Os 12 são o novo…Conta Comigo aos 40

Eu nunca tive amigos como os que eu tinha aos 12 anos.

Será que a infância está perdida? Assistir um grupo de amigos em busca de uma aventura que vai mudar suas vidas, com momentos que inquestionavelmente serão importantes para seu amadurecimento, sentada no sofá ao lado da minha filha de 12 anos mergulhada sozinha no celular certamente é inquietante.

Muitos elementos separam a infância vivida em 1986, ano do filme Conta Comigo (Stand By Me), baseado no romance de Stephen King publicado em 1982, da experienciada em 2021.

Os 40 são os novos 30, os novos 25, os novos 20…e cada vez mais os importantes eventos e acontecimentos propulsores do amadurecimento vão ficando para depois. Infâncias cada vez mais herméticas e protegidas dão origem a uma geração de pessoas imaturas, incapazes de lidar com questões triviais da fase adulta.

Eventualmente a maioria de nós amadurece e ainda que seja impossível que duas pessoas tenham a mesma história de vida, os eventos que impulsionam essas mudanças de fase se repetem constantemente, fazendo com que nos relacionemos de forma especial com histórias que abordem tais situações, que constantemente nos arrebatam e ocupam lugares especiais nas nossas vidas.

Mas há alguns elementos típicos dessas histórias que bons filmes do gênero conseguem articular de forma precisa e que batem fundo dentro de nós, uma familiaridade nostálgica, experiências intensas e transformadoras, uma realidade brutal que traz uma virada na maneira de ver o mundo e consequentemente na postura. Conta Comigo possui uma série de elementos que fazem com que o filme sobreviva não só como um clássico do gênero mesmo após tanto tempo, mas uma fonte de aprendizado e reflexão sobre o passado e sobre o presente. Dentre os elementos que se destacam estão:

1.Era aceitável nos anos 80. A total falta de limites dos anos 80 é um pano de fundo altamente relacionável que faz com que muitos desses filmes sejam ainda hoje presentes no imaginário e ocupem um lugar especial. Quem não viveu certamente se surpreende com as coisas que eram admissíveis e naturais. Meninos de 12 anos bebendo e fumando, sendo meninos, com liberdade para fazer piadas e zoar uns aos outros, andando sozinhos pelo mundo.

2. A insanidade permitida. Quatro meninos com infâncias cheias de conflitos inimagináveis para a maioria de nós, repletas de abusos, abandono, negligência, solidão que são palco para conflitos internos.

3.“We Can Be Heroes Just for one day”. A jornada do herói, sempre ela, com seus elementos tradicionais puxa e movimenta a história em uma busca para alcançar o objetivo que, na cabeça deles, vai trazer o alívio e a resposta para a superação dos problemas, em uma busca por aceitação.

4. A morte não é o oposto da vida, mas uma parte dela. (Haruki Murakami). A morte e Stephen King andam juntos. Aqui a morte acompanha a perda da inocência, a busca por encontrar e encarar a face mais sombria da vida e desvendar toda sua complexidade

Ao sair em busca do corpo do menino desaparecido, os quatro amigos, não só encaram desafios que mudam suas vidas, mas também estreitam seus laços e com o apoio um do outro encontram a força que precisam para encarar a si mesmos e o mundo ao redor. Quando se deparam o corpo, os meninos que começam o filme brincando, rindo, comendo, xingando, já não existem mais. A transformação é palpável, está nos olhares, nas posturas, nas escolhas.

Conta Comigo é sobre abandonar uma certa redoma, uma zona de conforto para atravessar uma ponte tentando não ser atingido por um trem, e descobrir ao voltar que não só o trem passou por cima de você, mas também que nada que você havia deixado para trás existe mais e que, para seguir, é preciso encarar a vida e os desafios desse novo momento.

A pergunta que fica é se hoje essa ponte ainda existe, principalmente para as crianças de classe média. Ainda há na vida de celulares, condomínios, canais de desenho e conteúdo apropriado para a idade; será que em meio ao excesso de proteção, elogios vazios e ausência de conflitos uma ponte a ser cruzada ainda pode ser construída, para que o trem seja encarado  de frente e que a travessia seja feita para que os 50 não sejam o novo 20 e no lugar de décadas fugindo da responsabilidade e do amadurecimento, acumulando problemas emocionais, a gente possa voltar a viver aventuras reais e a fazer conexões com as quais possamos contar aos 12, aos 20, 30, 70 anos.

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