Dias sem Fim (Netflix)

(All Day and a Night, 2020), De Joe Robert Cole. Com Ashton Sanders, Jeffrey Wright, Yahya Abdul-Mateen II, Andrea Ellsworth e Isaiah John.

Abrindo a narrativa com um assassinato a sangue frio, Dias sem Fim, nova produção da Netflix, aborda a realidade dos jovens negros da periferia de Oakland na Califórnia, partindo dos acontecimentos na vida do assassino. Em sequência, já no julgamento, a mãe do morto questiona mais do que a motivação, mas qual a relação entre o jovem que atira e o jovem que é morto:

Aqui dentro deveria ser diferente de lá de fora. Em casa, eu só não via os muros.

Essa questão das relações, é algo realmente importante dentro do filme, que é dividido entre o momento presente com a entrada de Jah (Ashton Sanders) na prisão e seu passado, que é contado de maneira não linear, mostrando hora sua infância e principalmente em sua relação com seu pai JD (Jeffrey Wright) e hora sua vida meses antes do assassinato, quando vive de pequenos roubos enquanto tenta emplacar uma carreira como rapper.

Escrito pelo também diretor Joe Robert Cole, o filme faz através do protagonista um apanhado daquela realidade e através de questionamentos feitos por meios de narrações, estabelece parâmetros daquela realidade que estão enraizadas naquela comunidade desde o período da escravidão. Provocando uma reflexão sobre a condição do negro pobre e suas reais chances dentro da sociedade norte americana.

São temas importantes, mostrados de maneira bem dura e o aspecto cíclico com que tudo acontece aparenta não haver saída para os membros daquela comunidade, chegando a cena revoltante do interrogatório, quando um policial (branco) descobre que Jah é filho de um preso, perguntar se aquilo tudo é hereditário.

Essa forma direta, dolorosa e crua de abordagem atravessa todo o filme. A forma não linear com que a narrativa é construída faz com que criemos uma imagem do protagonista que vai de certa forma se modificando e se “justificando” por meio de sua relação com seu pai e do meio em que vive.

Quando a vida comum parece menos provável que ganhar na loteria, ás vezes, as escolhas que você têm, não parecem escolhas.

Aprendendo desde cedo e da pior forma, que teria que literalmente lutar por algum espaço, o filme mostra que Jah e sua visão de vida são diretamente influenciadas pela visão que ele têm do pai e isso funciona para o bem e para o mal.

Sua relutância em se manter afastado das drogas e do tráfico são diretamente ligadas a condição do pai, assim como sua postura perante as pessoas. O interessante é que o personagem renega o pai, mas se mostra muito próximo do que o pai era sem ao menos se tocar disso.

O filme carece do desenvolvimento de alguns personagens, principalmente do pai, JD. A relação entre pai e filho poderia ser melhor explorada, melhor desenvolvida, tornando ainda mais fortes a influência do pai na vida do protagonista. São poucas as cenas entre os dois e nenhuma que justifique muito do que o protagonista sente ou demonstra por sua figura paterna.

Ashton Sanders tem uma atuação que lembra muito seu trabalho no oscarisado Moonlight. O jovem introspectivo, sempre de feição fechada, como se o mundo a qualquer momento fosse o atacar, o que dentro da realidade de seu personagem, é uma postura completamente normal. Já Jeffrey Wright têm um papel importante, mas que aparece pouco e não é bem desenvolvido. A figura paterna acaba funcionando devido a presença marcante de Wright, que está em um grupo de atores que transmite enorme credibilidade sempre que estão em cena.

Narrado em um tom pessoal, Dias sem Fim é um retrato doloroso e violento das condições dos jovens negros de periferia nos Estados Unidos. Retrato, que fora algumas particularidades, poderia ser feito em alguma comunidade brasileira ou em outra parte do mundo. É um filme que provoca reflexões de uma situação que parece não dar nenhum sinal de melhora.       

Felipe Fernandes

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