44ª Mostra de São Paulo

Nossa cobertura sobre a 44a Mostra Internacional 2020 de São Paulo, O maior Festival de Cinema do Brasil. Confira os filmes que assistimos:

Casa de antiguidades  (Brasil – 2020)

O longa de estreia do diretor João Paulo Miranda Maria é uma poderosa mistura de suspense e terror psicológico que traz o regionalismo e o preconceito em uma sociedade tradicionalista e conservadora do sul do país como foco principal.

O filme conta a história de Cristovão (Antonio Pitanga), um senhor que sai do interior do Brasil ao ser remanejado para a filial da empresa em que trabalha que fica no sul do pais. O violento contraste étnico e cultural isola Cristovão que começa a perder sua identidade, se distanciando da realidade.

Um filme poderoso, repleto de grandes imagens e com uma história inquietante. Antonio Pitanga tem uma atuação avassaladora.   

Filme selecionado para os festivais de Cannes e de Toronto.

Sibéria (Itália, Alemanha, Grécia e México – 2020)

A nova parceria entre o diretor Abel Ferrara e o ator Willem Dafoe é um instigante estudo de personagem que funciona como um sonho, podendo ser um pouco confuso em alguns momentos.

O filme trabalha uma dinâmica que remete a um fluxo de sonho, com imagens, personagens e locais que se misturam em uma jornada intimista pelas profundezas de um homem na imensidão da natureza.

Um filme evocativo e aberto a interpretações.

Aranha (Chile, Argentina, Brasil – 2019)

Um triângulo amoroso tendo um fictício grupo nacionalista de extrema direita como pano de fundo em meio a um importante momento da história recente do Chile. Um filme que funciona em dois tempos distintos, misturando a época da ditadura chilena com os dias atuais.

Um drama bem realizado, eficiente na construção das relações dos personagens, nas fragilidades e incoerências do “movimento” e com a infindável “ressaca” posterior, muito comum a pessoas que viveram situações similares, seja qual for a causa ou posição política defendida.

Ana. Sem título (Brasil – 2020)

Lucia Murat cria uma ficção documental (característica muito presente em sua filmografia) para construir o retrato de uma misteriosa artista brasileira, cruzando a América Latina e apresentando histórias reveladoras sobre a força da mulher e sobre os terrores das ditaduras.

Uma pena que o filme seja tão irregular ao intercalar momentos bem artificiais em que os diálogos e interações parecem forçados, com momentos genuínos que mexem com o espectador, um problema que afeta diretamente o ponto principal do filme e compromete a experiência.

Isso não é um Enterro, é uma Ressurreição (Lesoto, África do sul, Itália – 2019)

“Para eles, o progresso é quando você aponta o dedo para a natureza e diz que a dominou”.

O filme conta a história de Mantoa (Mary Twala), uma senhora idosa que vive em um pequeno vilarejo nas montanhas do Lesoto e ao receber a notícia da morte de seu último, sente que não tem mais pelo que viver, deixando tudo preparado para a chegada de sua morte.

Quando recebe a notícia que toda a região será inundada para a construção de uma barragem, ela ganha uma motivação e passa a lutar para preservar sua terra, onde  viveu e construiu sua família.

Um filme impactante. Tocando em temas importantes como a preservação da história, da natureza, tudo isso vivido por uma protagonista que sente que não tem mais pelo que viver.

Um filme de imagens poderosas e belíssimas. Mary Twala é uma força da natureza.

Curral (Brasil – 2020)

O filme expõe os vícios das relações cíclicas entre  políticos/eleitores em uma corrida eleitoral no interior de Pernambuco.

Um povo sofrido, desassistido, consciente de seus problemas que não encontra solução em seus representantes e suas promessas repetitivas e vazias. Regiões que são visitadas de 4 em 4 anos por esses sujeitos que trocam votos por favores pontuais.

Um filme relevante e importante por ilustrar diversas situações, mas que pesa a mão no didatismo e tem um desfecho corrido e mal desenvolvido.

Sportin’ life

Abel Ferrara mistura momentos do lançamento de seu último filme Sibéria (também exibido na Mostra), com momentos pessoais e as mudanças ocorridas com a pandemia.

