TBT: A Poderosa Rainha… Margot

A Rainha Margot (1994)

Vou te fazer uma proposta que você não poderá recusar. Me acompanhe nesta analise-comparativa afim de entender porque uma produção francesa de 1994 pode ser considerada a versão feminina do clássico ítalo-americano de 1972.

Eu acredito na França!

Muito antes de Game of Thrones e Bridgerton, em uma terra muito distante chamada França… havia um reinado repleto de intrigas, violência, fofocas e luta pelo poder. Amores formados, amores desfeitos. Sexo, desejo e morte. Nada tão diferente do que você já está acostumado, certo?

Levei anos pra assistir A Rainha Margot (1994). Quando o filme foi lançado eu era criança demais pra entender do que se tratava ou mesmo acompanhar sua história ao longo de mais de duas horas de projeção. Pior ainda, como todo filho dos anos 80, estava acostumado com as narrativas americanas. Este era um filme de arte e ainda por cima era em francês!

Demorou um tempo, mas o cinema do país do brioche se tornou um dos meus favoritos. Hoje, talvez, é um dos que mais devoro. Com o lançamento da versão restaurada e inédita do filme no Belas Artes À Lá Carte, eu senti que finalmente chegou minha hora de dar uma chance pro filme.

Homens podem ser descuidados. Mulheres não!

Semana passada, Patricia Costa escreveu um belíssimo #tbt sobre o filme Thelma & Louise (1991), onde debateu como o filme questiona o papel servil da mulher em uma sociedade hostil e machista. Em A Rainha Margot, que se passa no século VI, ouso dizer que as coisas não eram tão diferentes. O papel da mulher oscilava entre os opostos; servir ou governar, ser admirada ou não ser vista, ter o poder total e soberano (como no caso da Rainha Catarina de Médici) ou ser um mero peão entre uma aliança de paz (Margot, interpretada brilhantemente pela atriz Isabelle Adjani).

Já sei o que você está pensando: “Filme de época feminista francês”? To fora!

Calma, amigo. Antes de tomar qualquer decisão, já que chegou até aqui, não perca ainda a fé no filme. Até porque a religião é também um dos pontos centrais.

Assim como no mundo que você vive hoje, a trama do filme se apresenta em uma época polarizada. Inicia-se no belíssimo e pomposo casamento de Margarida de Valois (pode chamar de Margot) com o rei Henrique III de Navarra, por desejo de um mas não do outro. Ela, católica. Ele, protestante. A união dos dois deveria servir para selar a paz e unificar o país. Não foi bem assim.

Deixe o punhal, traga o caviar.

Me desculpem se não sou tão eloquente nas palavras (ou tão feminista no olhar) como a querida Patrícia. Minhas influencias realmente são mais masculinas, mas não por isso totalitárias. Me permitam a liberdade artística de comparar o filme de Patrice Chéreau como uma versão feminina de O Poderoso Chefão (1972), de Francis Ford Coppola. As similaridades são tantas que quase posso ouvir a clássica trilha dos Corleones tocando de fundo, na Paris de Margot.

Vamos começar pelo óbvio; o filme abre em uma festa de casamento da filha-mulher de uma tradicional e poderosa família. Uma festa que serve tão somente para saciar interesses pessoais e os negócios da família. Logo de cara, você é levado a crer que Margot é Connie Corleone – mimada e desejada como a única mulher do clã. Mas não esqueça de um simples mas importante detalhe: Margot casa-se com o Rei de Navarra, imediatamente tornando-se Rainha.

A hora de acordar para a política que a cerca é eminente. Lá fora protestantes e católicos festejam a cerimônia, mas não a paz que tanto sangue derramou ao longo de décadas. Não temos um astro de Hollywood chorando ajuda para participar de uma produção, e a consequência não será uma cabeça e um cavalo decepada. O que se seguiu ao casamento foi bem pior.

Sempre tome o lado de alguém contra a família.

O Massacre da Noite de São Bartolomeu dividiu a França e tem consequências diretas até hoje. Cerca de 6 mil protestantes fora cruelmente mortos à mando do rei, logo após o evento. Muito semelhante à brutal emboscada à Sonny ou ao acerto de contas dos Corleone no inicio do terceiro ato. As cenas dos corpos jogados nas imensas valas nos arredores de Paris é chocante até hoje – Algo que, imagino, seja quase infilmável nos dias atuais. Brutalidades sem sentido em nome de Deus e de uma paz nunca alcançada.

O que seguiu foi a conversão forçada do marido de Margot, Henrique III (vivido pelo ator Daniel Auteuil), ao catolicismo. Uma cena tão irônica que faz um perfeito paralelo para a clássica cena do batizado de O Poderoso Chefão, onde até a mesma frase é proferida: “eu renuncio ao satanás”.

Sim, Margot é Michael Corleone, acordando para o seu destino, mas também é Don Vito. Em certo momento, aconselha um dos personagens a “esconder o amor e a dor para não parecer frágil”, exatamente como o personagem de Marlon Brando faria. Existe até uma cena em um necrotério onde ela se despede de uma pessoa próxima – mas ao contrário do Don após a morte do primogênito, ela demonstra toda força que adquiriu no lugar das lágrimas.

Essas pequenas semelhanças e diferenças entre os filmes são um absoluto deleite pra qualquer fã do bom cinema. Não esqueça que estamos assistindo uma história real. Não esqueça que mesmo dentro da ficção, esse conto repleto de emboscadas, traições, amor e poder busca exaltar a força feminina dentro dos fatos. Assim como Godfather serviu de bíblia para homens por anos, A Rainha Margot devia ser (re)visto com outro olhar pelas mulheres.

Se no filme de Coppola as mulheres são meros adereços ou personagens terciários, aqui, os homens revelam todas as suas fragilidades e despreparo. É Margot quem salva a vida do marido ao converte-lo, e também do soldado La Môle (Vincent Perez), seu verdadeiro amor, ao cuidar de seus ferimentos após o massacre.

Analisando ainda mais profundamente, ambos os filmes tratam das mesmas questões. São histórias de famílias destruídas em um mundo de cobiça, vingança e assassinos particulares; Luca Brazis ou Maurevel. Carlos IX ou Connie. Francisco II ou Fredo. Michael ou Margot. Não importa a época ou país, a história se repete com novos nomes.

Nunca deixe ninguém saber o que você pensa.

Mas nenhuma história ou filme tem relevância se não tiver uma boa conclusão ou um final feliz, certo? Até aqui, ambos os filmes convergem, ao mesmo tempo que se mantém fieis ao gênero e ao arco de seus protagonistas.

Michael Corleone era ingênuo e não sabia, mas queria acima do amor, ser alguém na família. O poder! Todo mundo lembra da cena da porta se fechando enquanto beijam sua mão e lhe chamam de “padrinho”. Margot deseja ser amada. Nunca havia sido pela família, nem em matrimônio. Ao fugir para Navarra “acompanhada” de seu amante, ela abre mão do que nunca teve controle, o poder, para viver seu amor. São lados iguais de gêneros opostos.

Então, a resposta é sim! Para cada um deles, há um final feliz e satisfatório para aquele protagonista. Mas, como sabemos, todo final é só mais um novo começo. Portanto, vida longa as Rainhas! Ou seriam, as “Madrinhas”?

Marcelo Cypreste

A Rainha Margot está disponível no canal por assinatura Belas Artes À La Carte.

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