Priscila, a Primeira de Seu Nome, Desbravadora do Cinema Lgbtqia+, Rainha do Deserto,

Uma viagem pelo deserto australiano com 3 personagens que trabalham como artistas drags, que explora homossexualidade, bissexualidade, transgeneridade, paternidade, amizade, seria, ainda hoje, em 2021, uma aposta incerta e, na melhor das hipóteses, um filme para um público menor, alternativo e específico. Em 1994, “Priscila, a Rainha do Deserto”, não só explorou um universo que é cercado de tabus até hoje, mas fez isso com excelência, arrebatou o público do cinema comercial, vários prêmios e se tornou um clássico celebrado até hoje.

A ideia de homens vestidos de mulheres nos palcos é provavelmente tão velha quanto as artes cênicas. Desde os palcos da Grécia antiga, que não aceitavam que mulheres atuassem, ao tradicional Kabuki, teatro de performance japonês com figurinos e maquiagem extravagantes que, mesmo tendo sido criado por mulheres, teve sua execução proibida para elas, ficando restrito a atores profissionais do sexo masculino. Reza a lenda que o termo Drag, inclusive surge no teatro shakespereano, uma vez que o autor escrevia nas margens de suas peças a abreviação DRAG, dressed as a girl (vestido como uma garota) para se referir aos personagens femininos interpretados por homens. Uma outra teoria é a do uso do verbo to drag (arrastar) em inglês que se referia às roupas femininas que eram longas e se arrastavam pelos palcos e logo o nome se expandiu para os atores que se vestiam de mulher.

No cinema esses personagens também sempre existiram, porém eram explorados em viés muito específicos, a princípio de forma muito caricata, na comédia, como em “Como Mais Quente Melhor” de Billy Wilder e posteriormente também no terror como em psicose, clássico de Hitchcock.

A cultura pop abraçou Ru Paul e sua divertida Drag Race, Gloria Groove, Pablo Vitar, Laerte, Liniker, Kylie Jenner, e tantos outros têm encontrado seu lugar ao sol e reivindicado, com seu talento, o reconhecimento mais que merecido. Artistas que se juntam a diversos outras pessoas de muitas áreas de conhecimento e, mesmo estando em 2021, ainda estamos no início dessa caminhada de representatividade e de reconhecimento do lugar no mundo de pessoas trans, travestis e drags.

De acordo com Jo Fagner, professor da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte e pesquisador sobre relações de gênero, culturas e políticas da sexualidade, ” Os gays, em seus processos históricos de construção de personalidade, sofreram bastante repressão em seus espaços de sociabilidade: família, escola, mercado, relacionamentos amorosos, etc. Os gays afeminados acumulam ainda mais formas de discriminação, uma vez que as normas de gênero praticamente inferiorizam o homem que apresentar trejeitos e modos de se expressar femininos.  Em países como os Estados Unidos e o Brasil, muitos gays se organizavam nos circuitos culturais de boates, festas privadas e outros tipos de eventos para brincar com os papeis de gênero. Além de suavizar o peso do estigma em suas concepções de sujeito, passaram a se tornar importantes espaços de profissionalização, pelo viés da arte”. A arte sempre foi um espaço “seguro” em que os membros dessa comunidade puderam ser mais livres, se desenvolver e se profissionalizar.

Três astros do cinema autraliano Hugo Weaving, Guy Pearce e Terreence Stamp, dão vida ao trio de amigos Tick, Adam e Bernadette, que se lançam em uma viagem para o interior da Austrália a caminho de um resort e cassino pelo qual foram contratados para apresentar um show. O trio consegue um ônibus, que batizam de Priscila e que serve de palco para as deventuras do trio . A premissa de filmes de road trips agrega sempre à experiência a jornada. A viagem é o fio condutor que nos leva pra dentro da vida desses personagens e de alguma trajetória de evolução pessoal, de auto conhecimento pela qual eles precisam passar. O que diferencia o filme de Stephen Elliot dos demais filmes que exploram esse universo é justamente o fato de deixar de lado a comédia como premissa única e dar a esses personagens profundidade. O filme faz isso de forma corajosa pincelando uma serie de questões reais que perpassam as comunidades Lgbtqia+, o que agrega ao filme toda uma bagagem emocional. Apesar de ser passível de críticas por conta de algumas escolhas que, para os padrões de hoje não envelheceram tão bem, o filme segue levantando questões extremamente relevantes com elementos que vão desde abuso infantil à paternidada.

Stephen Elliot, que teve a ideia para o filme ao ver Drags na avenida, em um desfile de escolas de samba na cidade do Rio de Janeiro, consegue criar um universo lúdico, quase fictício que possibilita, naquela época, que os personagens façam essa jornada e saiam praticamente ilesos do outro lado.

Os figurinos juntamente com a fotografia, explodem na tela para além das referências à Givenchy, os figurinos refletem muito da cultura queer da época com cores vibrantes, leveza, movimento e é tão deslumbrante que rendeu ao filme o Oscar de melhor figurino para Lizzy Gardiner e Tim Chappel. As duas cenas de performance no topo do onibus cruzando o deserto são icônicas e marcaram o cinema do gênero.

A trilha pode ser considerada um personagem até de destaque, que carrega momentos musicais cativantes e marcantes, que junto com o figurino e a fotografia.  Certamente muitas das músicas já estavam presentes na vida da comuidade Lgbtqia+ da época, mas é inquestionável o alcance e a proporção que as músicas tomaram “I Wiil Survive” de Gloria Gaynor, “Shake Your Groove Thing” de Peaches & Herb Fame, I Love The Night Life de Alicia Bridges e muitas outras ganharam lugar de destaque para além do universo Lgbtqia+ e conquistaram o mundo, muito graças ao impacto do filme.

As questões de Tick sobre como lidar com a paternidade em meio as suas escolhas de vida e o seu lado artístico, as questões de Bernardete como uma mulher trans já na meia idade, de Adam que é mais afeminado e quer encontrar seu lugar no mundo, já são diferentes de tudo que se viu no cinema dentro desse universo. São questões que humanizam e dão contornos ao universo lgbtqia+ que nunca antes tinhamos visto, muito menos no cinema mainstream, e tudo isso costurado com a leveza das cores, do movimento dos figurinos, da vibração das músicas contagiantes, das piadas inusitadas e de conotação sexual. Tudo isso faz de Priscila a rainha do Deserto um clássico que merece o lugar de destaque que conquistou.

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