Pieces Of A Woman (Netflix)

(Idem, 2020), de Kornél Mundruczó. Com Vanessa Kirby, Shia LaBeouf, Ellen Bernstyn, Molly Parker e Benny Safdie.

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A gravidez é um ciclo natural, porém único, que mesmo que venha se repetir para o mesmo casal, será experimentado de formas diferentes. É um processo muito íntimo e não é fácil, principalmente para a mãe, que precisa lidar com transformações físicas e hormonais enquanto vive uma relação de proteção e ligação física extrema com o filho sendo gerado dentro de seu próprio corpo.  


Pieces of a woman traz o parto, um momento intenso de diversas maneiras como evento catalisador para contar um drama pesado sobre vida, morte, traumas, família e relações, em um filme emocionalmente forte e com boas atuações. 


Na trama, Martha (Vanessa Kirby) e Sean (Shia LaBeouf) estão nos preparativos para o nascimento da primeira filha do casal. Eles decidem por ter um parto em casa e quando chega o momento, a parteira do casal está envolvida em um outro parto e uma substituta de nome Eva (Molly Parker) chega para ajudar. Em um parto extremamente difícil, os dois passam por uma experiência traumática e precisam lidar com as consequências dos acontecimentos em suas vidas. 


Se trata de um projeto bem pessoal, escrito pela atriz e roteirista húngara Kata Weber (Deus branco), o roteiro foi criado baseado na experiência pessoal dela que ao sofrer um aborto natural, precisou lidar com a dor e todas as questões que sucederam o ocorrido e escrever sobre o tema foi a forma que ela encontrou para lidar com essas questões. O filme é dirigido por seu marido Kornél Mundruczó (Lua de Júpiter), que a sua maneira também vivenciou os dramas da situação. 


Em seu início, o filme estabelece um pouco da personalidade do casal e a natureza de sua relação, são cenas importantes que permitem o contraste do que essa relação vai se tornar após o primeiro ato. 


Após essa passagem somos introduzidos ao grande momento do filme. Uma longa sequência de quase 25 minutos, aparentemente sem cortes, que mostra todo o processo do parto vivido pelo casal. Uma decisão ousada por sua complexidade de execução e extremamente eficiente, pois a câmera trêmula que caminha entre os cômodos em meio a toda a tensão e a falta de cortes, fazem com que o espectador se sinta parte daquele momento, tornando tudo muito mais tenso. 


O ápice dramático do longa chega com quase meia hora de filme, junto com seu título, deixando claro que ele faz menção ao que ocorre a partir dali, momento em que assim como a personagem, o espectador já foi dragado para aquela situação. 


O filme tem um tom naturalista, retrata seus personagens na intimidade e trabalha uma atmosfera pesada, com os personagens se fechando em si e se relacionando sempre de forma combativa. As características pessoais apresentadas no início ganham outro contorno, o vazio cria desarmonia, gerando conflitos pela forma como cada um deles lida com a situação.


O segundo ato tem um ritmo bem irregular e a trama tem um desenvolvimento problemático. Fazendo uso de diversos simbolismos (alguns irritantemente óbvios), o filme se arrasta em seu clima pesado, com algumas idéias que não são bem exploradas, funcionando em uma decrescente dramática que incomoda. 

              Spoilers nos dois próximos capítulos


No terceiro ato a história dá uma guinada. O roteiro comete o erro de simplesmente abandonar Sean, retirando um personagem importantíssimo da história, sem dar a ele um desfecho. Os simbolismos começam a ganhar sentido e o filme adiciona um julgamento (ideia que foi baseada em uma história real) que destoa um pouco, mas funciona como momento de libertação de Martha. 


Ela que durante todo o momento buscou dar um propósito para a curta vida da filha (não por acaso ela doa o corpo para estudos) e é ao ver sua imagem com a filha ainda viva que ela ressignifica tudo pelo que passou e ao perdoar a parteira (que não por acaso se chama Eva), ela consegue se reconectar com a vida e seus brotos de maça (claro) começam a dar vida.

Fim dos spoilers


O elenco tem grandes atuações. Shia LaBeouf (Indianas Jones e o reino da caveira de cristal) entrega uma atuação intensa, de um homem que aparenta estar prestes a explodir a todo momento, sensação que é presente desde seu primeiro momento. 


A veterana e excelente Ellen Burstyn (Réquiem para um sonho) compõe uma personagem controladora, que busca impor suas vontades ao casal e suas atitudes invasivas em um momento tão delicado causam um incômodo potencializado pelo trabalho da atriz.


A grande força do filme é o trabalho visceral de Vanessa Kirby (The Crown). A entrega da atriz na grandiosa cena do parto é impressionante e o peso que ela carrega durante todo o filme fazem do seu trabalho digno de estar presente na temporada de premiações. 


Pieces of a woman é um filme forte e que trata de assuntos delicados. Tem ótimas atuações e um ritmo irregular, mas será lembrado pelo seu primeiro ato. Uma sequência longa e angustiante que provoca no espectador o desespero de estar naquela situação. Esse tipo de conquista poucas obras conseguem proporcionar, uma pena que o que acontece em seguida não consiga manter o nível, tinha potencial para ser um dos melhores filmes do ano.  

Felipe Fernandes

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