O Lobo, a Águia e as Vantagens da Infância nos Anos 80 (ou as Vantagens de Ser Cringe)

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O cinema certamente é muitas coisas e ocupa muitos lugares, um dos mais relevante talvez seja o do afeto e o da memória.  Não nos lembramos dos filmes necessariamente por eles serem bons ou ruins. Muitos filmes ocupam simplesmente o lugar das boas lembranças, de momentos especiais da vida, de pessoas especiais, datas importantes, ou até mesmo uma época. Ao olhar para os compartilhamentos feitos nas redes às quintas feiras sob a alcunha de TBT, o que se vê esmagadoramente é uma coleção de saudades, de carinhos, de situações especiais vividas com pessoas queridas. E os filmes certamente têm esse poder, o poder de ocupar esse lugar de remeter a saudades.

O TBT de hoje ocupa irremediavelmente o lugar do afeto, da infância, possivelmente para muitos que, assim como eu, cresceram assistindo à sessão da tarde. Não lembro exatamente da primeira vez que assisti O Feitiço de Áquila, mas lembro de ter a fita do filme e de aos 6, 7 anos assisti-lo em looping, rebobinando a fita incontáveis vezes para assistir de novo e de novo.

Em algum lugar do século XIII, um ladrão foge da prisão pelo esgoto, o divertido Phillippe Gaston, vivido pelo jovem Mathew Broderick, que assim como o expectador, não imagina os contornos e os caminhos sombrios e místicos pelos quais a história vai levá-lo. Desde as primeiras cenas, a ambientação medieval deixa clara que o universo no qual vamos adentrar não é um universo de contas de fadas, mas sim um lugar obscuro, sujo, cinza., em que rapidamente a associação do mal é feito à figura do bispo, com seu olhar cruel e soberbo, um mundo de silêncios, de poderes e crueldades veladas ao som de cânticos.

Pouco após sua fuga, o camundongo, apelido adquirido por sua habilidade em se esgueirar por espaços pequenos, praticamente impossíveis, encontra acidentalmente com Etienne Navarre, um cavalheiro vestido de negro, sério e altivo, com um falcão empoleirado em seu braço e que em um vislumbre reflete as características que esperamos de um herói: Forte, habilidoso, bonito (Hutger Hauer no auge dos seus 40 anos, charmoso como nunca) e justo, que não só salva, mas resgata e coloca o tagarela fugitivo sob seus cuidados.

O filme possui uma aura realística na sua construção, nas passagens de tempo, nos cenários, que torna os seus elementos místicos ainda mais intrigantes. Apesar de um indício na abertura de que se trata de mais do que vemos à primeira vista, o filme resguarda o elemento mágico da história quase como um tesouro e só vai desvelando seus detalhes à medida que o prórpio Gaston vai entendendo o que se passa.

A presença do lobo negro, da linda mulher de olhos azuis que aparece misteriosamente, das cenas do cavalheiro à luz do horizonte com seu falcão, do olhar triste e duro de um homem belo e atordoado, da visão do decrepito castelo medieval, da beleza delicada e ao mesmo tempo forte de uma jovem com um sorriso alegre capaz de iluminar as suas cenas, em muitos momentos, grandes ou em pequenos detalhes, a fotografia de Vittorio Storaro (Apocalipse Now) explode na tela e faz do filme algo mais do que uma simples aventura com elementos de fantasia.

O elenco é impecável e as atuações são tão carismáicas que fica difícil não se engajar no universo criado e nos sentimentos conferidos pelas situações vividas. Há uma química entre o elenco que amarra a história perfeitamente e deixa tudo muito crível.

O personagem de Mathew Broderick recebeu, ao longo do tempo, muitas críticas por destoar da história, mas é justamente o humor conferido por Phillipe e, posteriormente, pela sua relação com o Frei Imperius que acrescentam ao filme uma leveza que é essencial para o funcionamento da história. O jovem é arrebatado pela beleza de Isabeau, a belíssima Michelle Pfeiffer, o que o coloca no lugar de mensageiro dividido, entre a sua própria afeição pela moça e o que ele entende como a necessidade de remediar a relação entre o cavalheiro e a mulher.

Muito do que é construído em torno da maldição e da mística envolvendo os destinos desses personagens é deixado para a imaginação. E a busca pela concretização de um belíssimo amor, tornado impossível pelas forças do mal é, certamente, um elemento altamente atrativo e fascinante, que combinado à beleza dos personagens e à precisão dos cenários e da fotografia faz do filme um acontecimento singular. Não faltam ainda cenas de luta, ação e tensão que oferecem um perigo palpável e garantem um bom ritmo ao filme.

Assim como a premissa da maldição, que separa os dois protagonistas de forma tão cruel, é capaz de semear no imaginário e o apreço por amores impossíveis, assim é a semente da crítica que desenha nitidamente esses dois Deuses presentes no universo do filme. Um Deus com quem o Malandro Camundongo conversa ao longo de todo os filmes, o Deus que usa a ciência para descobrir a solução para um problema a princípio impossível do lado oposto ao Deus da igreja, do fanatismo, que julga, amaldiçoa, mata e destrói vidas por trás de uma fachada de poder e tradição.

As crianças definitivamente tinham acesso nos anos 80 e 90 à conteúdos que hoje seriam impensáveis. Há elementos pesadíssimos ao longo da história que vão desde violência física ao teor político na crítica ao abuso de poder por parte da igreja, ao uso da religião como fachada para interesses pessoais. A cena da luta final, que define os destinos dos personagens, é tão legal e impactante que se tornou para mim, aos 7 anos, inesquecível. Certamente o Feitiço de Áquila não é uma produção perfeita, mas honestamente, quaisquer que sejam seus problemas são ofuscados, não só por todas as qualidades dessa belíssima obra de Richard Donner, mas por um universo de memórias de uma época da vida em que se podia sonhar e fantasiar com grandes e intensos amores impossíveis repletos de magia, olhos azuis, sorrisos hipnotizantes e cenários deslumbrantes.

Fica nesse TBT com gostinho de saudade da infância uma homenagem à um mestre que brindou toda uma geração com filmes e memórias inesquecíveis. Vida longa à Richard Donner, sua obra e às muitos tempestades anunciadas por seus filmes atemporais.

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