Os Miseráveis

(2019, Les Misérables) De Ladj Lu. Com Damien Bonnard, Alexis Manenti, Djibril Zonga, Sofia Lesaffre, Steve Tientcheu e Almamy Kanoute.

Você já viu a cena antes; dois homens parados de frente apontam armas um pro outro. A imagem (erroneamente conhecida como “Impasse Mexicano”) é clássica e já foi repetida diversas vezes em filmes de ação dos anos 90, eternizada por John Woo e glamorizada no poster de Cães de Aluguel, de Quentin Tarantino. Sua alusão à um equilíbrio de forças e igualdade estável é muito simbólica e até bela. Não importa quem você é ou de onde veio. De ambos os lados, antes que um dos dois oponentes tome uma decisão, por alguns segundos, existe uma espécie de paz.

Ao ler o título, à primeira vista, muitos (assim como eu), irão pensar que Os Miseráveis é a enésima adaptação da obra clássica de Victor Hugo, transformada em musical para o Cinema e Broadway. Este filme está mais para Dia de Treinamento (2001) com toques de Cidade de Deus (2003), Faça a Coisa Certa (1989) e Detroit em Rebelião (2017).

Assim como na narrativa do livro, também acompanhamos diversos personagens de um bairro pobre e violento de Paris. As referencias à obra param por ai. Ao longo de pouco mais de um dia, acompanhamos a tensão e o calor aumentando entre comunidades de muçulmanos, africanos, ciganos, palestinos, indianos e outras milhares de nacionalidades que formam a babel pobre de um subúrbio francês, que vivem sob um tênue equilíbrio administrado por um grupo de elite da policia formado por apenas três oficiais.

O filme não desperdiça tempo em sua primeira hora, ao nos apresentar aos personagens pelos olhos de Stéphane (Damien Bonnard), um destes policiais, em seu primeiro dia. Não demora muito pra descobrirmos quem é quem na organização informal da comunidade. Chama atenção a maneira que o diretor faz essas introduções sempre através dos diversos conflitos que permeiam essa panela de pressão prestes a explodir. Vale reparar como todas as cenas praticamente determinam um embate entre esta pessoa versus aquela outra. Ou o pensamento de um grupo em contraste com o de outro. É um simples recuso, que acentua nossa tensão como espectador para o que virá à seguir.

Quando um ato imaturo inicia um conflito entre duas comunidades, os nervos se exaltam e vira uma questão de tempo até que uma ação impulsiva leve a outra ainda mais angustiante, até uma explosiva conclusão que definitivamente não estava nas minhas expectativas do filme.

Dirigido pelo iniciante Ladj Ly, oriundo da tal comunidade parisiense e profundo conhecedor da realidade que retrata neste filme, Os Miseráveis é uma adaptação de seu premiado curta de mesmo nome, de 2017. Assim como no já citado Cidade de Deus, Ly consegue tirar muita segurança de um grupo de atores (em sua maioria amadores), não só em cenas menores e aparentemente sem importância para trama central, mas também, chamar atenção para uma sociedade partida, desestruturada e constantemente ameaçada.

Lá estão os policiais despreparados e inquietos por uma autoridade que não os pertence mais. Assim como o político “gente como a gente” que circula entre a população imponente, faminto pelo poder que acha ter direito. Mas também as mães, avós e tias que batalham contra a realidade da pouca liberdade que a pobreza e a religião as limitam.

Mas principalmente, os jovens. Este filme é acima de tudo um recado para a juventude desamparada e sem lugar no mundo dos dias de hoje. Os jovens que sofrem assédio no caminho para a escola, trabalho ou seja qual for a expectativa de uma vida melhor. Os jovens que nada tem a perder e passam o tempo brincando, roubando ou ocupando o tempo com algo menos doloroso que a realidade.

Não é à toa que o filme começa durante a final da Copa do Mundo 2018, mostrando um dos poucos momentos de união e alegria entre franceses de nascimento ou imigrantes, durante a comemoração de um título. Um contraponto muito interessante dos dias que se seguirão à partir daquele momento, e o abismo que os afastam da Liberdade, Fraternidade e Igualdade que foram prometidos.

E é ai que o filme ganha um peso diferente de produções similares do gênero. Muito mais que um criminoso ou trabalhador, policial corrupto ou novato, o diretor nos mostra que aquelas pessoas, muito além do estereótipo, também tem seus afazeres, contas, amores e problemas particulares. São filhos, pais e maridos de carne e osso.

Pessoas como talvez você conheça na sua realidade diária. Pessoas que precisam de “máscaras” para ter coragem de sair nas ruas e encarar um mundo individualista e bruto. As máscaras que separam quem realmente somos no conforto de nossa privacidade daqueles avatares que assumimos em nossos trabalhos ou grupos sociais.

Afinal por que nos transformamos na pior versão de nós mesmos quando cruzamos a porta da rua? Como desligar esse ódio ou medo? Como saber se não estamos trazendo essa desconfiança e apreensão para dentro de nossas vidas privadas e assim destruindo também nossas comunidades e, em última instância, nós mesmos?

Os Miseráveis nos deixa com a sensação de que talvez alguma coisa em nós esteja quebrada. Tão quebrada que somos incapazes de nos afeiçoar além da aceitação imediata das curtidas sem rostos e dos milhões de seguidores. Tão quebrada que assumimos que qualquer um parado na nossa frente é o inimigo ou uma ameaça, como na tal cena clássica que o Cinema eternizou.

E simples assim, em meio à um duelo entre dois homens, duas realidades, duas verdades, deixamos a sala de cinema nos perguntando se ainda há tempo de remendar esta rachadura que nos separa, e também finalmente encontrar, nem que por alguns segundos, alguma espécie de paz.

Marcelo Cypreste

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