#tbt: Milos Forman Contra a Repressão

Em uma das cenas de tribunal, o advogado Alan (Edward Norton) tenta convencer o júri de que eles não estão presentes para julgar o caráter ou a qualidade das publicações de seu cliente, mas para defender o direito dele publicar o que ele quiser e que cabe ao cidadão comum ter o direito de escolher e de ignorar o tipo de leitura de sua preferência.

Esse diálogo do roteiro de Scott Alexander e Larry Karaszewski é exatamente o que pensa o diretor Milos Forman a respeito de Larry Flynt e suas publicações. Juntando toda a controvérsia em cima de sua história, Forman encontrou em Flynt (o qual Forman classificou como um rebelde encantador) um personagem perfeito para seu cinema contestador, que traz o inconformismo do indivíduo contra o sistema e qualquer tipo de opressão, características que vão de encontro a sua história de vida e surgem como temas recorrentes em sua filmografia.

Nascido na antiga Tchecoslováquia. Forman perdeu os pais ainda pequeno, ambos mortos em campos de concentração nazista, fazendo com que ele crescesse na casa de parentes. Cresceu, se formou na Escola de Cinema de Praga e começou a trabalhar com documentários. Seus primeiros longas são comédias com teor social que fizeram sucesso no país e os filmes Os amores de uma loira e O baile dos bombeiros foram ambos indicados ao Oscar de melhor filme estrangeiro.  

Com a invasão soviética em Praga em 1968, seus filmes foram proibidos e temendo por sua liberdade, ele se exilou em Paris e posteriormente se mudou para os Estados Unidos, onde construiu uma premiada carreira, repleta de grandes filmes, algumas cinebiografias, que nunca perderam esse aspecto questionador.

A Pornografia é o Preço Que Tem De Se Pagar Pela Liberdade De Imprensa

O Povo Contra Larry Flint (1996) | MUBI

Lançado em 1996, O povo contra Larry Flynt gerou controvérsia. Acusado de glorificar a pornografia, o filme conta a história do controverso Larry Flynt (Woody Harrelson), um jovem administrador de uma boate que cria panfletos para divulgar as meninas de seu estabelecimento. Com o sucesso da empreitada, ele cria a revista Hustler, uma versão mais popular da Playboy. Com o sucesso da revista (ele chegou a publicar fotos sensuais da ex-primeira dama Jacqueline Kennedy Onassis), Flynt se torna milionário e também alvo de ativistas antipornografia, religiosos e conservadores, tendo de encarar diversos processos na justiça e até mesmo um atentado que o deixou gravemente ferido.

 O filme conta desde a juventude do protagonista até a década de 90, contando várias fases e acontecimentos da vida do protagonista que tem uma jornada intensa e surpreendente. Mas o filme se foca principalmente na batalha judicial de Flynt contra o televangelista Jerry Falwell (Richard Paul). Ao publicar uma charge com o líder religioso, ele vira o grande alvo na luta dos conservadores, sendo processado por ele e em seguida o processando por violação de direitos autorais, pela publicação de sua charge em panfletos do líder religioso. É um caso que ficou famoso e se tornou um marco na defesa da liberdade de expressão na justiça americana.

Review – O Povo Contra Larry Flint (1996). – Calil no MUNDO POP! – 9 anos

Para um filme acusado de glorificar a pornografia, é um filme até que mostra bem pouco se pensarmos no universo em que transita a história. É uma cinebiografia repleta de momentos curiosos, divertidos, que foca na luta por liberdade de expressão de Flynt e nas consequências que isso trouxe para sua vida e para os próximos a ele.

Uma mistura de coragem e loucura, não tem como não se divertir com as atitudes do protagonista, usando toda oportunidade para desafiar o sistema judiciário, levando a situação a limites constrangedoramente engraçados. Mas não se trata de um filme frio de tribunal, também acompanhamos as relações de Flynt, principalmente com sua esposa Althea (Courtney Love, ela mesma, vocalista da banda Hole e ex-esposa de Kurt Cobain), uma jovem estriper tão louca quanto Flynt, que se casa com ele e convive na luta contra o vício nas drogas.

Revisitando a filmografia de Forman, fico impressionado de como o diretor consegue extrair o melhor de seus atores. Aqui Woody Harrelson entrega a melhor atuação de sua carreira, o mesmo pode ser dito de Courtney Love, que nunca mais conseguiu repetir uma atuação nesse nível.

Fato é que o filme se mostra extremamente atual e  me parece ainda mais relevante nos dias de hoje, prova incontestável da qualidade do filme e do trabalho brilhante de seu diretor, que conviveu desde muito novo com a repressão e usou sua arte para contestar e combater toda e qualquer forma de opressão, seja em sua terra natal, seja na história de amizade dentro de um hospital psiquiátrico ou na absurda cruzada de um controverso editor de revistas pornográficas por liberdade.

O filme ganhou o Urso de Ouro em Berlim, dois Globos de Ouro (melhor diretor para Forman e melhor roteiro) e foi indicado a dois Oscars, (melhor diretor e melhor ator para Woody Harrelson).

Disponível: AppleTV, Googleplay e Youtube

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