Marsha P. Johnson, Sylvia Rivera e a Primeira Pedra do movimento LBTQIA+

Festas, liberdade, música, amor, beijo na boca, diversão, tudo com muito colorido, muita graça e muita purpurina. Para muitos a ideia do dia do orgulho LGBTQIA+ remete a essas e muitas coisas lindas e lúdicas e certamente caricatas. É claro que esse universo é repleto de muitos desses elementos, mas traz em seu cerne muito mais, para além desses estereótipos. O dia 28 de junho, marca uma história intensa e constante de luta. Luta por direitos, Luta por liberdade, Luta por respeito, Luta por aceitação e principalmente Luta pelo direito à vida.

O paraíso dos artistas e capital da boemia, o Greenwich Village, no Leste de Nova York, foi palco de uma importante revolução cultural que teve como um dos seus marcos a consolidação do movimento de luta pelos direitos LGBTQIA+, nas ruas do importante bairro se daria o estopim que mudaria completamente o rumo da história.

Nos anos 60, era legalmente proibido ser homossexual, não era permitido que  duas pessoas do mesmo sexo dançassem juntas, era proibido exibir qualquer sinal de homossexualidade, fosse nos gestos, nas roupas, na fala e, para os estabelecimentos comerciais, era proibido receber esse público e vender bebidas. Porém, negócios são negócios e desde sempre o dinheiro segue movendo o mundo. Se hoje, eventualmente, a comunidade LGBTQIA+ levanta questões sobre lojas e empresas interessadas exclusivamente no dinheiro e pouco preocupadas com as reais questões que os aflige, na década de 60, a máfia, estava muito a frente de seu tempo. O mafioso italiano, Tony Lauria, mais conhecido como Fat Tony, foi um dos precursores da exploração do “Pink Money”, ao usar de seu poder e influência para abrir um bar, o Stonewall Inn, onde pudesse receber de forma livre (pagando suborno, claro!) um grupo, uma classe inteira, de pessoas que só queria um lugar seguro para se encontrar, se divertir e ser livre por algumas horas.

Uma batida policial no bar de Tony Lauria teve uma virada inesperada, quando algumas pessoas começaram a reagir, jogando pedras e garrafas. Forjado no cansaço, na tristeza, na revolta, no sangue, na dor e na necessidade de mudar uma realidade, o dia 28 de junho marca a história de um conflito que mudou o rumo de muitas vidas. A rebelião de Stonewall Inn, o confronto entre a polícia e a comunidade gay de Nova York, foi o estopim que despertou e uniu toda uma comunidade e ganhou projeção internacional, dando início a uma série de manifestações que tomou o mundo. E marca ainda hoje, quase 60 anos depois, não só o dia, mas o mês em que se celebra o Orgulho e a Luta para se ser quem é.

Marsha P. Johnson, reza a lenda, foi quem atirou a pedra que quebraria a primeira vidraça, de muitas, que invisibilizam irremediavelmente, oprimem, humilham, destratam, batem e matam, a população LGBTQIA+. Se ela realmente foi a primeira ou não, nunca saberemos, mas a sua importância para o movimento é inquestionável. Dotada de um carisma inigualável, de uma simpatia que a fez ser declarada a rainha da Rua Christopher e de uma ousadia que marcou sua época e a todos com quem teve contato. Foi uma das precursoras da luta por direitos de homossexuais e Trangenêros, muito antes do movimento se consolidar e fundou com Sylvia Rivera o Street Transvestites Action Revolutionaries (S.T.A.R. ou Ação Revolucionária das Travestis de Rua – em tradução livre).

“A Morte e Vida de Marsha P. Johnson” é um desses filmes poderosos que não só expande nosso universo e nossa perspectiva de mundo, mas nos submerge em um tempo outro, mas que de muitas maneiras ainda é o mesmo em que vivemos. O documentário nos conecta de forma profunda com personagens e episódios da história, que certamente são conhecidos por pouquíssimas pessoas, e com essa Mulher, Negra, Trans, artista Drag, Ativista, cujo assassinato sem solução reverbera até hoje em tantos outros, assim como o dela, sem solução e sem justiça.

O documentário de David France (Bem-Vindo a Chechênia e Como Sobreviver a uma Praga) acompanha Victoria Cruz, uma ativista, parte do projeto de Anti-Violência de Nova York (New York Anti-Violence Project) na sua tentativa de desvendar o mistério em torno da morte de Marsha, declarado pela polícia, na época, como suicídio. Com um atraente clima de mistério o episódio vai levantando questões que passam possivelmente pela Máfia italiana e pelo envolvimento ou, na melhor das hipóteses, descaso policial. Mas enquanto Victória se esforça para avançar nas suas investigações pessoais somos inundados por uma melancolia oriunda da realidade daquele universo que vai se mostrando triste e obscuro.

As mortes e as vidas de Marsha e Sylvia Rivera, tão presente e importante no filme quanto a própria Marsha, estão costuradas de forma irremediável à luta por direitos da comunidade Transgênero e Homossexual no mundo. Suas trajetórias tocam também diversos dos males que assolam essas comunidades e explicitam o quão pouco avançamos. No país que mais mata a comunidade LGBTQIA+ no mundo é impossível não se afetar por questões que são tão presentes na nossa realidade. É difícil não se conectar e não se envolver com as histórias presentes no documentário, tanto que, o filme acaba e o nó no estômago nos acompanha, assim como as reflexões. Esse deveria ser um daqueles filmes obrigatórios capazes de mudar o olhar que direcionamos à temas tão relevantes.

O mês do Orgulho LGBTQIA+ termina hoje, mas por aqui estamos apenas começando. Marsha e Sylvia jogam a primeira pedra no Ratos para uma celebração que deveria ser constante, então, uma vez por semana, traremos a dica de um filme especial que nos leve por temáticas relevantes e que merecem ser celebrados.

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