Faça a Coisa Certa (TBT)

(Do The Right Thing, 1989), De Spike Lee. Com Spike Lee, Bill Nunn, Danny Aiello, John Turturro, Ossie Davis, Rosie Perez, Roger Guenveur Smith, Samuel L. Jackson, Ruby Dee, Giancarlo Esposito e Martin Lawrence.

A relevância de uma obra de arte pode ser definida de diferentes formas, algumas até bem subjetivas. O teste do tempo é uma das mais coerentes e nesse  sentido Faça a Coisa Certa de Spike Lee se mostra tão importante hoje, quanto na época de sua estréia.

Lançado em 1989, é até os dias de hoje a grande obra da irregular carreira de Spike Lee. O filme narra as tensões entre diferentes cultura em um dia de extremo calor em basicamente um quarteirão onde vivem negros e hispânicos, tendo uma família asiática e alguns descendentes de italianos promovendo essa miscigenação de raças e culturas em seus conflitos por espaço e representatividade.

O longa abre com a clássica ”Fight the Power” do Public Enemy, enquanto a atriz Rosie Perez dança em meio a uma rua banhada em cores quentes, com enquadramentos que vão ficando cada vez mais fechados, estimulando uma tensão estética enquanto acompanhamos os créditos.

O grande tema do filme é apresentado no monólogo de Smiley (Roger Guenveur Smith), ao mostrar uma foto dos dois grandes líderes da comunidade negra na década de 60, Malcolm X e Martin Luther King. O conflito ideológico dos dois sobre os caminhos da luta dos negros por igualdade, é personificada nos conflitos raciais e culturais dos habitantes daquele quarteirão. Tema ressaltado na dualidade das mensagens dos anéis que Radio Raheem (Bill Nunn) traz em suas mãos.   

Grande parte dos conflitos apresentados no longa vêm da imposição de um personagem sobre outro, de diferente etnia. Uma espécie de confronto cultural onde ninguém quer deixar barato. Seja na disputa de quem tem o som mais alto, seja no mural de fotos na parede da pizzaria ou até mesmo na língua que uma determinada criança deve falar.

O que torna o discurso do filme tão eficiente, é que Lee não perdoa ninguém. Todos os lados são representados de forma com que nos identifiquemos com eles (o humor é uma grande ferramenta nesse quesito), mas sem perder o senso crítico, abordando problemas e questões, promovendo questionamentos.

Uma cena importantes neste sentido acontece na discussão de Mookie (Spike Lee) e Pino (John Turturro), quando o primeiro questiona o porque ele trata os negros com desprezo, se os maiores ídolos dele são negros e como resposta ele têm que os ídolos de Pino são negros, mas são ”diferentes”.

Se Pino é tratado desde de sua primeira cena como um Italiano que têm total desprezo por aquele bairro e seus moradores, um dos maiores acertos do roteiro é fazer de Sal (Danny Aiello) um personagem multidimensional. Sal vê aquele vizinhança com carinho. São décadas vendendo pizza para aquelas famílias e de um certo modo ele se enxerga como parte daquele lugar, uma verdade irrefutável que seu filho Pino, jamais admitiria.

O grande problema e um dos catalisadores do conflito do último ato, é que ao mesmo tempo que Sal entende que faz parte daquela comunidade, essa idéia só funciona da porta pra fora, dentro do seu estabelecimento só funcionam suas regras e por mais que ele possa ter razão é a luta por espaço e representatividade que faz explodir o conflito e algumas verdades.    

O conflito do clímax do filme acontece pelos motivos já citados, numa crescente tensão (estimulada pelo calor) e por um motivo razoavelmente banal. Uma situação que ganha as ruas e foge do controle, com a chegada da polícia seguido de acontecimentos que são absurdamente similares com o que aconteceu recentemente em Minneapolis.

Nessa sequência final os nomes de outras pessoas mortas nas mesmas condições (pessoas essas homenageadas nominalmente ao final do longa) são mencionados. Uma realidade revoltante em 1989 que voltou a se repetir várias vezes nos últimos 30 anos.

Faça a Coisa Certa segue bastante atual, um filme lançado há três décadas ecoar na realidade dos dias atuais, diz muito sobre a relevância e a qualidade da obra de Spike Lee, mas também funciona como prova de que não evoluímos como sociedade.

Felipe Fernandes

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