Destacamento Blood (Netflix)

(Da 5 Bloods, 2020), De Spike Lee. Com Delroy Lindo, Jonathan Majors, Clarke Peters, Norm Lewis, Isiah Whitlock Jr. Mélanie Thierry, Jean Reno e Chadwick Boseman.

Analisando de fora, a guerra do Vietnã me parece o evento mais traumático dentro da sociedade norte americana do século passado. Pensando em obras cinematográficas, alguns dos melhores filmes do gênero são sobre esse período. Um dos temas sobre a guerra pouco explorado pelo cinema, é a atuação dos negros naquele conflito. Destacamento Blood, novo filme de Spike Lee, traz esse diferencial ao trabalhar um recorte pouco explorado do conflito.

Na trama, quatro veteranos da guerra do Vietnã retornam ao país para resgatar o corpo do ex-líder de seu destacamento, morto em combate e um baú cheio de ouro que eles esconderam durante a guerra.

A princípio parece uma história corriqueira, mas que ganha nuances, conceitos históricos e críticas sociais nas mãos de um diretor como Spike Lee. O roteiro dos veteranos Danny Bilson e Paul De Meo foi pensado originalmente com 4 ex-combatentes brancos e seria dirigido por Oliver Stone, mas com a entrada de Lee e seu parceiro nas últimas produções Kevin Willmott (Infiltrados na Klan) nos roteiros, o filme ganhou uma nova perspectiva.

Porque eu atiraria neles? Nunca me chamaram de “crioulo”, nunca me lincharam. Não me atacaram com cães, nem roubaram minha nacionalidade.  

Muhammad Ali

Abrindo com essa famosa declaração que dá início a uma montagem poderosa estabelecendo paralelos entre a violência no Vietnã com a violência sofrida pelos negros nos Estados Unidos durante o mesmo período, o filme já estabelece sua temática e prepara terreno para muito do que vamos ter durante os longos 155 minutos da projeção.

 Divido em três partes muito claras, a primeira delas mostra os quatro amigos celebrando aquele reencontro. A segunda parte mostra o resgate do corpo e do ouro e a forma como o grupo é afetado, e a última parte é a extração do ouro da floresta.

O núcleo formado pelos quatro amigos e ex-combatentes surge já no Vietnã em um clima de fraternidade e o roteiro e os atores são eficientes em conseguir construir a sensação de unidade. Fica claro desde o primeiro momento a relação de amizade única que existe entre aquelas pessoas.

Essa primeira parte traz um pouco de humor, os traumas de guerra e trabalha as relações entre os personagens no momento presente e no passado fazendo uso de flashbacks mostrando principalmente a relação dos quatro com seu líder ”Storming Norm”, criando uma justificativa emotiva e moral para o retorno e resgate de seu ex-comandante.

Norm (Chadwick Boseman) é um personagem que aparece pouco, mas muito da história acontece em razão dele. O líder é um estudioso da história dos negros e é ele o responsável por expor essas idéias e questionamentos para o restante do destacamento. Essa característica é importante, pois justifica narrativamente alguns discursos e principalmente as inserções de fotos de personalidades históricas, um recurso muito bem sucedido em trazer a história dos negros como elemento importante do longa.

Essa primeira parte traz o ponto mais problemático do filme. A cidade de Ho Chi Minh é apresentada como um local que abraçou de certa forma a cultura americana e que vive de explorar o turismo proveniente da guerra. O filme é bem intencionado com os vietnamitas, não por acaso cria uma relação da situação dele com os negros, mas faltou cuidado neste quesito.

Lutamos em uma guerra imoral, que não era nossa. Por direitos que nós não tínhamos.

O filme também busca uma espécie de retratação com o povo vietnamita. Ao estabelecer a relação já comentada entre os povos, seja na mensagem da radialista vietnamita ou no discurso de Paul no terceiro ato, o grande ponto de união é a relação de Otis (Clarke Peters) e Tiên (Y. Lan), uma relação proveniente da guerra que rendeu uma filha, fruto maior da mistura dos povos, não por acaso o filme encerra com um abraço entre pai e filha.

Algumas críticas ao cinema de Spike Lee vão ao didatismo de algumas de suas mensagens, certamente seus críticos vão encontrar algum material aqui, mas o roteiro constrói simbolismos que não podem passar em branco.

Os coadjuvantes do filme, são em sua totalidade personagens mal desenvolvidos, mas que ganham um propósito maior no quadro geral. Desroche (Jean Reno) é um personagem ruim, mas não dá pra ignorar a mensagem clara de que o inimigo é o colonizador. Não basta ele ser um homem branco rico francês, no terceiro ato ele usa o boné que foi símbolo da campanha de Donald Trump, fazendo dele o retrato do vilão histórico para os dois povos, uma sacada que qualifica a insistência na mensagem.

Outro elemento que merece menção é a trilha sonora de Terence Blanchard (outro parceiro habitual de Lee), misturando em sua maioria canções de protesto de Marvin Gaye, com canções como “A Marcha das Valquírias” (uma das várias referências a Apocalipse Now) e com composições originais, como a música da sequência do helicóptero, quando acompanhamos os Bloods em ação pela primeira vez – uma música que remete muito a trilhas de filmes como Rambo, uma sacada que funciona como homenagem e uma crítica bem humorada.   

A relação dos Bloods é bem trabalhada, existe a sensação de unidade, mas o grande personagem do filme é Paul (Delroy Lindo). Um personagem complexo, de personalidade forte, com uma relação mais próxima com Norm e com ideais e posicionamentos políticos divergentes do restante do grupo. É através dele que as críticas mais ácidas são feitas ao governo Trump, mas é um personagem que têm na relação problemática com seu filho o ponto de humanização que faz dele um personagem tão interessante.

A atuação de Lindo é fantástica. Seu personagem cresce a partir do segundo ato, culminando no seu isolamento na floresta. O ator de feição tão marcante e presença física imponente, rouba o filme com sua entrega em uma atuação marcante que muito provavelmente será lembrada na temporada de premiações.   

Extremamente violento (como todo filme de guerra deve ser), Destacamento Blood é um filme excessivamente longo (uns 20 minutos a menos fariam bem ao filme), mas muito bem realizado, misturando entretenimento com mensagens políticas e sociais relevantes, mas mais do que isso, é a comprovação que Spike Lee voltou a boa forma e ainda têm muito pra dizer.

Felipe Fernandes

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