Estou Pensando em Acabar com Tudo (Netflix)

(I’m Thinking of Ending Things, 2020), de Charlie Kaufman. Com Jessie Buckley, Jesse Plemons , Toni Collette, David Thewlis, Oliver Platt, Jason Ralph, Colby Minifie e Guy Boyd.

A memória é uma parte de nossa mente que com o distanciamento têm uma tendência à ganhar vida própria, indo além do fato real, ganhando novos elementos que inconscientemente agregamos em uma mistura sensorial e de idéias que atrelam elementos irreais ao passado. Seja nas cores, no paladar, a memória têm a característica de ressaltar elementos que podem romantizar uma situação ou torná-la ainda mais dolorosa de acordo com a forma com que a lembrança nos afeta.

O diretor e roteirista Charlie Kaufman (roteirista de Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembrança e diretor de Sinédoque Nova York) se interessa muito por esses conceitos de lembrança, sobre o interior da psique humana e pela forma intimista e única com que seus personagens enxergam o mundo e principalmente, como se relacionam com outras pessoas.

Estou Pensando em Acabar com Tudo é o novo filme do diretor e roteirista que chega ao streaming pela Netflix e traz toda a originalidade, sensibilidade e ousadia de um artista inovador e criativo, que têm uma filmografia formidável, pautada por produções complexas que exigem do espectador, mas que sempre proporcionam experiências poderosas e reflexivas. 

Baseado no livro homônimo de Ian Reed, a trama acompanha uma jovem mulher (Jessie Buckley), que aceita viajar em meio a uma nevasca para conhecer os pais do namorado, mesmo estando insatisfeita e desgastada com o recente relacionamento. Ao chegar na casa, ela encontra um casal idoso de comportamento estranho e começa a sentir e notar acontecimentos desconexos que vão levá-la em uma jornada interior turbulenta. 

Kaufman é um mestre nesse tipo de narrativa, jogando com a percepção temporal e espacial  de seus personagens e do espectador. Abrindo com uma série de imagens de uma casa vazia, mas cheia de objetos que remetem a idéia de vida, o filme promove o encontro do casal, a jovem mulher com seu figurino colorido e vibrante em contraste com as roupas escuras de seu namorado, e a empolgação inicial do encontro rapidamente vira um pesada reflexão, como se ela fosse tragada pela personalidade do namorado.

O casal interpretado por Buckley (Chernobyl) e Jesse Plemons (Breaking Bad, O Irlandês) denota uma falta de química proposital que funciona muito bem. Nunca parece que estamos realmente acompanhando um casal, sensação causada não só pelas diferentes personalidade, mas por uma espécie de hostilidade constantemente presente. 

Kaufman faz uso da incessante nevasca para causar a sensação de enclausuramento, a própria razão de aspecto do filme funciona nesse sentido. O filme traz um exterior frio e escuro, como se eles estivessem sempre isolados de tudo, característica que ressalta a hostilidade do mundo exterior e intensifica os conflitos entre os personagens, já que eles não têm para onde ir e precisam lidar com suas diferenças em uma relação desgastada.

O filme tem momentos bastante verborrágicos, o confinamento do casal no carro traz importantes informações e reflexões sobre a natureza não só dos personagens, mas sobre a dinâmica do filme e do relacionamento entre eles. Mesmo que possa cansar os mais impacientes em um primeiro momento, o filme vai apresentando elementos importantes que serão imprescindíveis para a experiência. 

A chegada a fazenda traz alguns elementos que em um primeiro momento remetem a um filme de terror, uma escolha interessante que ressalta o estranhamento que gradativamente vai ganhando forma. Nesse sentido a atuação de Toni Collette (Hereditário) e David Thewlis (Mulher Maravilha) é imprescindível para a construção do desconforto da protagonista e do espectador.

As repentinas mudanças de humor e de comportamento do casal idoso, alguns elementos que remetem a uma violência passada (esse é um elemento que surge em várias cenas do filme, mas nunca é aprofundado), as estranhas aparições dos animais, são elementos que vão se encaixando na proposta do filme e montando um mosaico de informações que vai se revelando a seu tempo, mostrando mais uma vez a qualidade do texto de Kaufman, em uma obra ambiciosa que demonstra uma estrutura e ritmo impecáveis.

O filme traz  discussões sobre relacionamentos, medos, sobre a natureza humana, sobre a velhice, sobre conceitos do tempo – notem como a idéia de que é o tempo que passa por nós, se encaixa perfeitamente no conceito do carro. O filme passa a sensação de que o carro está quase sempre parado e quem parece passar por ele é a tempestade – sobre a arte e sobre o próprio cinema e cria alegorias ao associar sensações a gêneros, atribuindo uma grande importância às artes em nossa memória e nossa vivência.

Visualmente, esse é provavelmente o filme mais lúdico do diretor, alguns momentos (principalmente no terceiro ato) lembram muito o cinema de Michel Gondry (um dos parceiros recorrentes de Kaufman). O uso de truques de montagem e efeitos práticos criam uma sensação forte de realidade, mesmo que sejam usados diversas vezes para desorientar, ressaltando a relação de incerteza que assim como nós, os personagens têm com suas memórias e sentimentos passados.

Estou Pensando em Acabar com Tudo é um filme que exige do espectador (assim como toda obra de Kaufman), mas o resultado é um longa sensível, por vezes angustiante, rico em detalhes, que provoca reflexões e sentimentos difíceis de ignorar. Foi inevitável, ao final da exibição me pegar refletindo sobre minhas próprias memórias, num fluxo de pensamento que busca o passado, o futuro, uma reação imediata que só os grandes filmes conseguem provocar.  

Felipe Fernandes

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