Arlequina em Aves de Rapina

(Birds of Prey, 2020) De Cathy Yan. Com Margot Robbie, Mary Elizabeth Winstead, Jurnee Smollett-Bell, Ewan Mcgregor, Rosie Perez, Ella Jay Basco e Chris Messina.

Criada em 1992, a Arlequina é uma personagem com uma trajetória curiosa. Sua primeira aparição se deu na clássica série animada do Batman e surgiu como uma ajudante do Coringa. Com o sucesso da personagem, ela acabou ganhando vida nos quadrinhos, um caminho inverso do que normalmente acontece e com o tempo ganhou série própria e se tornou uma personagem que vai muito além do arquivilão. 

Sua primeira versão cinematográfica veio no terrível Esquadrão Suicida (2016), onde a personagem é uma das poucas coisas que se salvaram. Tal qual nos quadrinhos, a personagem agora é desassociada tanto do grupo quanto do Coringa, e surge em uma aventura que traz ela como protagonista e líder do primeiro grupo de heroínas.

Aves de Rapina: Arlequina e sua Emancipação Fantabulosa – com esse título inacreditável, chega aos cinemas como nova aposta da DC Comics. O novo filme da personagem já traz sua confusão no título, não sabendo se é de fato um filme de um grupo de heroínas ou um filme solo da personagem. 

Na trama, Arlequina (Margot Robbie) termina sua relação com o Coringa e passa a ser perseguida por tudo o que é tipo de bandido que deseja se vingar dela. Em meio a tudo isso, ela precisa encontrar um diamante que contém informações que podem levá-la a uma fortuna. A corrida a este objeto vai junta-la a outras mulheres em uma luta por sobrevivência e pelo controle de Gotham.

Se o título causa confusão, tenha certeza, se trata de um filme da Arlequina. As Aves de Rapina do título são coadjuvantes muito pouco exploradas pelo roteiro. O filme abre contando sua origem através de desenhos que são eficientes em agilizar a introdução e em imprimir o estilo colorido que o filme propõe. A ideia da emancipação da personagem é muito interessante, distanciando a personagem não só do Coringa, como de tudo o que veio antes e permitindo a personagem assumir as rédeas de sua história. 

Narrado pela personagem, o filme têm uma estrutura de roteiro com idas e vindas, com a protagonista quebrando a quarta parede, parando a história no meio da ação para explicar uma personagem nova que acaba de aparecer, dando uma perspectiva interessante de como funciona a linha de raciocínio instável da personagem. Mas é um recurso que lá pro meio do filme começa a cansar, servindo mais pra cobrir buracos do roteiro do que para fazer a história andar.

 O universo sombrio da DC é mantido aqui – a quebra acontece justamente nas intervenções da protagonista, criando um contraste de estilos interessante. As cenas da explosão da Acme e da invasão da personagem a delegacia são os pontos fortes do filme. São esteticamente deslumbrantes e (principalmente a segunda) têm cenas de ação realmente empolgantes.

 O problema é que o filme não consegue manter essas qualidades durante o restante da obra. As próprias Aves de Rapina são compostas por personagens sombrias que se identificam mais com o mundo sombrio do que com a protagonista. As cenas de ação como um todo são bem burocráticas e não têm o mínimo da originalidade da tal sequência da delegacia. 

Renee Montoya (Rosie Perez), Canário Negro (Jurnee Smollett-Bell), A Caçadora (Mary Elizabeth Winstead) e Cassandra Cain (Ella Jay Basco), são as outras integrantes do grupo e todas são muito pouco exploradas. Cada uma delas ganha praticamente um pretexto para se envolver na trama e a própria formação do grupo acontece mais por necessidade do que por afinidade (o que não chega a ser um problema). As atrizes se esforçam, mas fica difícil se importar com qualquer uma delas.

Outro ponto problemático do longa é o vilão, e todo e qualquer personagem masculino que surge no caminho das personagens. O Máscara Negra (Ewan McGregor) e seu capanga Victor Zsasz (Chris Messina) são insuportáveis. Dois clichês de vilão da pior espécie.

McGregor interpreta um chefão do crime afetado, que grita, gesticula muito, em um estilo caricato onde o ator nunca encontra o tom do personagem. É sem dúvida, um dos piores trabalhos do ator. Já Zsasz é somente o capanga que ganha nome, em meio a tantos homens mal encarados e descerebrados que surgem na produção, num grupo de personagens difícil de aturar. Ao final acabam como buchas pras mulheres descerem o cacete, o que acaba enfraquecendo justamente um dos conceitos importantes da produção.

O grande destaque  é Margot Robbie. Sua versão da Arlequina é realmente marcante e a atriz demonstra estar muito a vontade no papel, mas o filme prova que a personagem não tem força pra comandar uma história sozinha. Logo, colocar ela como a líder de um grupo é uma ótima ideia, pena que isso aconteça no terceiro ato e de forma bem apressada. Como já frisei, é um filme da personagem em que as outras mulheres acabam se envolvendo.  

O título do filme é tão problemático que após um primeiro final de semana financeiramente abaixo do esperado, a DC/Warner já mudou o nome do filme para Arlequina em Aves de Rapina, na tentativa de chamar atenção pra personagem e levar mais gente pro cinema. Ao menos o novo título é mais condizente com o filme. 

Melhor que seu predecessor, o filme da Arlequina com as Aves de Rapina têm idéias interessantes, que perdem força pelo comedimento. Talvez se o filme fosse mais colorido e exagerado, trouxesse um diferencial para a produção, mas do jeito que é, nunca abraça a visão da personagem. Acaba como um filme fraco, com alguns pequenos momentos que demonstram algum potencial.  

Felipe Fernandes

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