A Vida Invisível

Vida
(Idem, 2019) De Karim Aïnouz. Com Carol Duarte, Julia Stockler, Gregório Duvivier, Maria Manoella, Flávia Gusmão, Bárbara Santos, Nikolas Antunes, Cristina Pereira, Flávio Bauraqui e Fernanda Montenegro. 

A Vida Invisível é uma obra que traz no seu título uma mensagem clara, mas que dentro de sua narrativa traz diferentes interpretações, todas elas válidas e relevantes, usando a sociedade da década de 50 para expor a relação social da mulher que segue atual mesmo passados quase 70 anos.

O longa abre com duas irmãs,  Guida (Julia Stockler) e Eurídice (Carol Duarte) em um momento de contemplação e serenidade, em que juntas apenas observam o horizonte e parecem vislumbrar em silêncio um futuro esperançoso.  Ao retornar, elas acabam se perdendo em meio a natureza exuberante, passando a buscar uma a outra. É uma abertura aparentemente inofensiva, mas que diz muito sobre a história das duas irmãs.

Eurídice sonha em se tornar pianista em um famoso conservatório europeu, Guida é uma mulher impetuosa, que acaba fugindo com um marinheiro grego, na esperança de viver sua grande paixão na Europa. Ao retornar grávida e sozinha, ela é expulsa de casa pelo pai conservador que ainda passa a informação de que a irmã realizou o sonho do conservatório de Viena. Uma mentira criada pelo pai que mantém as duas afastadas e cria entre elas a sensação de que a outra conseguiu uma vida melhor longe dali. Ambas então passam a viver vidas contraditórias em que compartilham os mesmos sentimentos e o forte desejo de se reencontrarem.

Baseado no livro de Martha Batalha, acompanhamos a história das irmãs sucumbindo a posição da mulher dentro daquela sociedade, abrindo mão de seus sonhos em função das imposições sociais e das necessidades e é inevitável que pensem uma na outra  em vidas bem sucedidas e distantes que sabemos não existir, tornando tudo muito mais triste.

E daí vem o principal significado do título da obra. Questões como sexualidade (a cena da primeira noite de Eurídice com seu marido é uma das melhores deste ano), o matrimônio e principalmente a maternidade, se tornam pontos centrais dessa vida opressora, que torna invisível sonhos, desejos, necessidades e particularidades dessas mulheres aos olhos dos outros.

Dirigido pelo cineasta cearense Karim Ainouz (Madame Satã), o filme transita bem entre as duas histórias e suas passagens de tempo, utilizando as cartas de Guida como elemento dessa demarcação temporal. O filme sofre com alguns diálogos expositivos que destoam diante de uma obra tão segura. Mas o roteiro merece créditos por trabalhar os personagens secundários de forma eficiente, dando o devido espaço para que com um desenvolvimento econômico, possamos nos importar com eles e alguns momentos, principalmente nos estrelados por Filó (Bárbara Santos), são impagáveis.

O cineasta e a diretora de fotografia Hélène Louvart trabalham uma fotografia muito granulada e fazem uso de uma mistura entre cores dessaturadas, ressaltando a falta de vivacidade daquela realidade, mas sempre usando cores vivas, quentes, principalmente em figurinos e detalhes dos cenários, revelando que os desejos das protagonistas ainda existem, mesmo que soterrados pela realidade.

O diretor resumiu sua obra como um melodrama tropical, uma definição que soa perfeita já que o filme lida com elementos de melodrama, um gênero difícil de se trabalhar, nas mãos de alguém menos experiente, poderia descambar para o exagero, comprometendo a obra. O elemento tropical vai além da natureza brasileira, é um elemento estético importante, que funciona como uma ligação entre as irmãs, não por acaso sempre que elas se imaginam juntas, elas estão cercadas de folhas grandes e verdes, numa representação de um paraíso tropical que parece pertencer somente a elas.

No elenco, Carol Duarte interpreta Eurídice com uma intensidade crescente, que aumenta conforme a personagem se vê cada vez mais presa e sufocada pela vida que leva. É impressionante constatar que essa é a estréia de Julia Stockler no cinema. A atriz entrega uma atuação muito terna e segura, de uma personagem de resiliência admirável, que forjada nas necessidades cresce a ponto de se tornar primordial na vida de outros necessitados. A química entre as duas é essencial para o funcionamento da relação, ainda mais pelo pouco tempo de tela que elas dividem juntas.

Bárbara Santos traz humor e calor humano a personagem Filomena, mostrando esconder cicatrizes provenientes de situações muito próximas das que vive Guida, elas se tornam grandes amigas e fundamentais no futuro de ambas. Gregório Duvivier é uma escolha de elenco arriscada e mesmo que ele consiga fugir do clichê do marido machista ao mostrar fragilidades pontuais, seu personagem soa um pouco deslocado, mas confesso que interpretei esse deslocamento como proposital e importante para mostrar a falta de compatibilidade de seu personagem com Eurídice.

Fechando o elenco, Fernanda Montenegro (Central do Brasil) surge no terceiro ato (não por acaso vestindo vermelho, elemento que demonstra que mesmo com a idade seus desejos seguem vivos) em uma atuação sutil e arrebatadora, que demonstra mais uma vez o porque dela ser uma das maiores atrizes do mundo.

A Vida Invisível é um longa essencial. Delicado, retrata temas atuais e universais de forma comovente e bem trabalhada. Karim Ainouz realizou uma obra que dialoga com o mundo e com a sociedade atual sem perder sua brasilidade. É o cinema brasileiro forte, imponente, como a muito não se via na corrida pelo Oscar.

Felipe Fernandes

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