A Vastidão da Noite (Prime Video)

(The Vast of Night, 2020), De Andrew Patterson. Com Sierra McCormick, Jake Horowitz, Mollie Miligan, Brandon Stewart e Cheyenne Barton.

A arte de contar histórias remete a tempos imemoriais e é certamente um dos maiores propulsores de todos os tipos de arte. Seja para registrar uma tradição, seja para compartilhar informações, a contação de histórias evoluiu com o homem e naturalmente com os avanços tecnológicos, ganhou novas ferramentas.

Na década de 50, um pouco antes do grande boom das TVs, a principal fonte de informação e de contar histórias ficcionais, era o rádio. Através de rádio novelas, histórias de diferente gêneros eram contadas, tendo seu ponto máximo a lendária adaptação radiofônica de Orson Welles de Guerra dos Mundos, uma transmissão criada com um tom realístico pouco usual para aquela época, que causou histeria no público desavisado que acreditou que se tratava de uma invasão alienígena real.            

Essa introdução pode parecer deslocada, mas são essenciais para o longa A Vastidão da Noite, um filme que funciona como uma homenagem aos filmes de alienígenas muito famosos da década retratada, mas principalmente uma grande homenagem ao rádio, fazendo uso de uma ferramenta audio-visual para contar uma história que tem a oralidade como uma de suas principais ferramentas.

Na noite de estréia do time de basquete de uma pequena cidade no Novo México, o radialista Everett (Jake Horowitz) e a telefonista Fay (Sierra McCormick) descobrem uma frequência que emite um estranho ruído que está interferindo nas comunicações da região. Com toda a cidade no jogo, o casal começa a investigar a origem do som e após Everett receber a ligação de um ouvinte, eles descobrem que podem estar diante de um evento que envolve o governo e outros mistérios.

Escrito por James Montague e Craig W. Sanger e dirigido por Andrew Patterson (todos em seu primeiro longa), uma informação que surpreende pela forma criativa com que eles constroem toda a história. Tudo no roteiro é muito bem amarrado, a começar pela época retratada. Na década de 50, os Estados Unidos viviam o auge da corrida espacial e as histórias e principalmente os filmes retratando invasões alienígenas mexiam com o imaginário popular.

Principalmente em seu primeiro ato, o filme conta com planos muito longos que são essenciais para definir o estilo proposto. Pode causar um pouco de estranhamento nos mais impacientes, mas aos poucos o estilo proposto pelos realizadores começa a fazer sentido.

Os planos longos literalmente explorando a cidade quase em tempo real, funcionam para ressaltar o vazio das ruas, afinal, praticamente todo mundo está no jogo. Já os planos com o casal de protagonistas são o grande diferencial do filme.

Ao trazer um radialista e uma telefonista como foco principal, o filme assume a oralidade como elemento primordial da história, logo acompanhamos narrações sem inserções visuais ou flashbacks, propondo ao espectador um exercício imaginativo, pois assim como na era de ouro dos rádios, nos pegamos imaginando o que é narrado pelos personagens, com sutis inserções cinematográficas que enaltecem o suspense.

Essa ferramenta consegue dois objetivos, em termos de produção, consegue baratear o longa, sem prejudicar sua qualidade. Narrativamente, traz ao filme um elemento que o diferencia das demais produções do estilo, além de fazer uma grande homenagem a época retratada.

Trabalhando a escuridão como parte essencial da construção visual, o longa ainda trabalha a histeria criada por informações desencontradas, com os próprios protagonistas acrescentando detalhes que engrandecem a história,  mas sabemos serem irreais ou fruto de pequenos elementos que crescem no imaginário de cada um dos personagens, tal qual na cabeça do espectador.

A Vastidão da Noite é uma bela surpresa, um longa de baixo orçamento que sabe usar suas limitações com criatividade e cria um suspense eficiente, mesmo que não seja inovador. Fazendo uma aposta arriscada (o uso da oratória em uma obra audio visual), o filme demonstra a segurança de realizadores que mesmo em sua estréia demonstram uma qualidade essencial, o conhecimento da forma de narrar histórias.     

Felipe Fernandes

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