Ford vs Ferrari

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(Idem, 2019), De James Mangold. Com Christian Bale, Matt Damon, Jon Bernthal, Caitriona Balfe, Josh Lucas, Remo Girone e Tracy Letts.

O automobilismo tem um forte apelo cinematográfico. Seja a velocidade, a coragem dos pilotos, superação de limites, fato é, que em um ambiente mecanizado, o fator humano sempre foi o grande atrativo por trás desse tipo de modalidade. Ford vs Ferrari é um filme que entende isso e usa justamente este aspecto para construir uma narrativa sobre corridas, máquinas e glória, mas principalmente sobre paixão e amizades.

Em meados da década de 60, a Ford entrou em processo de compra da lendária Ferrari que estava a beira da falência. Ao descobrir que seria impossibilitado de correr a tradicional corrida de Le Mans, o fundador Enzo Ferrari desiste do negócio e começa uma guerra entre as companhias pelo título da corrida do ano de 1966.

Então, o publicitário da Ford, Lee Iacocca (Bernthal) procura Carroll Shelby (Damon), um ex-piloto e único americano a vencer as 24 horas de Le Mans para desenvolver em 90 dias, um carro que possa vencer a hegemonia da companhia italiana na tradicional corrida.

Apesar de atrativo, o título não faz jus ao filme. A disputa entre as empresas é a fonte do conflito, mas além de trazer a Ferrari como antagonista, o que não é o caso, o título foca no aspecto mais fraco do filme, que é a disputa corporativa.

A disputa acontece nos escritórios, onde reside o dinheiro e o ego e na pista, onde fica o núcleo principal, formado por  Carroll Shelby e Ken Miles (Bale). Miles é um piloto de personalidade forte e amigo de longa data, que por conhecer muito da construção e da mecânica de carros, se torna o piloto perfeito para construir uma máquina que possa levar o carro ao seu limite. A relação dos dois é o grande plot do longa.

Com exceção de Miles e sua família, todos os personagens e suas relações são desenvolvidas dentro dos limites da construção do carro e das corridas. Apesar de alguns aspectos técnicos, o filme é de fácil entendimento até mesmo para quem não entende nada de carros, nunca soando muito didático.

O roteiro tem problemas na forma pobre como aborda alguns personagens, principalmente o núcleo da Ferrari. O piloto da Ferrari que é o adversário direto em Les Mans não tem uma única fala. Ele é retratado como um italiano carrancudo, o tempo todo de expressão fechada, é o filme gritando que aquele é o “vilão”, mesmo que ele aja apenas como um piloto.

Os executivos também são personagens muito superficiais, tendo o ego como único motivador, tomando algumas atitudes irresponsáveis prejudicando até mesmo a situação das equipes dentro da corrida.

O incômodo dos executivos com a personalidade de Miles se mostra o grande conflito entre as duas vertentes dentro da empresa, Shelby sabe que o único em condições de tirar o máximo do carro é Miles e começa uma guerra nos bastidores para manter seu piloto, que se arrisca diariamente no desenvolvimento do carro. O esforço dos dois em diferentes frentes, fortalece a relação entre eles, são dois amigos de personalidades diferentes em busca do mesmo sonho.

Outra característica que incomoda são os diálogos dentro dos carros, basicamente para ninguém. Alguns momentos se justificam narrativamente, mas Bale falando para o próprio carro que vai ultrapassar o adversário é não só incoerente, como um pouco vergonhoso e dramaticamente ineficaz.

Tecnicamente o filme é impressionante. Esse é um filme pra ser visto nos cinemas, certamente é outra experiência. As cenas de corrida ou até mesmo de testes dos carros, empolgam. A sensação de velocidade extrema é real, o diretor James Mangold cria sequências empolgantes, que não soam repetitivas e por mais que saibamos o desfecho, não perdem a tensão.

A mixagem de som e efeitos sonoros são incríveis e diretamente responsáveis por levar o espectador pra dentro da corrida. A montagem do filme é dinâmica e junto a direção certeira de Mangold, criam algumas das melhores cenas de corrida dos últimos anos.

No elenco, Christian Bale surge muito magro como o piloto Miles. O personagem é uma figura e Bale traz carisma e uma postura muitas vezes arrogante, mas que reconhece suas virtudes e se mostra um homem de bom coração.

Matt Damon traz serenidade a um personagem que deixa as pistas por problemas de saúde e traz na construção do carro uma maneira de estar o mais próximo possível das pistas. Apesar de tomar algumas atitudes questionáveis, que não trazem nenhuma consequência em termo narrativos, seu personagem termina como o responsável por tentar manter elementos externos fora dos boxes.

A química entre os dois atores funciona, fortalecendo a relação que é essencial para o lado humano do filme.

Ford vs Ferrari é um filme que traz o antagonismo no título, mas trata de amizades e trabalho em equipe em função de um mesmo sonho. Ao apostar no aspecto humano o filme ganha força, potencializado pelas impressionantes cenas de corrida, que não são poucas. Ao compreender as melhores características do automobilismo, o filme se beneficia como cinema e como entretenimento.

Felipe Fernandes

 

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