TBT: Thelma & Louise : 30 anos, 2 mulheres, um carro e a filosofia feminista.

“Você sempre foi maluca, essa só é a primeira vez que você tem a chance de se expressar”

Thelma & Louise, 1991

Em 1991 uma garçonete e uma dona de casa pegaram a estrada em um Thunderbird conversível 1966 e foram de mulheres comuns à criminosas fugitivas destemidas, boas de tiro e de copo. Thelma & Louise, vividas por Geena Davies e Susan Sarandon, tomaram de assalto um gênero cinematográfico inteiro enquanto refletiam e criticavam a sociedade em que estavam inseridas, aterrorizando homens pelo caminho.

Lemos as histórias carregados de tudo que temos, o que vimos antes, o que lemos, o mundo que nos cerca, nossas experiências, todo esse repertório impacta na maneira que sentimos as obras, tudo que experienciamos determina nosso modo de ler, como diria Josefina Ludmer. Certamente rever Thelma & Louise, 30 anos depois de seu lançamento, vai ressonar em coisas completamente diferentes do que da primeira vez, tantos anos atrás. Certamente nessa nova leitura, muita coisas presentes nesse artigo passaram despercebidas 25 anos atrás.

Recentemente, ao responder em uma entrevista sobre o que era “O silêncio dos Inocentes”, filme que também completa 30 anos de lançamento em 2021, a atriz e diretora Jodie Foster falou sobre o que a atraiu na possibilidade de fazer o filme:

“A vida toda eu vinha fazendo papeis de vítima, muitas mulheres magoadas a quem coisas terríveis eram feitas. Havia uma espécie de crescimento, de processo de cura e amadurecimento em interpretar a mulher que salva outras mulheres. E essa mulher vê um reflexo dela mesma nas mulheres que tenta salvar. […] Um mito clássico atemporal, mas que nunca havia sido contado através de uma mulher. Para mim isso foi o mais interessante, pegar esse mito atemporal e se perguntar por que diabos essa narrativa está reservada exclusivamente para homens? Será que não existe agência feminina. Será que há alguma maneira de uma personagem feminina fazer parte dessa mitologia”

Para a filosofia essa ideia de Agência Feminina pensa as capacidades de escolha e ação individualizadas que, para as filósofas feministas, está ligada ao fato de as identidades das mulheres se desenvolverem em condições mínimas. A ideia é tentar responder como é possível para mulheres, em sociedades dominadas pelo masculino, viver de forma a refletir suas verdadeiras necessidades e preocupações. E tentar explicar como é possível que as mulheres desenvolvam capacidade crítica-social em um ambiente que é hostil aos seus interesses.

A escritora Callie Khouri articula perfeitamente essas ideias em Thelma & Louise. Então, vamos analisar oito questões e momentos em que o filme Thelma & Louise dialogou diretamente com o feminismo nosso de cada dia e entregou muito mais do que era esperado para época e, muitas vezes, até mesmo para os dias atuais.

  1. Um Filme de feministas raivosas que odeiam homens.

A escritora ousou escrever para mulheres papeis que cabiam até então, quase que exclusivamente, à homens. Como bem disse Jodie Foster uma mitologia tradicional restrita ao gênero masculino. Uma jornada clássica de sair do seu lugar em uma busca e enfrentar monstros e perigos no caminho, que transformam o herói de forma irremediável, fazendo com que o retorno para o início da Jornada seja impossível. Além disso, essa jornada, muito mais que um “Road Movie”, tem uma virada violenta, que fez com que o filme fosse criticado por ter sido considerado extremamente inapropriado em seu lançamento, pois encorajava o público a torcer por essas mulheres fora da lei, com comportamento criminoso e moralmente reprovável, que perseguia e ridicularizava os homens. Sendo que mulheres foram retratadas de forma pejorativa e superficial e homens têm sido representados como violentos, inconsequentes,, tem tido comportamento e criminoso nas telas ao longo de toda história de cinema

2. Você não está muito velha pra isso?

Ridley Scott teve coragem não só de escalar mulheres, mas Geena Davies e Susan Sarandon tinham, na época que foram escaladas, respectivamente 35 e 45 anos.  As Protagonistas possuíam idades muito além do que era e, continua sendo, costumeiro em Hollywood.

Recentemente o bom e velho Etarismo (Ageísmo) tem sido pauta constante. A escolha de mulheres dezenas de anos mais jovens para fazerem pares românticos com homens muito mais velhos e a escolha de mulheres mais jovens sempre para a grande maioria dos papeis, ainda que para representar mulheres muito mais velhas que elas, é uma prática que segue sendo reproduzida há décadas, deixando as mulheres com as idades que seriam apropriadas para fazer sempre papeis secundários de mães e avós.

3. Era uma vez um estereótipo.

Recentemente Frozen foi celebradíssimo por trazer no centro de uma animação da Disney mulheres complexas, com suas questões pessoais, em que o relacionamento entre as protagonistas Elza e Ana era o mais importante na história, sem casamentos, ou histórias de amor romântico. O filme de Ridley Scott trouxe essas mulheres com questão diferentes, mais adultas e profundas, claro, mas igualmente no centro de suas histórias, em suas próprias jornadas, cuja amizade era a fundação de tudo, 25 anos antes. O arcos das protagonistas é uma viagem para fora longe dos estereótipos presentes na maioria dos filmes. Duas mulheres que são amigas cujas jornadas se completam e caminham lado a lado, longe da típica rivalidade feminina ou qualquer outra relação de superioridade entre as protagonistas. Personagens que abordam as mais diversas questões da violência à sexualidade, entre elas, sempre com o relacionamento delas como base.

