Joias Brutas (Netflix)

(Uncut Gems, 2019), de Josh e Ben Safdie. Com Adam Sandler, Idina Menzel, Julia Fox, Lakeith Stanfield, The Weeknd, Kevin Garnett, Eric Bogosian e Judd Hirsch

Começando na Etiópia, a primeira cena nos apresenta um minerador com sua perna dilacerada, enquanto é ajudado por outros mineradores. São homens trabalhando em péssimas condições na busca por pedras preciosas, uma situação que demanda esforço e muita sorte, já que o acaso nessas situações podem mudar a vida de um daqueles homens.

Encantados com o brilho daquelas pedras, os diretores Benny Safdie e Josh Safdie criam uma transição muito bonita, em que uma viagem etérea por dentro da pedra, termina em um exame onde é examinado o interior do protagonista, em uma rima visual que remete a várias temáticas que encontraremos por todo o filme.

Joias Brutas é um filme intenso, claustrofóbico, cheio de causas e consequências que vão se misturando e construindo uma situação imensa e complexa, deixando o carismático protagonista em uma rede de problemas difícil de resolver.

Na trama, Howard Retner (Adam Sandler) é um joalheiro trambiqueiro, viciado em jogo, que está cheio de dívidas e vê em uma pedra não lapidada enviada da Etiópia, a chance de conseguir resolver suas dívidas, iniciando então uma série de acontecimentos que vão mudar sua vida.

O vício é um dos temas recorrentes na filmografia dos diretores. Aqui, o vício é em jogo e quando somos introduzidos ao protagonista, ele já se encontra endividado e correndo de um lado para o outro, agindo situações e oportunidades as quais ele consiga se dar bem.

Escrito pelos diretores e seu parceiro habitual Ronald Bronstein, o filme traz Retner em movimento durante quase todo o tempo. Mesmo quando ele está parado, ele está ao celular tentando resolver outro problema, muito da intensidade do filme vêm desse amontoado de problemas, o protagonista para resolver um problema, constrói outro e tudo vai formando uma grande pirâmide em que ele não consegue controlar.

Curioso é que se trata de um sujeito aparentemente bem estabelecido, tem uma família com uma casa muito bacana, mora e mantém a amante em um apartamento estiloso, e aparentemente esse estilo de vida já rendeu bons frutos para ele. Mas assim como o jogo, quem ganha quer sempre mais e ele não sabe a hora a de recuar. A emoção daquele estilo de vida parece ser o grande motivador, vencer o acaso é o seu vício.

O filme tem uma estética setentista, com seus ambientes cheio de luzes, simulando neon, principalmente a joalheria de Retner e seu apartamento, sensação realçada pela trilha sonora. A crueza de muitas cenas remete aos filmes da década citada, esse é um elemento que os outros filmes do Safdie também carregam. Suas histórias se passam em ambientes urbanos, próximo de nós, mas que funcionam quase como em uma camada abaixo da comum.

Outro elemento inerente ao vício que o filme aborda é como nos momentos de desespero uma mínima coisa que dá certo, passa a ser um sinal de que a sorte virou de lado, seja o exame que deu negativo, ou até mesmo a amante que se reconcilia com ele, é o suficiente para Retner voltar revigorado ao seu jogo. Não por acaso a pedra funciona como esse objeto de sorte, tanto para Kevin Garnett (uma excelente surpresa) e parece funcionar para o protagonista, que age como se realmente acreditasse no que está vendendo.

Outra grande surpresa é a atuação de Adam Sandler e por mais que ele já tenha provado em outros filmes que têm potencial para boas atuações. Seu trabalho aqui é bem diferente de tudo o que ele já havia realizado, fugindo completamente de sua zona de conforto. Ele traz carisma para um personagem que leva todo mundo na base da conversa, não se mostrando nunca um homem violento. Ele encara agiotas e gangsters perigosos apenas com suas idéias e sua lábia. Levar a melhor sobre eles é só um de seus maiores prazeres.

A cena da Etiópia e sua transição já afirmam o que aquela pedra de fato traz e a transição da pedra para o organismo de Ratner diz muito sobre a personalidade do personagem e sua ambição. Os irmãos Safdie conseguem criar um ritmo intenso em um roteiro inteligente e ainda usam transições inventivas que falam muito sobre a narrativa.

Jóias Brutas é um passo adiante tanto na carreira dos diretores que em seu terceiro longa, provam ser dois dos diretores mais interessantes da atualidade, quanto para Sandler. Fica a lição que sair da zona de conforto pode fazer muito bem a sua carreira

Felipe Fernandes

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