Adoráveis Mulheres

(Little Women, 2020), de Greta Gerwig. Com Saoirse Ronan, Emma Watson, Florence Pugh, Timothée Chalamet, Laura Dern, Eliza Scanlen, Louis Garrel, Bob Odenkirk, Chris Cooper e Tracy Letts.

Se a personagem principal for uma mulher, garanta que ela case no final. Ou morra, tanto faz.

Mr. Dashwood (Tracy Letts)

O livro de Louisa May Alcott é uma obra que já foi adaptada a exaustão. Isso comprova seu caráter cinematográfico. Mas o mais interessante é que aparentemente é uma obra que dialoga com diferentes momentos históricos. Analisando apenas pela nova versão, escrita e dirigida por Greta Gerwig, é um história que encontra reflexo no atual contexto da mulher na sociedade moderna, nesse sentido o timing de Greta em trazer uma nova adaptação se mostra uma decisão bastante acertada.

Na trama, quatro irmãs com dons artísticos distintos vivem sua juventude em meio a sonhos e dificuldades, buscando uma vida melhor para si e para a família, enquanto precisam lidar com uma sociedade patriarcal e questões próprias do amadurecimento.  

Greta adota uma dinâmica no roteiro que cria um ritmo bem interessante e permite que o filme se torne uma espécie de quebra cabeças. Ela acompanha duas linhas temporais simultaneamente, uma mostrando as jovens morando juntas e uma segunda que acompanha as meninas já adultas, cada uma trilhando seu próprio caminho. Aos poucos os acontecimentos entre uma e outra linha vão se completando e ajudando a compreender a histórias das irmãs.

Para diferenciar os dois tempo, a diretora opta por usar tons de cor mais quentes e saturadas nos cenários, figurinos e fotografia e em contraste, usa cores frias e dessaturadas nos momentos que acompanhamos o tempo presente. É uma escolha convencional, mas bem interessante, pois salienta o poder das lembranças, onde costumamos sempre a lembrar com carinho as alegrias os bons momentos que passaram.

A montagem do filme também é muito interessante, ao transitar entre os tempos fazendo uso apenas do corte seco, sem muitas explicações ou pistas visuais (fora a questão das cores) que indiquem essas mudanças.

O texto também conta com um discurso bem moderno, fica difícil para quem não leu a obra definir se foi uma atualização realizada pela diretora, ou se a obra original já traz alguns dos diálogos apresentados no filme, mas tudo soa muito orgânico, tornando aquelas personagens fortes, reais.

A produção ainda flerta com a metalinguagem em planos que as personagens parecem olhar para a câmera (quase que uma quebra da quarta parede) e com uma mistura que em alguns momentos fica difícil definir entre a realidade e a ficção que está sendo escrita pela protagonista.

Contando com um elenco recheado de estrelas, um dos méritos do filme é conseguir criar o senso de família, sensação que aumenta com a participação dos coadjuvantes. É cativante assistir as quatro mulheres e sua mãe (Laura Dern), e Greta não usa os dons artísticos como muleta para distinguir as personagens, cada uma tem suas características muito bem definidas e justamente o contraste de jeitos e idéias move muito da história.

Os destaques do elenco vão para Laura Dern (História de um Casamento), que interpreta a matriarca da família e consegue com muita ternura e um olhar para o próximo, se apresentar como a verdadeira responsável pelas idéias vanguardistas das filhas, tornando tudo mais crível. Timothée Chalamet (Me Chame Pelo Seu Nome), é o vizinho rico que se torna grande amigo das irmãs e mesmo com seu estilo arrogante  e inconsequente, acaba se envolvendo com elas e têm papel fundamental nas relações. Chalamet têm um estilo meio inexpressivo que incomoda muitas vezes, mas que aqui funciona muito bem.

Florence Pugh (Lady Macbeth) está muito bem como Amy, a irmã do meio, que funciona quase que um contraponto da protagonista e mesmo que as duas tenham diversas desavenças, Florence consegue dar carisma a uma personagem aborrecida em sua essência.

Fechando os destaques do elenco, Saoirse Ronan (Lady Bird) interpreta a protagonista Jo com uma intensidade cativante, sua composição foca na determinação da personagem, tanto em seguir seus ideais, quanto de ajudar sua família. Ela ainda carrega um jeito meio “moleque”, mas sem nunca abrir mão de sua feminilidade.

Adoráveis Mulheres é um filme sobre família, sobre amores, sobre a arte, mas principalmente sobre mulheres. É um drama de época com uma mensagem bem atual, mas que vai além dela. Com uma estrutura muito interessante e um terceiro ato arrojado, Greta Gerwing prova mais uma vez que seu cinema vai além da mensagem de seu texto, seus filmes tem muito mais a dizer.

Felipe Fernandes

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