História de um casamento

(Marriage Story , 2019), de Noah Baumbach. Com Adam Driver, Scarlett Johansson, Azhy Robertson, Laura Dern, Ray Liotta e Alan Alda.

Assim como em um relacionamento, começamos sendo apresentados as melhores características de cada personagem, detalhes íntimos, pequenas coisas do dia-a-dia, tudo através do olhar carinhoso do parceiro. É uma passagem muito bonita e eficiente em nos fazer simpatizar com aquele casal. Após criada essa conexão, o filme nos apresenta ao real momento da relação, ele estão em processo de separação.

 “História de um casamento” é um retrato intimista de um casal de artistas em seu momento mais difícil e as consequências que isso vai trazer para os dois que tem no filho o ponto principal de uma disputa.

O diretor e roteirista Noah Baumbach (A lula e a baleia) é um cineasta que trabalha muito bem esse aspecto de conflitos em família. O divórcio não é um tema novo em seus trabalhos, mas ele nunca havia produzido algo nesse grau de intensidade. Seu roteiro trabalha bem a dinâmica de um casal que tem diversos problemas, mas não se odeiam. Mostrando como o processo de separação pode ser complicado e principalmente doloroso em qualquer circunstância.

O roteiro é muito bem amarrado, as qualidades (informações) apresentadas na abertura se encaixam na história e ajudam a moldar as atitudes do que acontece em diante. Uma situação que começa como duas pessoas que se respeitam tentando se acertar, vai crescendo, fugindo de controle, tudo muito motivado por ressentimentos do passado e por questões legais, de um sistema mais do que pronto para expor seus clientes em busca de dinheiro e de um uma suposta vitória jurídica.

Fica claro o desejo do diretor de não tomar um partido na história e principalmente os diálogos são bem sucedidos nesse aspecto, mas o filme termina por assumir o lado de Charlie (Adam Driver), o pai que precisa trocar de cidade e abandonar seu trabalho (sua prioridade) para conseguir se manter próximo do filho.

Essa troca de cidade é outro elemento muito explorado, afinal, ele agora vive na terra de Nicole (Scarlett Johansson), sua ex-esposa, tendo de lidar com a família dela de perto e por mais que o relacionamento entre eles seja até muito bom, ele é o estranho ali. Não por acaso nos dois Halloween que ele passa em Los Angeles, ele se fantasia como personagens que não conseguem ser vistos, no primeiro caso por escolha própria, na segunda por escolha da família da ex-esposa, em um retrato triste de um homem que sempre vai estar ligado aquela família, mas sempre em segundo plano.

Os diálogos são outro grande destaque do filme. São essenciais para estabelecer as relações não só da família principal, mas de Charlie com a família da esposa  Ao mesmo tempo em que conseguem estabelecer o real sentimento que um nutre pelo outro, são as palavras ditas, mais do que qualquer coisa, que ferem, que deixam marcas e muito da situação chegou até ali por meio delas.

O filme traz algumas das melhores atuações dessa temporada e deve ganhar indicações no Oscar 2020. Adam Driver têm a melhor atuação de sua carreira. A forma quase passiva com que tenta lidar com uma situação até então inconcebível para ele, é comovente. Ele se vê perdido e sozinho em uma situação nova, em uma cidade estranha, onde ele não tem amigos nem referências.

Scarlett Johansson  tem uma atuação soberba em um papel muito difícil, pois em diversos momentos é fácil sentir raiva de sua personagem, não pela separação, mas por ser ela quem leva a situação pra justiça. O trabalho da atriz é essencial para o funcionamento do filme, indo além dos diálogos, ela consegue transparecer que apesar de todo o difícil processo de separação, ela nutre um carinho enorme pelo ex-marido, é inegável que eles compartilharam algo muito especial e esse elemento traz um peso dramático muito maior a todo o filme.

Merecem destaque Laura Dern (Jurassic Park) que interpreta a advogada contratada por Nicole, uma atuação muito interessante de uma personagem que é o contra ponto humano da produção, como advogada, ela quer fazer uso da lei para conseguir o melhor para sua cliente e demonstra em várias oportunidades que vai fazer de tudo para conseguir o que quer.

Outra grata surpresa é Ray Liotta (Os bons companheiros), que interpreta um advogado que é uma grande caricatura, mas que funciona muito bem dentro da surrealidade do direito de família norte americano. O embate entre os advogados é interessante e expõe mais do que os erros passados do cliente, mas a natureza dos advogados deste tipo de segmento.

“História de um casamento” é um filme muito real. Cruel, intenso e comovente, traz uma história que vai encontrar reflexo em muitos espectadores. Fica a certeza que em um divórcio, por mais que seja necessário em alguns casos, é um processo desgastante, que pode aflorar o pior do ser humano, uma disputa em que todos saem perdendo.

Felipe Fernandes

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