Hoje Eu Quero Viver a Utopia do Amor Homoafetivo Livre e Leve

Quem nunca viveu as delícias do primeiro amor? O frio na barriga, a expectativa pelo próximo dia de aula só para poder ver e, quem sabe até sentar-se, a poucos passos da razão do nosso afeto, os olhares furtivos na direção da pessoa que faz o coração bater mais forte, a angústia por não saber se a pessoa retribui o nosso sentimento, o friozinho na barriga por qualquer coisinha pequena, um sorriso, um esbarrão, uma palavra…

Se equivocou terrivelmente quem, com um sorrisinho saudoso, nem pensou duas vezes nesse questionamento, é claro que praticamente todo mundo viveu essa descoberta do amor e da sexualidade na infância e na adolescência. A realidade, porém, está muito distante de ser essa. Esses pequenos prazeres, que são parte da nossa construção emocional, que nos formam como pessoas afetivas e nos ajudam a construir ferramentas que mais tarde vamos usar nos nossos relacionamentos são negados há todos que sonham desde crianças um relacionamento homoafetivo.

Uma infinidade de pessoas nunca experimentou as delícias daquela primeira troca de olhares, de beijos roubados, de namorar no recreio, de andar de mãos dadas, de se abraçar no fila do cinema, até mesmo aquele leve e delicado beijo de despedida, gestos que parecem tão simplórios e naturais, mas que muitas pessoas são ainda impedidas de viver. Uma eternidade de privações provocadas pela homofobia, por uma construção social que rejeita o amor homoafetivo, principalmente na infância e adolescência, fases de tantas descobertas e importância pra nossa construção pessoal.

A arte constantemente se debruça sobre o amor, tanto que o cinema tem um gênero inteiro de filmes dedicado à experiência do amor romântico e suas idas e vindas. Encontros e desencontros de casais e de suas histórias as vezes belas, as vezes trágicas, mas as histórias que olham de forma leve e simples para relações homoafetivas ainda são raras.

Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, nos dá um vislumbre de como seria se as pessoas simplesmente pudessem ser, existir, longe das janelas de expectativas sociais. O filme é capaz de pegar duas situações que seriam dramáticas e problemáticas e abordá-las com delicadeza e a dose certa de utopia para que consigamos imaginar que elas seriam possíveis em um mundo que, infelizmente, não é esse que vivemos.

Leonardo é um adolescente, deficiente visual, no auge adolescência e o filme nos leva pela jornada de amadurecimento desse menino que está desenvolvendo suas relações, descobrindo sua sexualidade, lindando com seus conflitos externos e internos, tentando crescer em um ambiente familiar amoroso, mas superprotetor.

Os conflitos de Leonardo são os de muitos. A adolescência é essa fase difícil de mudanças e descobertas, onde a gente, muitas vezes, não se reconhece e não se entende muito bem, uma fase que impacta todos ao redor. A delicadeza com que o filme nos leva pela paixão de Leonardo por Gabriel é de encher o coração. Não há excessos, não há dramas para além dos de praticamente todo mundo. Ser deficiente visual, ser homossexual, não afetam a vida de Leonardo nada mais do que qualquer outra questão na adolescência e o grande mérito de “Hoje Eu Quero Voltar Sozinho” é exatamente esse, nos imergir nesse mundo de possibilidades. O filme capta de forma delicada a inocência dessa primeira descoberta do amor, capta as dúvidas, os frios na barriga, as frustrações, vividos em todos os relacionamentos sejam eles homoafetivos ou não.

A trajetória do filme começou no sucesso do curta metragem “Eu Não Quero Voltar Sozinho”, de Daniel Ribeiro, que de forma breve abre a porta para o encontro dos dois meninos e a descoberta desse amor. A passagem para o longa é maravilhosa e as lacunas preenchidas e acréscimos feitos são interessantíssimos e deixam realmente a história mais rica. Guilherme Lobo (Leonardo), Fábio Audi (Gabriel) e Tess Amorim (Giovana), tem uma química tão gostosa que é fácil demais embarcar na amizade e no carinho que têm um pelo outro. O filme tem um bom roteiro, com diálogos verossímeis e situações super relacionáveis que brilham na tela com a excelente atuação do trio.

A fotografia e a belíssima escolha de quadros e cores dão ao filme um ar gracioso, há também uma singeleza na maneira de retratar a sexualidade que faz com que tudo seja de muito bom gosto. O filme transborda sutileza e cuidado, de um jeito que passamos metade do filme com um sorriso meio bobo no rosto de tão gostoso que é acompanhar a trajetória dos relacionamentos e dos personagens criados por Daniel.

Hoje Eu Quero Voltar Sozinho é uma joia do cinema nacional, um filme que de forma despretensiosa nos presenteia não só com a importância da representatividade, mas com um universo de possibilidades. É impossível não torcer pelo amor dos dois meninos, não torcer pela amizade de Leonardo e Giovana, não se relacionar com os dramas, dilemas e dúvidas vividos pelos personagens. Mas principalmente é impossível não se emocionar com a possibilidade de viver em um mundo em que dois meninos possam simplesmente se apaixonar, possam andar de mãos dadas, possam apreciar a descoberta do amor e trocar afeto sem medo.

Muitos elogios para o filme giraram em torno do fato de ser um filme realista. Mas no país que mais mata LGBTQIA+ no mundo (sim, é preciso repetir esse fato alarmante em todas as publicações) essa é uma realidade distante, quase um conto de fadas, porém caso fosse um, certamente seria censurados para crianças, caçado na Bienal e perseguido. Não é um conto de fadas, mas é certamente uma daquelas utopias que nos ajudam a desenhar e planejar o mundo em que gostaríamos de viver. É uma dessas histórias que nos faz querer dobrar o tecido da realidade e mudar tudo, para que o mundo caiba nas diversas formas de amor que a gente sente e para que a gente possa parar de sofrer para caber nesse mundo pequeno, limitado e triste. Um filme que nos impulsiona à brigar e lutar por um outro mundo, em que ninguém mais seja privado de viver a plenitude do que toda forma de amor tem para oferecer e que todos os pequenos detalhes da descoberta tenham o sabor do prazer e da liberdade e não mais do medo.

Hoje Eu Quero Voltar Sozinho(2014), de Daniel Ribeiro Com Guilherme Lobo, Fábio Audi e Tess Amorim.

Disponível: Netflix (longa) e Youtube (curta)

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