4. Espelho.

Há no decorrer da história uma transição interessantíssima na maneira que essas personagens veem o mundo, que dialoga diretamente com a ideia de Agência da filosofia feminista. Quanto mais tempo passam com elas mesmas e uma com a outra mais elas se percebem e são capazes de refletir sobre o mundo ao redor. Nitidamente quanto mais longe elas vão, mais se libertam e se transformam. Quanto mais elas se afastam daquele universo que as restringe inicialmente mais elas questionam e reagem às normas impostas. E, nesse espelho social, não é a toa que uma das imagens que mais perdura seja a dessas duas mulheres em um carro, perseguidas por policiais homens. Mas no meio de tudo dão as mãos e simplesmente vão. Decidem seguir juntas, ainda que seja o fim, será da maneira que elas escolheram.

É uma imagem muito simbólica, em que as protagonistas fogem, não só desses homens mas da sociedade e de tudo que é imposto por eles. Elas quebram as regras, escritas por eles e questionam seus comportamentos. Elas enfrentam e afrontam não só os homens mas tudo que eles representam e se recusam a ser julgadas e condenadas pelas regras que esses mesmos homens criaram.

6. Não é Não!

Consentimento em 1991? É possível que essa palavra nem existisse. O filme retrata de maneira dura e deixa bem óbvio o quanto alguns comportamentos masculinos são inaceitáveis ao colocá-los, num raro momento no cinema, pela perspectiva dessas protagonistas. Deixando claro que não importa se antes ela estava interessada, se acompanhou ele até o estacionamento, se mudou de ideia, não é não. E muitos outros são os momentos em que o filme aborda os comportamentos masculinos nocivos de forma crítica, como a cena do caminhão em que enfrentam o motorista que passa mexendo com elas. A cena do estacionamento, que é o ponto de virada da narrativa, é impactante pra muitas pessoas e foi a primeira cena de estupro vista nos cinemas para muita gente.

O filme brinca corajosamente com os conceitos de certo e errado ao longo da jornada dessas mulheres. É muito representativo o comportamento do homem, com peito inflado, xingar a mulher após não conseguir o que queria. O lugar de poder dele é tão grande que ele não demonstra medo ou arrependimento. Porém, ainda assim, é preciso coragem para fazer com que uma protagonista, uma mulher, mate um homem a sangue frio nas circunstâncias dessa cena.

7. Eu me sinto viva!

A sexualidade feminina no cinema é tabu hoje, em 2021. A sexualidade de uma mulher de mais de 35 anos, então, nem se fala. À essa altura nos filmes as mulheres já estão casadas e com filhos. Poucos são os filmes que ousam abordar essas questões de maneira madura e pela perspectiva feminina. A liberação sexual de Thelma (Geena Davies), a descoberta do prazer é um momento chave no arco de amadurecimento da personagem. O filme explora a sexualidade dessas mulheres sem sexualizá-las gratuitamente para o deleite masculino, como costuma ser. E, após a tentativa de estupro, a sequência de eventos deixa claro, o sexo é um instrumento de diversão, de liberdade, de autoconhecimento, para a mulher explorar como ela bem entender.

Essa recem descoberta liberdade se reflete também no simples prazer que elas vão descobrindo em ser as donas da situação, em empunhar suas armas, em explodir, em propagar um certo caos. Esse lugar de destruição tão bem ocupado pelos homens, cai muito bem às duas que abraçam esse novo lugar com deleite.

8. Mulheres Livres.

A liberdade é um tema recorrente, junto com a amizade. Na evolução de Louise, vemos no início do filme a casa dela perfeitamente arrumada, o excesso de controle sobre tudo, como por exemplo, colocar os sapatos em sacos plásticos. Diferentemente de Thelma, que conquista o controle sobre sua própria vida, Louise vai aos poucos perdendo o seu, se libertando, as roupas e os cabelos são símbolos marcantes dessa transição.

Em uma entrevista sobre o filme quando questionada sobre o porquê de as personagens principais se matarem no final, a escritora respondeu

“Elas voaram para longe, fora desse mundo e para o inconsciente de massa. Mulheres que são completamente livres de todas as amarras que as restringem não tem lugar nesse mundo. O mundo não é grande o suficiente para segurá-las”.

O quanto a liberdade, a ousadia de mulheres incomoda fica nítido com o contingente de homens deslocado para por fim às aventuras à la Butch cassidy dessas duas mulheres e também com a intensidade com que se frustram com o sucesso delas. Que audácia a delas, não se renderem aos desmandos desse mundo patriarcal.

Que revolucionário um ano em que você tem O silêncio do Inocentes, Thelma & Louise, Tomates Verdes Fritos, Meu Primeiro Amor. Porém, ainda hoje, 30 anos depois, temos que assistir aos filmes nos perguntando se eles passam no teste de Bechdel; ainda hoje, 30 anos depois, temos pela primeira vez 3 mulheres indicadas a direção.

Seguimos buscando o distanciamento, ainda que mínimo, desse mundo dominado pelos homens para que possamos ver pelos nossos próprios olhos, para que possamos desenvolver nosso pensamento crítico e mudar a nós mesmas e o mundo que nos cerca, para que possamos soltar os cabelos e dirigir por ai em direção ao horizonte, desafiando tudo que nos desagrada, certamente, como boas feministas que odeiam homens, matando uns monstros pelo caminho tentando construir uma sociedade com condições mais igualitárias.

Patrícia Costa

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