A Vida Imita a Arte – A Metalinguagem de Entrevista Com o Vampiro

Antes de escrever esse texto fiquei um tempo pensando, refletindo e constatando o quanto somos personagens da nossa própria história. Nossos atos, nossos propósitos, nossa constante luta para sempre ter o melhor, buscar o melhor, mas como na vida nunca nada é fácil, nada vem de graça, entramos todo dia em um campo de batalha pela sobrevivência. Falo isso porque a partir de agora convido a todos os leitores a conhecerem um pouco mais dessa relação assertiva, da minha vida flertando com a sétima arte, mais especificamente vou tentar explicar a relação que o filme Entrevista com o Vampiro tem com a passagem e o momento mais importante e difícil da minha vida.

Entender a correlação que o cinema faz com o mundo em que vivemos é elementar, e obviamente tivemos por alguma ocasião, a experiência de se identificar com o que estamos vendo na tela, e o cinema é tão maravilhoso que ele ainda te dá diferentes gêneros para que essa metalinguagem fique escancarada na sua frente.

BEBA DE MIM, E VIVA PARA SEMPRE

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Em 1994, o diretor Neil Jordan leva para as telas o que pra mim é o livro de cabeceira do manual do vampirismo, Entrevista com o Vampiro, aqui não vou entrar a fundo explicando o enredo já que se passam 27 anos desde seu lançamento, apenas uma breve reflexão.

O filme diz muito sobre a metamorfose, de humano a vampiro. E lida muito bem com o assunto: as discussões e dilemas são muito pertinentes, complexos. Neil Jordan está impecável na direção, e o resultado é a história mais melancólica e dúbia sobre vampiros.

Fazia anos que não revia o longa, e que obviamente o fiz para escrever esse texto e posso falar que envelheceu muito bem e por um motivo óbvio: O filme preserva a beleza! Percebam pelo figurino dos personagens, pela estética retratando a idade média, pela música erudita e os diálogos muito bem escritos.

O filme segue quase uma visão poética da morte e aquilo que é sombrio, torna-se elegante. Ser imortal, também pode ser um castigo na qual seu espírito fica condenado a um corpo de desejo animal e bem como a morte, uma dádiva a nós mortais.

Entrevista com o Vampiro se molda como uma profunda e aterrorizante visão da perda da humanidade. A convivência dos vampiros Lestat e Louis mostra como o desespero pode levar uma pessoa a abdicar da vida em favor de uma não existência parasítica.

E é nesse ponto, na abordagem do personagem Louis (Brad Pitt) que nossas histórias se convergem, tanto para o bem quanto para o mal. Percebam que a abordagem do filme e dos personagens é de tentar ao máximo humanizar suas características e atitudes, isso obviamente nos aproxima e por momentos esquecemos que são vampiros. Louis buscou sua redenção, buscou sua salvação nas trevas, sua angústia pela perda da esposa e filha, o consumia de tal forma que a morte com certeza era sua melhor saída. Agora peguem essa passagem do filme e tentem ver como ela se encaixa perfeitamente no universo de trevas em que vivemos no mundo de hoje.

AS ESTACAS REAIS NO INFERNO DE CADA UM

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Há mais de um ano nosso mundo se transformou, virou de cabeça para baixo açoitando milhões de pessoas, o novo Corona vírus acabou com sonhos, projetos, e segue acabando com vidas até o presente momento, seria doido da minha parte fazer uma relação minimamente racional acerca das pessoas que perderam seu emprego, seu negócio, seus entes queridos, até porque cada morte que hoje colocamos de uma forma banal como números, na verdade todas as pessoas que se foram, eram as mais importantes na vida de alguém.

E mais, essa relação você está fazendo na pele, a sua vida de alguma forma foi e está sendo afetada, então rapidamente esse paralelo do desespero do personagem do Brad Pitt em tentar a sua fuga, a sua redenção, é de certa forma um espelho trágico, porém real na relação de cada pessoa com a doença.

Nesses momentos o pessimismo é tão exacerbado que se não tivermos um alto controle, nos desprendemos de posições que antes eram intactas, ou seja, no desespero a relação com a sua própria vida, fica em segundo plano, e foi exatamente isso que Louis fez que e infelizmente está acontecendo agora.

A análise da metalinguagem do filme com minha vida nesse momento se deu de uma forma incrivelmente dura, mas de processo natural, até março de 2020 eu tinha uma vida estabilizada profissionalmente e mentalmente estava feliz com o rumo que a vida estava se desenrolando. Mas como não temos o controle sobre as ações da vida, obviamente fui afetado em todos os sentidos por essa pandemia. Ficar recluso em casa por semanas, meses, não poder trabalhar, ver seu sonho realizado ruir como um castelo de areia, foram coisas que não pedi, não lutei para isso acontecer.

A não concordância com as ações impostas por esse novo mundo é totalmente alheia a minha vontade, independente do que acho ou não. As reflexões, as depressões foram momentos de muita aflição, onde a identificação com o filme para mim é assustadoramente parecida. Luís após a transformação, sempre viveu à sombra, nunca se tornou pleno, sempre com o arrependimento e preso a esse mundo novo que a única diferença que vejo entre nós, é que ele escolheu, mas se imaginarmos nos dias de hoje, e colocarmos esse personagem com a perda de sua família ou emprego, é exatamente a vida imitando a arte.

Passar por essa angústia onde você está literalmente preso e vendo a cada dia que passa seu mundo ruir, sem poder fazer nada, sem poder ter as rédeas de suas ações é muito complicado, mas claro que assim como no filme, temos que nos reinventar, achar um novo propósito, mudar, mudar e mudar.

A força de querer viver, passar pelos desafios de ter que sobreviver a isso, na verdade faz parte de nossa história como sociedade e como seres humanos, tive que aprender de uma nova forma, vender minha empresa, tocar a minha  vida com um novo propósito, dar um novo rumo e um novo sentido a ela, óbvio que não é, e não será fácil recomeçar. Mas na vida real ou na ficção ainda estamos vivos.

Disponível: AppleTV e Looke.

A história é incrível, fantástica. Faça o que quiser com ela, dê aos outros, aprenda com ela.

Marcelo Perelo

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