atuações oscilam entre o exagerado e o caricato em grande parte, mas vale o destaque para Nicholas Hoult, que surge apenas na metade do filme e rouba cada cena que participa, além de Russell Crowe, que apesar de poucas cenas, se diverte em cada minuto que aparece. 

MEMORY – AS ORIGENS DE ALIEN (EUA)

(Memory: The Origins of Alien, 2019) de Alexandre O. Philippe.

Como o título deixa bem claro, este é um documentário sobre as referências, sejam egípcias, gregas, parasitológicas ou cinematográficas, que inspiração a criação do filme Alien – O Oitavo Passageiro (1979) de Ridley Scott. Das primeiras ideias do roteirista Dan O’Bannon, as criações artísticas de H.R. Giger, criador do monstro, até as decisões de Scott nos sets de filmagens. Um prato cheio para qualquer fã do filme e da franquia.

Confesso que fui esperando um filme e felizmente assisti outro. Vale o aviso: este não é um making of de Alien. É um estudo sobre ele. Uma pesquisa sobre mitos, crenças, símbolos e influências que deram vida ao filme. Algumas delas sempre fizeram parte da vida de O’Bannon, maior responsável pela história e seus desenvolvimentos. Para qualquer amante de cinema, vale colocar este filme na lista. Revelações de como o roteiro foi elaborado, a cena chave que mudaria a maneira de ver o gênero e as técnicas que a equipe desenvolveu para criar todos os efeitos práticos são a cereja do bolo. Certamente há diversas outras histórias sobre Alien a serem contadas. Esta é até agora, a mais completa. 

LOST HOLIDAY (EUA)

(Idem, 2019) De Michael e Thomas Matthews. Com Kate Lyn Sheil, Thomas Matthews, William Jackson Harper, Keith Poulson.

Durante as festas de fim de ano, dois amigos retornam a sua pequena cidade natal, em Nova Jersey, onde reencontram antigas paixões, dilemas e diversão. Depois de uma noite de excessos, eles decidem investigar um possível sequestro de uma socialite local. Estreia na direção dos irmãos Matthews.

Este filme pode ser resumido como “a volta dos jovens esnobes para casa, famintos por sexo, drogas, rock pesado, aceitação, amor ou um sentido na vida”. Assim como o título já entrega nada disso se realizará durante este feriado, ninguém aprenderá com seus erros e nenhum crescimento do protagonista trará a catarse esperada, já que todos os personagens do filme são completos idiotas. Na real, eu poderia descrever este filme como uma versão de Debi & Lóide, se eles fossem os meninos ricos que praticavam bullying na sua escola sem absoluta consequência por seus atos. Uma coisa se salva, no entanto: Kate Lyn Sheil (conhecida por filmes de terror independentes como V/H/S e Você é o Próximo), vive a protagonista com um charme melancólico – a única coisa que me segurou no até os créditos. Veja por sua conta e risco, só não diga que eu indiquei hein. 

MÁFIA S/A (Canadá)

(Mafia Inc., 2020) De Daniel Grou. Com Marc-André Grondin, Sergio Castellitto, Gilbert Sicotte e Mylène Mackay.

Baseado em fatos reais o filme retrata a saga de duas famílias na Montreal de 1994. O patriarca dos Gamache é um honesto alfaiate que lentamente percebe o fascínio do casal de filhos pela atraente e corrupta família Paterno. Diversas tramas se encontram num explosivo e absolutamente inesperado acerto de contas que envolve as duas famílias e reserva umas das melhores e mais satisfatórias conclusões que assisti no cinema moderno. Esse é pra ficar no alto da sua lista de expectativas para o ano que vem. 

Se você estranhou a data ali em cima ser do ano que vem, é isso mesmo. Oficialmente Máfia S/A só será lançado em Fevereiro. O filme passou por um novo corte (e até ganhou uma trilha original) especialmente para a exibição aqui no Brasil. Se o filme da Mostra será o mesmo filme que eventualmente chegará aos cinemas, ainda é muito cedo para dizer. Tive o privilégio de fazer uma entrevista com o diretor Daniel Grou durante a Mostra 2019, que você confere aqui.  

