O Irlandês (Netflix)

(The Irishman, 2019) De Matin Scorsese. Com Robert DeNiro, Al Pacino, Joe Pesci, Bobby Cannavale, Ray Romano, Anna Paquin, Jesse Pleamons, Stephen Graham, Jack Huston e Harvey Keitel.

Martin Scorsese tem bronquite crônica. A doença (que alias, compartilho com o diretor. Nossa única semelhança) foi diagnosticada na infância e o impedia de brincar com os amigos nas geladas ruas de Nova York. Sentado na janela de sua residência, no Brooklyn, ele assistia diariamente as operações rotineiras da Máfia italiana dos anos 50 e 60. Os negócios, as amizades, conexões, roupas e até a maneira de andar de homens tratados com muita admiração pela comunidade.

Em O Irlandês (que estreia na Netflix dia 27 de novembro), o diretor retoma estes mesmos conceitos, que se tornaram sua assinatura e consolidaram sua carreira desde o primeiro filme; a amizade entre criminosos, a violência de seus atos e admiração que este mundo exerce no público. De quebra, volta a se reunir com atores que ajudou a consagrar (tirou Keitel e Pesci da aposentadoria) e nos brinda com as melhores atuações de Al Pacino e Robert DeNiro em décadas.  

Próximo de completar 50 anos de carreira, Scorsese não é só um diretor aclamado por clássicos do cinema como Taxi Driver (1976), Touro Indomável (1980), Os Bons Companheiros (1990), entre dezenas de outros. Scorsese atingiu patamares inalcançáveis até pelos grandes mestres da Sétima Arte, que ele mesmo admira. Extenso conhecedor da história e linguagem cinematográfica, foi chamado por Michael Mann de “Diretor dos diretores”, virou gênero de comparação (“Estilo Scorsese”), e gerou apelidos a dezenas de cineastas das novas gerações (Tarantino e Saulnier, por exemplo) como “novos Scorsese”.

Mas os tempos mudaram e Scorsese soube se adaptar também. Continua estudioso das novas linguagens. Aderiu ao digital na virada do milênio quando muitos ainda relutavam. Abusou do CGI em O Aviador (2004), experimentou com o 3D em A Invenção de Hugo Cabret (2011) e finalmente ganhou seu Oscar com Os Infiltrados (2006). Enquanto muitos se encontram estacionados em seus conceitos, planejam o fim da carreira, ou pior, caem no esquecimento, Scorsese parece se energizar com as inovações e a cada projeto nos relembra porque se tornou uma lenda em sua arte.

Baseado no livro I Heard You Paint Houses (2004), de Charles Brandt, a trama do novo filme gira em torno de Frank “O Irlandês” Sheeran (DeNiro), um veterano da Segunda Guerra e caminhoneiro que virou um dos mais importantes assassinos da Máfia na década de 60. Ao longo de três horas e meia de duração, a produção mostra sua ascensão no submundo do crime até seu abandono em uma casa de repouso nos anos 90, com destaque aos eventos que levaram ao desaparecimento do líder sindical Jimmy Hoffa (Pacino), em 1975.   

A atenção as datas não é tão importante quanto a atenção aos acontecimentos. Passamos da Segunda Guerra até o assassinato de Kennedy sem que os lettrins nas cenas explicitem as datas dos eventos. Para retratar tanto tempo, o diretor faz uso da tecnologia de rejuvenescimento facial que permite os atores vivenciarem a história dos vinte aos oitenta anos de uma forma nunca antes vista (o efeito de computação não é perfeito, mas é completamente invisível após a primeira meia hora).

A comparação é inevitável, mas não, O Irlandês não é Cassino (1995) ou Os Bons Companheiros (1990). E nem precisa ser. É um filme de um diretor maduro, preocupado com a chegada da terceira idade e o legado que deixamos para as futuras gerações. Não por acaso, é seu filme menos violento dentre todos do gênero. É lento sem ser cansativo. É contemplativo sem ser chato. É sincero, nostálgico e até engraçado em diversos momentos.

Dizer que DeNiro e Pacino estão brilhantes é covardia. Todo o elenco do filme está absolutamente no topo da forma! Imagino que mesmo Anna Paquin (True Blood) – que tem duas linhas de falas no roteiro – deve ter se preparado ao extremo para não decepcionar o mestre. Entre todos, Joe Pesci foi quem mais me surpreendeu. Suas últimas cenas no filme são de uma simplicidade e brilhantismo que até emociona. Seu personagem é o equilíbrio moral de um mundo imoral, e assisti-lo justificar suas escolhas para o melhor amigo (sempre em volta de uma mesa), já é uma das melhores cenas do ano.

A última hora de O Irlandês é o maior presente que Scorsese poderia dar à seu público. Um aula de tensão, emoção e redenção. Longe da apologia e reverencia que sempre foi (injustamente) acusado de fazer à Máfia, em suas produções. Assim como as frases que, ao longo do filme, nos dizem como alguns gângsteres morreram de forma brutal, a conclusão é a prova mais certa do legado devastador que nos assombra no fim. E como estar vivo depois de tudo, pode ser o pior dos castigos.

Mas não esqueça que os tempos são outros. Sempre veremos o nome de diretores como Scorsese envolto em polêmicas porque é fácil potencializar tudo que diretores como Scorsese dizem – a mais nova questiona sua opinião sobre filmes de super-heróis, ainda que sua filmografia tenha servido de base para a realização do super-vilão Coringa, de Todd Phillips.

A questão é: não existem mais diretores como Scorsese, e só isso já é razão suficiente para você assistir sua nova obra. Certamente, encontraremos dezenas de críticas apontando o pouco espaço das mulheres no filme, os excessos de Pacino, ou o silencio demasiado de DeNiro. Outras dezenas criticarão a computação gráfica e a longa duração do filme (honestamente poderia ficar mais meia hora neste universo e eu nem reclamaria).

Sim, os tempos realmente mudaram. Opiniões divergentes são controversas vazias em sites de notícias. Inclusive, alguns dos “novos Scorsese” já até falam em aposentadoria. Não tem problema! Enquanto a bronquite ainda nos permitir contemplar filmes do “Original”, seja no telão ou no conforto de nossa sala, o cinema, em todas as suas formas e inovações, ainda tem muito que agradecer e se surpreender com Martin Scorsese.

Marcelo Cypreste

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