Orgulho Rato – Tatuagem

A noite que abala o quarteirão e faz tremer toda forma de autoridade. O Moulin Rouge do subúrbio, a Broadway dos pobres, o estúdio 54 da favela, bem vindos ao chão de estrelas.

Enquanto a câmera passeia por um local dividido entre cores e sombras, em que fica difícil definir onde realmente estamos, o áudio do apresentador nos fala de um universo de magia, de glamour, em plena periferia do Recife, culminando em um palco predominantemente dominado pelas sombras e pelo vazio, contrastando com a ideia que o áudio do apresentador nos provoca. Dessa cena passamos para a imagem de Finha (Jesuíta Barbosa), jovem que está sentado com ar contemplativo, com um corte de cabelo característico de militares, envolvido por várias beliches em que suas barras se confundem com as de uma prisão.

Com esse simbolismo do palco vazio e do militar preso, Hilton Lacerda começa sua trajetória como diretor de longas metragens em um filme ousado, falando das várias formas de liberdade, trabalhando ambientes conflitantes em uma história de amor, regada a sarcasmo, arte e alegria, em plena ditadura militar. Um filme sem pudores em sua essência, que tem orgulho da natureza de seus personagens.

Um dos pilares do cinema pernambucano, capital artisticamente efervescente, que desde a virada do século se tornou um dos polos do cinema nacional, Lacerda é roteirista dos filmes de Lírio Ferreira e Claudio Assis e com Tatuagem faz sua estreia como diretor, em um filme com estilo próprio, que difere de seus parceiros.

Chão de Estrelas

Usando o período da ditadura como pano de fundo, Tatuagem trabalha dois universos conflitantes. Trabalhando com naturalidade o universo libertário da trupe, com todo seu colorido, sua vibração, um universo efervescente de corpos e mentes livres, onde o amor não encontra fronteiras e gêneros. Liderados por Clécio (Irandhir Santos, em uma de suas melhores atuações), o grupo tem uma veia artística sarcástica, com números artísticos de diferentes naturezas, sempre com comentários políticos e sociais contra o sistema e as intuições caretas e repressivas do pais.

O grupo é também uma família, onde seus membros podem ser quem de fato são, com liberdade de se expressar e tendo um trabalho, que mesmo que não levante muito dinheiro, lhes dá a garantia e a segurança que eles não tem na sociedade e em suas próprias famílias.

As apresentações do grupo são um show a parte. Misturando música e teatro, são momentos marcantes, intensificados pela atuação poderosa de Irandhir. Lacerda registra esse universo com vivacidade, com planos abertos, explorando os ambientes e suas particularidades, com uma montagem mais dinâmica, a direção de Lacerda traz abordagens diferentes para expressar as características conflitantes dos universos trabalhados no filme.

Trecho do Filme "Tatuagem", de Hilton Lacerda - YouTube

Eu nunca tinha dançado assim com um homem antes. Eu nunca tinha dançado assim com um soldado .

Não por acaso Fininho é um soldado. Antítese de tudo o que o grupo busca e representa, o exército é um local engessado, de regras rígidas, onde a individualidade é proibida e a masculinidade de seus membros não é só exigida, mas testada constantemente. Interessante como o filme quebra essa imagem, humanizando o soldado, com seus desejos e individualidades.

Lacerda trabalha esse contraste também em sua estética, trabalhando esse ambiente com planos mais fechados (até mesmo uma cena de futebol é fechada apenas no conflito da cena, sem mostrar o campo e os outros jogadores), monocromáticos, com uma câmera quase estática. Interessante que essa abordagem também se estende para as cenas passadas na família de Fininho, mostrando como o personagem se sente ali, a opressão das tradições também não o permitem ser quem ele é.

Provavelmente a melhor cena do longa, sua chegada ao café teatro traz um verdadeiro espetáculo, as sutilezas da atuação de Jesuíta Barbosa, que expressa uma mistura de estranhamento com o deslumbramento de quem parece estar se encontrando. Nesta mesma cena, Clécio surge cantando, com uma atuação hipnótica de Irandhir santos, culminando no encontro dos olhares, em um momento sublime.

A paixão é rápida, avassaladora e naturalmente vai provocar questionamentos no desenrolar de todo o filme. Um soldado, agente da repressão no ambiente do grupo incomoda, um soldado, símbolo da virilidade, convivendo com artistas de ideais libertários e principalmente de liberdade sexual, também incomoda toda a instituição.

O símbolo da liberdade é o cu, que todo mundo tem

Tatuagem, revolução dionisíaca - Outras Palavras

Tatuagem é um filme poderoso, extremamente humano e verdadeiro, traz críticas poderosas e atuais, embaladas em números artísticos irreverentes, criativos e na liberdade dos corpos, dos amores.

Um filme sobre todo tipo de amor.

Contra todo tipo de repressão.

Uma ode a arte e a liberdade.

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