Janela Indiscreta – A Reclusão e o Voyeurismo por Hitchcock

Durante minhas aulas, conto aos alunos (adolescentes) que a linguagem cinematográfica funciona de fato como uma nova língua, eles precisam aprender os símbolos e principalmente entender que no bom cinema, a imagem diz muito ou até mais que os diálogos. Pensando nisso, hoje escolhi falar de um filme muito especial da filmografia de um dos meus diretores preferidos, Alfred Hitchcock.

Hitchcock é reverenciado como um dos mais brilhantes diretores da sétima arte. Uma característica de seu cinema que sempre me encantou, é a forma como ele consegue fazer filmes de grande apelo popular, ao mesmo tempo em que constrói obras riquíssimas do ponto de vista cinematográfico e artístico. 

No auge de sua carreira, ele elevou o conceito de artista autoral a um outro patamar, fazendo de seus filmes verdadeiros eventos, levando seu nome e sua persona para a tv e se tornando um dos diretores mais famosos e  influentes do cinema.

Janela Indiscreta

Rear Window Wallpapers - Wallpaper Cave

Hoje, vamos falar de Janela indiscreta. Lançado em 1954, o filme é considerado uma das grandes obras de um diretor inquieto, que buscava inovar sem abrir mão de seu estilo. Se em 1948, ele inovou ao realizar um filme que buscava esconder seus cortes, o clássico Festim diabólico, aqui ele propõe uma nova dinâmica, contar uma história toda a partir de um único ponto de vista, usando apenas artifícios de câmera (justificados na narrativa) para contribuir na experiência. 

Baseado no conto de Cornell Woolrich, Hitchcock constrói uma narrativa instigante, em que usa pequenos detalhes para amarrar e tornar crível uma história simples, que ganha complexidade nas limitações da forma de ser contada.

Na trama, L.B.Jeffries (James Stewart) é um fotógrafo que após se acidentar em trabalho, fica com a perna engessada, impossibilitado de sair de casa. Entediado, ele passa a observar seus vizinhos. Entre as visitas de sua namorada Lisa (Grace Kelly), eles passam a observar os vizinhos e começam a suspeitar que algo muito estranho possa estar acontecendo com um deles. 

O filme abre com os créditos em tela, enquanto uma cortina sobe ao fundo, tal qual as cortinas de um palco que se abrem para o espectador. Os primeiros minutos do filme Hitchcock nos apresenta todo o cenário através de um passeio com sua câmera. Descobrimos quem são os vizinhos e logo a câmera retorna para o interior do quarto, onde sem nenhum diálogo somos apresentados ao protagonista, a sua condição e apenas com o uso de imagens descobrimos a forma como ele se acidentou (a câmera quebrada, seguida da foto que lhe rendeu o acidente) e em seguida somos apresentados a foto em negativo de Lisa, uma mensagem clara da forma como ele vê sua relação com a jovem.

Hitchcock cria toda uma narrativa onde ele coloca o protagonista na mesma posição do espectador. Sem poder sair do lugar, a história inteira se passa do ponto de vista do fotógrafo que tem sua vizinhança como cenário. 

Como mencionei, o filme tem uma série de detalhes que contribuem na construção da narrativa. Por exemplo, a história se passa no verão, em um lugar tradicionalmente frio, não há nenhum tipo de sistema que ajude com o calor, logo a solução é manter as janelas abertas. A escolha da profissão do protagonista é outra grande idéia, em uma época sem tv e muito menos celular, é natural que Jeffries vire seu olhar para o mundo exterior e o fato dele ser um fotógrafo, traz um olhar diferenciado e equipamentos que permitem a Hitchcock pontualmente fazer closes e planos mais fechados que vão manipular o olhar do espectador.  

Rear Window (1954) | HD Windows Wallpapers

Claro que como uma boa história Hitchcokiana, algo de incomum acontece e Hitchcock brinca com o espectador não só ao questionar tudo o que o protagonista e consequentemente nós vemos, como nos torna um integrante sem voz ativa naquela situação. Porém, diferente dos personagens, somos voyeurs invisíveis, já que não precisamos nos preocupar com julgamentos ou que sejamos descobertos pelos vizinhos.

Outro elemento narrativo interessante, é a relação de Jeffries e Lisa, que ganha reflexo nos vizinhos. Seja na solitária miss loneheart (Jeffries e sua escolha pela solidão), na jovem bailarina desejada por vários homens, mas que é apaixonada por um único homem (Lisa), temos o pianista que busca uma perfeição impossível em sua música (Jeffries menciona mais de uma vez que Lisa é perfeita demais) ou no casal recém casado que encontra dificuldades naturais na vida de casal e funciona como uma analogia a todo e qualquer relacionamento.  

Em termos de produção, todo o filme é rodado em estúdio, sendo a casa de Jeffries na altura do chão, sendo o restante recriado ao redor, tudo para que Hitchcock tivesse pleno controle da câmera e de todos os elementos, podendo ter liberdade para fazer o que quisesse dentro daquele universo.

Em Janela indiscreta, Hitchcock cria uma metáfora para o cinema e une protagonista e espectador em situações muito próximas dentro de um interessante jogo de voyerismo, em que pequenos detalhes dão força a narrativa, mas principalmente, são as imagens que contém a verdade.

Curioso como tanto tempo depois, hoje vivemos de certa forma como Jeffries, presos em nossas casas e tendo uma janela cada vez menor e veloz como vislumbre do mundo lá fora, mas assim como o espectador do filme de Hitchcock, somos vouyers com uma margem de segurança, mas com a diferença que nossa vizinhança assume uma outra postura, a de se expor, em uma atitude não fruto da estação do ano, mas um sinal dos nossos tempos.

Felipe Fernandes

Disponível: Telecine, Googleplay, Clarovídeo, Appletv e Looke.

Deixe sua opinião sobre os filmes neste post ou nos mande um e-mail dizendo se concorda ou discorda da gente, deixando sua sugestão ou crítica: contato@ratosdecinema.com.

Assine nosso canal e tenha benefícios exclusivos!

catarse LOGO

Além disso, não deixe de curtir nossa página no Facebook, Youtube, Twitter e Instagram e participar!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s