CARCEREIROS – O Filme (Brasil) 

(idem, 2019) de José Eduardo Belmonte. Com Rodrigo Lombardi, Tony Tornado, Milton Gonçalves, Kaysar Dadour, Jackson Antunes, Dan Stulbach, Rômulo Braga e Rafael Portugal.

Durante uma noite em uma penitenciária de São Paulo, a transferência de um terrorista internacional causa alvoroço entre duas facções rivais. Cabe aos carcereiros descobrir como controlar o presídio, depois de uma invasão coordenada, que dá início à uma rebelião. Não é exagero dizer que tudo de pior que poderia acontecer em uma penitenciária em um dia, literalmente acontece neste filme. E se você acha que por acompanhar a série da Globo ou ter visto o trailer já tem ideia de como será o filme, fique atento para uma grata surpresa. Carcereiros reserva algumas reviravoltas bem amarradas.

Depois de Alemão (2014) e este filme, não é exagero dizer que Belmonte é o nome mais experiente num novo gênero de ação no cinema nacional. É clara a inspiração em produções francesas rápidas e diretas, que tem um público fiel e já revelou nomes como Luc Besson (O Profissional, O Quinto Elemento) e Pierre Morel (Distrito 13, Busca Implacável), para criar uma atmosfera intensa em uma trama que nem sempre precisa de lógica para funcionar. A suspensão da descrença não esconde a real intenção do filme: entreter. Não busque nada além disto. Mesmo assim, o espectador mais atento pode até sair do filme com uma questão moral interessante na cabeça. Vale a conferida. 

O INVASOR (Brasil)

(Idem, 2001) de Beto Brant. Com Paulo Miklos, Marco Ricca, Alexandre Borges, Mariana Ximenes, Malu Mader e Sabotage.

Este é um daqueles filmes que se você não assistiu ainda, precisa urgentemente corrigir este erro. A história gira em torno de dois sócios de uma construtora que buscam Anísio (Miklos), um assassino profissional, para se livrar de terceiro sócio, contrário à um acordo milionário para construção de prédios populares. O plano corre como o esperado até que Anísio começa a aparecer frequentemente na empresa e começa a agir como um novo associado. Logo, os dois homens embarcam numa jornada de violência e paranoia.

Dezoito anos depois, O Invasor ainda é um chute no estômago de uma sociedade que se recusa a aceitar trocas de classes e continua fechado os olhos para a vida na periferia. Em pouco mais de uma hora e meia o filme te permite viajar por uma cidade (um país) dividida e controlada por um tênue equilíbrio entre órgãos públicos e criminalidade, gerida por quem pagar mais. Some isso à atuações sensacionais de um tenso Marco Ricca e um sedutor Paulo Miklos, além de reviravoltas de tirar você da cadeira, e está aí a prova do verdadeiro potencial criativo do cinema brasileiro. Imperdível!   

PERSONA NON GRATA (França)

(Idem, 2019) de Roschdy Zem. Com Nicolas Duvauchelle, Raphaël Personnaz, Roschdy Zem, Nadia Tereszkiewicz, Anne Charrier.

Refilmagem de O Invasor (2001), de Beto Brant. Dois sócios contratam um misterioso assassino de aluguel para executar o terceiro sócio de uma construtora prestes a fechar um negócio milionário, mas ilícito. O problema é que depois de cumprir sua missão o sujeito se recuso a sumir e começa lentamente a tomar conta da vida dos dois mandantes, colocando um contra o outro.

Para quem não tem o filme de Brant fresco na cabeça ou nem sequer assistiu o filme brasileiro, Persona pode até parecer um bom filme. A questão, na verdade, é perceber que até mesmo com as mudanças deste roteiro para o original, o quanto do potencial é desperdiçado em uma trama rasa, que se presta a ser mais veloz e não nos permite nos envolvermos propriamente com os personagens. As atuações acabam rapidamente se tornando excessivas e a nova conclusão parece saída de outro filme, já que certas ações não condizem com a construção daqueles pessoas até aquele momento. Confesso que algumas cenas são tão bobas que me fizeram rir de pena. Um filme que merece ser estudado e catalogado no Guia de “Como Não Fazer um Remake”.  Confira detalhes sobre o debate em relação aos duas versões aqui.

