A Trajetória/Epopeia do Herói em Berlin Alexanderplatz

“Você quer ser algo que não pode ser. Isso é um defeito seu. Você quer ser bom em um mundo que é mau”

Reinhold


Renascido de uma tragédia, Francis chega à Alemanha e, ao invés de um drama sobre as dificuldades de um refugiado, palavra que ele rejeita para se definir, tudo que acontece com ele a partir desse momento o lança através de uma jornada com a construção de uma história épica, porém nos dias atuais, com requintes de tensão e crueldade, típicos das histórias de deuses e heróis.


A ambientação fria e soturna acrescida da trilha intensa proporcionam um clima que, apesar do ritmo lento e da longa duração, nos mantém atentos na expectativa do que vai acontecer. À medida que a história avança e se desenrola cresce no expectador uma angústia, uma tensão pelo desenrolar dos acontecimentos. Há uma áurea de desgraça prestes a acontecer que nos deixa na ponta do assento grande parte da narrativa.


Ele se agarra a sua honestidade inserido no mundo comum, do qual é apenas mais um e à medida que ganha consciência do que o cerca e das dificuldades que enfrenta por ser quem é, o “chamado a aventura” parece cada vez mais tentador. O interessante na construção mítica dessa história é justamente o clima lúgubre, em que a suposta aventura é, nitidamente, um passo em direção à algo sinistro. E, apesar de relutar em se lançar nessa jornada, como fazem todos os heróis, a presença do “mentor” em seu momento de fragilidade é o que falta para o passo definitivo.


O filme tem alguns personagens complexos e repletos de camadas, mas Reinhold, vivido por Albrecht Schuch, é sem dúvida o que mais se destaca. A atuação e a criação do personagem se complementam de forma a sentirmos repulsa e medo de gestos mínimos, as vezes somente pelo olhar é possível perceber algo macabro à espreita. O personagem é uma espécie de Mefistófeles, um demônio sedutor espreitando por almas inocentes, é invejoso, malicioso, mau e parece querer roubar tudo que é bom.


Porém, o que sobra no Reinhold de Albrecht Schuch, falta um pouco ao personagem de Francis, vivido por Welket Bungué (Corpo Elétrico, Joaquim), ele é tratado na história como especial, como se tivesse algo que transborda dele, mas na maior parte do tempo há uma apatia, ele segue o fluxo dos acontecimentos e apesar de alguns momentos em que de fato demonstra ser carismático, falta algum tempero dê destaque e justifique o lugar central que ocupa na trama.


Um dos grandes destaques do filme é justamente tirar esses personagens da margem e colocar no centro da sociedade, cercado de algumas questões cruciais na Alemanha e no mundo atual. “Eu sou a Alemanha”, Franz declara, e coloca o dedo na ferida de uma sociedade que segundo Reinhold “Acha errado vender drogas para turistas? Mas Esse país vende armas para ditadores. Tudo aqui foi construído à custa dos outros. Nós pagamos a conta, mas vocês pagam o preço.” E o filme aborda com sutileza o lugar ocupado, sem falsos moralismos, ou lições de moral, mas de forma muito aberta a realidade de imigrantes, não só na Alemanha mas ao redor do mundo, que tem que fazer o que é possível para viver uma vida digna.


Ao assistirmos filmes de outros países, temos sempre que considerar que são muitos os elementos narrativos que se diferem do que estamos acostumados, já que consumimos em muito maior escala produções Estadunidenses. Ainda assim, há alguns elementos que fazem com que o filme perca força, apesar dos inúmeros pontos positivos, sendo o clímax, o principal deles, não só o fato de o curso traçado para o desfecho ser previsível, mas, principalmente, porque quando acontece é construído de maneira rápida, quase boba, tirando o impacto, que fica muito menor do que poderia ser, pois os acontecimentos acabam sendo rasos e corriqueiros. O desfecho fraco por pouco não faz com que o investimento de 3 horas tenha sido em vão. Mas felizmente, a jornada tem muitos bons elementos. E a história do imigrante, que acaba se envolvendo com o crime e vive seus momentos de Orfeu vai muito além do final. Tendo muito a acrescentar entre a partida, a descida e o retorno.

Patrícia Costa

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