A Casa (Netflix)

(Hogar, 2020), de David e Alex Pastor. Com Javier Gutiérrez, Ruth Díaz, Mario Casas, Bruna Cusí, David RamírezDavid SelvasDavid Verdaguer.

Javier é um sujeito orgulhoso. É fácil se identificar com os conflitos e dramas de um homem que vê sua bem sucedida carreira e sua vida perfeita ruírem, em parte por sua culpa. Mais que perder o luxo conquistado, fruto do seu esforço, Javier gosta de manter as aparências, ele necessita disso.

O primeiro ato de A Casa é muito eficiente na construção do protagonista e de seu conflito principal. O roteiro escrito pelos irmãos Àlex e David Pastor (também diretores do filme) estabelece de maneira dinâmica a situação de Javier (Javier Gutiérrez) e sua família.

Enquanto a esposa encara de forma mais direta a situação, Javier carrega o peso do homem provedor, que se sente responsável pela situação e quando encontra conformismo em sua família, fazendo uma analogia, ele adota uma postura de tentar salvar o barco, mesmo que ele se salve sozinho.

O filme então se torna um suspense em que Javier se torna um stalker e vai ganhando a confiança da família que hoje reside em seu antigo apartamento. Assim como o primeiro ato, o início dessa relação é construído de forma cuidadosa, tornando muito natural a relação de Javier com Tomás (Mario Casas).

Um dos acertos do roteiro é o de fazer de Tomás um homem falho, porém de boa índole, mas que é o oposto de Javier. Se o protagonista batalhou para conseguir seu status social anterior e está disposto a tudo para recuperá-lo, Tomás ganhou aquela condição sem muito esforço e se mostra muito insatisfeito com isso.

Um fator interessante é que apesar de ser muito inteligente, Javier não tem experiência nesse tipo de situação e as cenas que mostram seus planos fugindo do controle por questões do acaso funcionam por tornar crível aquilo tudo.

Mas em determinado ponto da produção, Javier vai se tornando mais frio e seus planos perdem o efeito desse descontrole natural de quem nunca fez algo similar anteriormente e passam a ser tudo muito bem construído, perdendo muito do tom crível que o filme tinha até ali.

A direção dos irmãos Pastor é eficiente ao criar e manter um ritmo interessante, conseguem até certo ponto trabalhar a tensão de maneira crescente, mas são sabotados pelo próprio roteiro e seus problemas na transformação do personagem e em seu desfecho.

No elenco merecem destaque Javier Gutiérrez, que encontra o ponto certo do personagem, ele convence tanto como o cara desesperado, mas que não perde a postura, quanto o homem frio, que está disposto a cruzar qualquer barreira moral para recuperar sua condição.

Já Mario Casas se destaca como a vítima. Com seu físico forte, ele constrói um personagem que apesar de bem sucedido, não se sente confortável com a forma com que conseguiu aquela vida, sendo a antítese do protagonista.

Por mais que os diretores criem rimas visuais que são elegantes em enaltecer os sentimento do protagonista ao final da trama, o desfecho e a forma descuidada com que ele é apresentado, põe tudo a perder. A Casa se mostra um filme com bom elenco e algumas boas idéias desperdiçadas.

Existem vários filmes sobre o tema muito mais competentes e instigantes e a possível crítica social que o filme aparenta trazer em um primeiro momento e que poderia funcionar como diferencial, é abandonada em pró do suspense e das loucuras do protagonista, deixando o filme mais vazio e ordinário.

Felipe Fernandes

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