A ODISSEIA DOS TONTOS (Argentina, Espanha)

(La Odisea de Los Giles, 2019), de Sebastián Borensztein. Com Ricardo Darín, Luis Brandoni, Chino Darín, Verónica Llinás.

Mais recente filme do mesmo diretor de Um Conto Chinês (2011) e Kóblic (2016), que mistura comédia com sátira política na medida ideal para nossa atualidade. Numa pequena e tranquila cidade da Argentina, um grupo de amigos decide abrir uma cooperativa para melhorar o desemprego local. Eles juntam todas as suas economias no banco, mas são vítimas do plano econômico de 2001, que congelou as contas de todos os cidadãos. Pra piorar, descobrem que um inescrupuloso advogado foi responsável por roubar e aguardar o dinheiro num cofre seguro no meio de um pasto. Eles decidem então arquitetar um plano para reaver o que lhes foi tomado.

Imagine uma mistura de Onze Homens e Um Segredo (2001) com Ou Tudo ou Nada (1997). O conceito de “as pessoas erradas pro serviço certo” já ganhou as telas diversas vezes, mas depois de assistir este filme, você dificilmente vai pensar em outros atores para estes papeis. Borensztein trata de um assunto complexo e preocupante de forma descontraída e divertida. Se você comprar o conceito de “justiça” da trama, certamente vai se divertir no cinema como poucos filmes foram capaz de fazer este ano. O elenco afinadíssimo não se restringe somente à um show particular de Ricardo Darín. Pelo contrário, todos ganham momentos de brilhar e criam juntos um grande (e explosivo) espetáculo improvável que fará todos nós, honestos trabalhadores, sairmos de alma lavada do cinema. E em tempos de crise por todos os lados, um filme assim é sempre uma boa pedida. Confira nossa matéria especial sobre o debate do diretor na Mostra 2019, aqui.      

PARASITA (Coreia do Sul)

(Gisaengchung, 2019) de Bong Joon Ho. Com Song Kang-ho, Lee Sun-kyun, Cho Yeo-jeong, Choi Woo-shik, Park So-dam.

Mais que o vencedor da Palma de Ouro em Cannes 2019 e grande sensação da Mostra, este filme é uma obra necessária para todos simplesmente por fazer parte da filmografia de Bong Joon Ho, um dos mais criativos cineastas da atualidade. Explicar a trama do filme sem entregar nada é um desafio que merece o aviso: vá neste filme sabendo o menos possível e certamente você terá uma experiência como poucos filmes te proporcionaram este ano. Basta dizer que a trama acompanha os inesperados acontecimentos depois do encontro de duas famílias, uma pobre e outra rica da Coreia, que têm em comum segredos e sonhos de uma vida melhor, custe o que custar.   

Como em suas produções anteriores (Mother – A Busca pela Verdade, Expresso do Amanhã e Okja), o diretor extrapola nossas expectativas pelos gêneros ao criar uma obra-prima que começa em uma ambiente confinado, de forma bem lenta, até gradativamente ganhar contornos inesperados conforme descobrimos segredos e reviravoltas a cada momento que o filme avança. Poucos diretores conseguem estão tão à frente de seus espectadores (e suas expectativas) como Bong, por isso te garanto que com meia hora de projeção, você vai ter certeza que sabe para onde o filme está te levando, assim como uma inocente mosca que ainda não percebeu estar presa na teia de uma voraz aranha. Tive a oportunidade de assistir o filme duas vezes e lhe garanto que tive duas experiências tão distintas, quanto emotivas. É sem dúvida o melhor filme da Mostra e, na humilde opinião deste que vos escreve, o melhor do ano até o momento.

Mais sobre a Mostra 2019 em breve num RatosCast Especial.

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