Uma mistura de making of, imagens pessoais e  diário de pandemia, recheado de muita música e experimentação.

Glauber, claro (Brasil – 2020)

Um olhar estrangeiro sobre o período de Glauber no exílio na Itália. Um reencontro de amigos e boas histórias, um filme despretensioso que funciona como homenagem e lembrete da figura inquieta e apaixonada de Glauber. Sua indignação ao final detonando o Festival de Veneza e o  momento do cinema naquele período impressiona, mesmo que você não concorde com ele. Essa mistura de paixão, coragem e subversão, falam mais sobre Glauber do que o restante do filme.    

Kubrick por Kubrick ( Estados Unidos- 2020)    

Um filme que trabalha elementos visuais marcantes da obra do diretor para ilustrar uma rara entrevista do recluso diretor  falando sobre sua obra. Um presente para os fãs do diretor e do cinema.

Mulher oceano (Brasil – 2020)

O mar como símbolo da inquietação interior de duas mulheres e como ponto de interseção entre elas.

O filme conta a história de duas mulheres, uma escritora brasileira que acabou de se mudar para Tóquio e procura a história para seu novo livro e uma carioca atleta de travessia oceânica, que recebe uma oportunidade de emprego para um local longe do mar, oportunidade que surge enquanto ela se prepara  para seu grande desafio.

Um filme delicado e de momentos belíssimos. Bela estreia de Djin Sganzerla como diretora.

Filho de boi (Brasil -2019)

O filme de estreia de Haroldo Borges trabalha duas estéticas contrastantes, o monocromático sertão baiano e a ludicidade do circo (por mais decrépito que ele seja). Extraindo imagens belíssimas desses dois universos, a fotografia de Remo Albornoz faz uso de uma câmera instável que traz um tom documental que funciona muito bem naquela realidade.

A interpretação de João Pedro Dias (que faz sua estreia aqui e dá nome ao protagonista) é daquelas inesquecíveis, em meio a um cinema que transborda realidade, João não interpreta, ele vivencia aquela história, como só crianças e adolescentes são capaz de fazer.

Destaque também para a atuação de Vinícius Bustani como salsicha, um ator de poucos trabalhos, mas que certamente veremos mais dele muito em breve.

“Filho de boi” é um filme tocante, uma das grande surpresas desse ano e Haroldo Borges se mostra um diretor de qualidades difíceis de encontrar.

“Vai João. Se joga menino”.

A Terra é Azul Como Uma Laranja (Ucrânia, Lituânia – 2020)

Cinema como registro, expressão e resistência.

Mira é uma jovem que sonha em trabalhar com cinema e em meio a bombardeios ela junta sua família para encenar todas as situações que eles vivenciam no dia-a-dia de uma terra em meio a um conflito armado.

Um filme com boas ideias que nunca se aprofunda em nenhuma delas, nem na dura realidade vivida pela família. Sentimos mais com o que sugerem as paisagens e os destroços, do que com o que de fato é mostrado.

Mosquito (Portugal – 2020)

O filme de João Nuno Pinto faz desde a primeira e impactante sequência uma reflexão sobre a colonização portuguesa na África em plena primeira guerra e sobre a relação entre europeus e africanos naquele momento histórico.

 Essas questões são usadas como pano de fundo para uma jornada repleta de lindas imagens, em um eficiente estudo de personagem, que mostra um soldado  português  perdido de seu pelotão em Moçambique tendo de lidar com a natureza e novas culturas em sua busca pelo conflito e suas glórias, mas se deparando com a realidade da guerra.  

“Que a guerra me devolva o homem que sempre me cobraram que fosse”.

17 Quadras (Estados Unidos – 2019)

Vinte anos de registros familiares que se transformam em 95 minutos da mais pura realidade.

O filme conta a história de 4 gerações de uma família pobre que vive uma dura realidade a 17 quadras do Capitólio. Não há nada mais triste e pesado que a vida real e existem coisas que não são passíveis de reprodução.

17 quadras é o documentário em seu estado bruto. Vencedor do prêmio de melhor documentário no Festival de Tribeca 2019.

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