Contágio (TBT)

(Contagion, 2011), de Steven Soderbergh, com Matt Damon, Jude Law, Lawrecence Fishburne, Kate Winslet, Marion Cotillard, Gwyneth Paltrow, Jennifer Ehle e Bryan Cranston.

OBS: Esse texto foi escrito em 2011, época do lançamento do filme.

Contágio é um filme  que se leva a sério, sem firulas ou segundas intenções. Tudo ao redor é derivado do pânico gerado pelo surgimento de uma forte doença que mata rápido. É como se acompanhássemos o surgimento da gripe espanhola nos dias de hoje.

Contando com várias tramas, todas ao redor da epidemia, o filme se divide em mostrar  pessoas comuns sobrevivendo, a reação de segmentos da sociedade e a procura de profissionais da área de saúde correndo atrás de uma cura para a perigosa doença. É o fim do mundo mostrado de forma plausível e possível.

O mais interessante deste projeto é a forma real com que ele trabalha em cima da situação e da histeria das pessoas. Quem perdeu pessoas próximas viveu um pouco dessa histeria a dois anos atrás com a gripe suína, e essa lembrança recente só torna o filme mais perturbador.

O filme trabalha diferentes linhas narrativas e acerta ao começar mostrando uma família comum, que atinge direto o espectador. As cenas mais fortes do projeto estão nessa sequência inicial.

Aqui o protagonista é a doença, e o roteiro escrito por Scott Z. Burns (O Ultimato Bourne, O Desinformante) é eficiente em criar uma doença com explicações suficientes para informar ao espectador sem soar chato.

O roteiro inclusive é bem enxuto. Até seu terceiro ato, o filme contem apenas cenas que o fazem andar, apesar de se perder em seu ato final (a necessidade de dar resoluções para tantas tramas é mostrada de forma súbita, como se o filme precisasse acabar, e a tentativa de se criar um final feliz enfraquece o terceiro ato).

Ao adotar essa estrutura de várias histórias, Burns acaba não conseguindo desenvolver seus personagens, justamente pelo pouco tempo de tela de todos eles. Mas esse equívoco acaba sendo ajudado pelo grande elenco, que se não criam grandes personagens, pelo menos conseguem fazer com que nos importemos com eles.   

O diretor e também fotógrafo Steven Soderbergh (Traffic, Chê) faz um trabalho interessante, utilizando planos econômicos em movimento. Ele usa e abusa das mudanças de foco e as utiliza para detalhar na tela o que quer que seja visto sem a necessidade de closes. Uma espécie de edição dentro da montagem do filme, decisão que se mostra acertada, além de ser muito mais elegante.

Soderbergh cria um mundo descolorido. A palheta de cores usada por ele tira a vivacidade das coisas, dando ao próprio mundo retratado um aspecto doente. Contando ainda com a boa montagem do seu parceiro em outras oportunidades Stephen Mirrione (21 Gramas, Boa Noite Boa Sorte), que dá ritmo ao filme, costurando com competência as diversas tramas.

A trilha composta por Cliff Martinez (Narc, Drive) colabora bastante com a tensão e a paranóia dentro do filme, servindo como ligação entre as tramas. Martinez (outro que sempre trabalha com Soderbergh) usa de sequências repetidas e ritmadas, misturando estranhos sons com pianos e batidas eletrônicas, que funcionam de forma ascendente criando grande tensão.

O elenco dessa produção é recheada de grandes nomes, aliás essa já é uma prática comum nos filmes desse diretor. Sabotados pelo roteiro, nenhum deles consegue criar personagens fascinantes, mas todos estão em boa forma e ajudam na construção do filme. 

Gwyneth Paltrow (Seven, Homem de Ferro) faz praticamente uma ponta, apesar da grandiosa importância do seu personagem. Matt Damon (A Supremacia Bourne, Os Infiltrados) é o pai enlutado, sendo ele a grande ligação como espectador comum, e é interessante ver a paranóia do personagem ao se excluir junto com a filha do mundo.

Laurence Fishburne (Apocalipse Now, Matrix) surge imponente como um dos líderes das autoridades na busca pela cura. Mesclando autoridade mas sem nunca perder sua humanidade, ele compõe um dos personagens mais complexos da projeção.

Kate Winslet (Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembrança, Foi Apenas um Sonho) interpreta a médica de campo que acompanha os horrores da doença de perto. Sendo uma das personagens mais bem utilizadas pelo roteiro, a sempre competente Winslet compõe a personagem mais interessante do roteiro. Marion Cotillard (Piaf, A Origem) interpreta uma médica que é o centro da trama mais exagerada e desnecessária do filme, seu personagem acaba sobrando.

Fechando o grande elenco, Jude Law (EXistenZ, A.I. Inteligência Artificial) interpreta um jornalista que usa a internet para expor boatos e difamar o governo. Atuando de forma quase caricata, usando próteses dentárias e se utilizando de tiques nervosos, Law tem o personagem mais controverso do projeto, é ele quem usa a mídia e a grande rede apenas como fontes de mentiras e boatos, gerando a crítica mais fraca do filme. Mas apesar disso é divertido ver o galã compondo um personagem tão diferente.

Contágio é um bom suspense, que aborda de forma séria e inteligente a situação de uma epidemia nos dias de hoje. A eficácia do tema me foi comprovada quando próximo do final uma mulher simplesmente tossiu na fileira acima, e eu, que não sou germofóbico me vi querendo sair logo dali. Pior que os germes, é a paranóia que se transmite por idéias.

Felipe Fernandes

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