#tbt: Ruas de Fogo – Uma Fábula de Rock, Luzes e Memória.

Memória.

Uma palavra tão pequena onde cabem tantas coisas especiais. Uma palavra com um significado muito vago. Memória é lembrança! Lembrança é a maneira como revisitamos acontecimentos e pessoas. Sabemos que é muito mais que isso! Representa uma parte do que nós faz feliz, quando paramos pra lembrar daquela viagem. Ou quando, de forma sorrateira, nos vem à mente algo que preferimos deixar guardado e esquecido. É parte de nós.

A memória também nos transporta a épocas e mundos muito particulares. E como hoje é dia de lembrar de coisas boas, o #tbt de hoje me fez viajar para minha infância. Mais especificamente no pequeno quarto que dividia com minha irmã (um ano e meio mais velha). Sentados no chão, de frente para a TV, que ficava em cima de um suporte mais alto que nossas cabeças e que sempre nos deixava com dor no pescoço pro resto do dia. Lembro até como o anunciante da Globo, do alto de sua voz grossa dizia: “A Sessão da Tarde vai te levar para uma viagem repleta de muita aventura, luzes e música”, para logo em seguida escutarmos o refrão:

“I can dream about you

If I can’t hold you tonight!”

Dan Hartman

Quanto mais velho fico mais me pergunto como a memória consegue ser essa máquina do tempo mais perfeita que a própria realidade da época. Como todos sabem, a música é um ótimo gatilho para a memória. É como se fosse o combustível para uma viagem que não sabemos até onde vai nos levar. Provavelmente foi com isso em mente que o diretor Walter Hill (48 Horas – Parte 1 e 2, Inferno Vermelho), decidiu incluir tantas trilhas e números musicais em uma produção que não era tão “repleta de aventuras e luzes” como lembrávamos – ou mesmo, tão bom como filme.

Pra ser sincero, a história de Ruas de Fogo (1984) é quase tão simples e direta quanto alguns de seus diálogos. Um príncipe precisa resgatar uma linda princesa sequestrada por um cruel dragão das masmorras misteriosas em uma terra estranha rodeada de fogo e mistérios. Resumindo, o herói e seus fieis (e as vezes chatos) escudeiros vão… e voltam (ecos de Mad Max: Estrada da Fúria, alguém?). A jornada não teria fim se o dragão não fosse derrotado, claro, e obviamente isso precisa acontecer na frente do povo daquela vila para que todos saibam que foram finalmente libertados daquele vilão.

Michael Paré

Tire todos os encantos e lições moralistas das fábulas e basicamente você terá este filme. O príncipe é um dos anti-heróis mais antipáticos da história do cinema – um dos momentos mais bizarros do filme até hoje é quando após fazer juras de um futuro perfeito ao lado da mocinha, ele lhe acerta um cruzado de esquerda que a leva direto ao chão (sim, o filme tem isso). A atuação de Michael Paré é tão convincente que o ator nunca mais se livrou do estigma de bad boy e se juntou aos diversos outros ícones dos anos 80 que nunca deixaram de ser o personagem que os deram fama. O que me leva a pensar que Paré devia ser realmente um babaca como pessoa, porque bom ator ele não era.

O mesmo podemos dizer do vilão, mas com um certo porém; afinal William Dafoe é um dragão bem convincente ainda hoje e, apesar de uma carreira diversificada, o ator continua sendo chamado para viver vilões e criminosos violentos simplesmente por sua aparência. Mas depois de 4 indicações ao Oscar e dezenas de atuações magnificas, sabemos que ele é muito mais que apenas um cuspidor de fogo em uma motocicleta (e merece um Oscar, qualquer dia).

O mesmo podemos dizer da princesa, vivida pela então adolescente Diane Lane (então com apenas 18 anos), que parece flutuar pelo filme como se tivesse constantemente drogada (peraê, não é assim com todas as princesas?). A atriz fez sua parcela de comédias românticas até atingir a maturidade e provou que sua carreira é muito mais que apenas um rostinho perfeito ou a mãe do Superman de Henry Cavill.

Diane Lane, com 18 anos, em Ruas de Fogo.

Assistir ao filme hoje me trouxe lembranças muito interessantes e nem todas boas. A produção não fez sucesso nos cinemas e muitos (assim como eu) só foram descobri-lo nos cantos sombrios da já citada Sessão da Tarde. Olhando hoje fica ainda mais claro que muito da trama foi cortado para caber no formato do horário (existe até uma inexplicável e longa dança sensual misturada com strip-tease. Como não amar os anos 80?!).

O fracasso enterrou também a ideia da produção ser a primeira de uma trilogia. Talvez tenha sido melhor assim. O filme foi recém (re)descoberto em Festivais e Cineclubes americanos de cinema, relançado em versão remasterizada e ganhou status de cult.

Pra falar a verdade, Ruas de Fogo quase não é um filme, por assim dizer. Está mais para um sonho. Não faz total sentido ou segue uma estrutura coerente. Bebe de diversos filmes e influencias anteriores, inclusive com um final muito parecido com Casablanca (1942).

Tem todo o apelo visual (cópia menos elaborada de Blade Runner, lançado dois anos antes) que faria qualquer “jovem adulto” da época (ou mesmo do inicio da década seguinte, como no meu caso) correr para os cinemas e se sentir representado. Desde as roupas coloridas até a liberdade dos carros vermelhos e velozes.

Começa e termina com uma banda em cima de um palco, liderados por uma bela vocalista que canta com energia e emoção, como se aquela fosse a última vez. Definitivamente não é um filme. É uma energia. Uma sensação. Um estado de viajar num mundo imperfeito e ser livre.

É uma memória antiga até mesmo pra quem assisti-lo pela primeira vez. E toda memória conta um pouco sobre nós.

Deixe sua opinião sobre os filmes neste post ou nos mande um e-mail dizendo se concorda ou discorda da gente, deixando sua sugestão ou crítica: contato@ratosdecinema.com.

Assine nosso canal e tenha benefícios exclusivos!

catarse LOGO

Além disso, não deixe de curtir nossa página no Facebook, Youtube, Twitter e Instagram e participar!

Confira nosso #tbt anterior:

Um comentário em “#tbt: Ruas de Fogo – Uma Fábula de Rock, Luzes e Memória.

  1. Que texto delicioso. Tive até que dar meu jeito pra comentar.
    Vi pela primeira vez agora em 2021 e nem o fiapo de roteiro, nem a canastrice me fez gostar menos.
    Boa música, muito fogo e motos fazendo barulho entre as pontes do Projac. Como não amar ?
    Muito obrigado pela nostalgia do que ainda não conhecia

    Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s