#TBT: Heath Ledger – “Não Sou o Coringa”

Sabe aquela frase de Clube da Luta (1999): “Você não é o seu trabalho.”?
Pois Heath Ledger era.

Há algum tempo li a biografia do ator e assisti ótimo documentário I Am Heath Ledger (2017), e pude perceber que enquanto estava num set de filmagem ele era mais que profissional.

Heath amava ficar com sua família. Quando estava com eles, estava cem por cento com eles. Não se achava ali nem um traço de seu lado ator. Por isso, não entendia os paparazzi que o perseguiam dia e noite na Austrália. Para ele, aquilo não fazia sentido e o lembrava de seu outro lado.

Este outro lado o rotulou desde o começo de sua carreira como um ator atípico. Ledger costumava passar um tempo com as roupas dos personagens antes de filmar para “entrar um pouco na cabeça” deles. Isolou-se por semanas para viver o solitário Ennis de Brokeback Mountain (2005) e o personagem que viria a lhe dar seu Oscar póstumo em 2009.

Aaron Eckhart disse certa vez que Heath era uma pessoa muito alegre e agradável nos sets, mas que após meses de gravação, o personagem ia desgastando o ator: “atuar é algo que te consome totalmente e tenho certeza de que Heath teve de pensar em coisas que não eram sempre agradáveis”.

Michael Caine conta que a primeira vez que viu Heath foi (a pedido do ator) em Batman – O Cavaleiro das Trevas (2008), na cena da festa na mansão Wayne, quando a porta do elevador se abre e o Coringa já surge caracterizado: “A cena foi feita em um único take, totalmente improvisada. Ninguém sabia o que ele ia fazer. Desculpe, não sou esse ator tão bom quanto pensam, não consegui atuar. Minha reação foi completamente espontânea, e você pode assisti-la no filme”.

Se você assistiu ao filme tantas vezes quanto eu deve ter reparado que o Coringa nem era o personagem principal daquele filme. O grande confronto proposto pela trama do diretor Christopher Nolan está na dualidade de dois homens muito parecidos, que escolhem caminhos diferentes para aceitar uma tragédia em suas vidas. Estes homens são Bruce (o Cavaleiro das Trevas) e Harvey (o Cavaleiro Branco). A conclusão do filme se dá exatamente no momento do embate entre estas duas figuras. Um morre, o outro foge e ambos perdem!

Espera ai, e o Coringa? Não menos importante, o Palhaço do Crime é o provocador desta tragédia. Mas quando o filme atinge o terceiro ato, o personagem já até foi derrotado e deixado de cabeça para baixo no alto de um prédio em construção.

Não foi a toa que Ledger sofreu para procurar sentido em seu personagem. O Coringa passa o filme inteiro dizendo uma coisa e fazendo outra. Em certo momento diz querer “matar o Batman” e lança foguetes em seu Batmóvel, para em outro momento afirmar que “não o quer morto”, mas que o arqui-inimigo “o completa”.

Em um momento diz que não faz planos, e se compara a “um cão seguindo carros“, para logo depois criar um dos testes psicológicos mais perturbadores da história do cinema, ao colocar bombas nas barcas de Gotham e desafiar seus passageiros a explodir os outros para se salvarem. É difícil entrar na cabeça de um sujeito que não faz o que diz. Que é o oposto de toda lógica e empatia.

Ledger gostava de buscar “porquês” para seus papeis. Suas interpretações eram emotivas sim, mas sempre embasadas em muitos estudos de casos até achar a composição que ele considerava correta para o personagem – vejam seu processo para compor Ennis de Brokeback, ou Dan de Candy (2006), ou mesmo Sonny de A Última Ceia (2001) e isso fica muito claro.

Acho engraçado sempre que falamos de Heath Ledger, a primeira imagem que vem na cabeça de todos é a do Coringa.

Heath não tinha nada do personagem e isso só dá mais peso a sua caracterização única. Pouco conhecia do Coringa (ao contrário de Jack Nicholson, que sempre leu suas histórias quando criança), e não procurou muito nos HQs para se preparar para o filme. Talvez por isso tenha sido tão perfeito para interpreta-lo.

Parte de sua brilhante atuação está no fato de ter criado uma persona nova dentro do que todos (fãs ou não) achavam conhecer do Coringa. Apesar de uma interpretação magistral, me pergunto se teria levado o Oscar caso estivesse vivo. Grande parte da campanha de marketing que gerou sua indicação partiu exatamente após sua morte.

Antes de o filme estrear, a imprensa americana já debatia se ele levaria o Oscar póstumo. Quando finalmente chegou aos cinemas, O Cavaleiro das Trevas levou multidões menos pela curiosidade dos fãs em ver o herói e muito mais pelo boca a boca gerado pelas teorias sobre sua morte, que atiçaram a curiosidade das pessoas em ver seu trabalho dentro de um papel tão icônico. 

Caso estivesse vivo, podemos somente supor se Ledger voltaria a viver o personagem. Aos companheiros de set e ao diretor ele disse que mal poderia esperar para retornar. Tanto que Nolan chegou a escrever uma cena nunca filmada em que o personagem fuge da prisão, sob o olhar temeroso dos detentos, em Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge (2012). A fuga está no filme. Ledger não.

Mesmo assim, ainda me pergunto se a vontade de voltar não era um desejo passageiro. Ele não era o tipo de ator que repetia um mesmo personagem – recusou diversas vezes uma sequencia de Coração de Cavaleiro (2001) e até 10 Coisas que Eu Odeio em Você (1999). Do jeito que se cobrava, me pergunto se aceitaria ficar marcado filme após filme vivendo a mesma caracterização, como Johnny Depp e seu Jack Sparow.

Passados 13 anos da morte de Heath Ledger, muito pouco ainda se sabe sobre os motivos de sua morte. Obviamente se sabe como ele morreu. Não sabemos o por quê.

Ledger morava sozinho em Nova York e tirava uma folga das filmagens de seu último filme O Imaginário do Doutor Parnassus (2009). Naquela segunda-feira saiu para almoçar com uma amiga, passou no mercado, comprou poucas coisas para a janta… e foi encontrado morto por sua empregada no dia seguinte. 

Não estou dizendo como muitos que “o personagem matou o ator” porque realmente não acredito nisso. Acho que a lenda do Coringa ganha com esse factoide. Ledger não.

Acredito sim que seu processo particular o tenha prejudicado seriamente. Seus quatro últimos personagens foram bastante densos e o ator não soube parar para se recuperar. Ledger emendou um filme no outro desde 2005, sem dar muito mais tempo para a família. Seu método solitário custou até mesmo o casamento com a atriz Michelle Willians, mãe de sua filha.

Até por este motivo o ator estava debilitado e teve uma folga do filme de Terry Gilliam, quando então foi encontrado morto, em janeiro de 2008. Heath não conhecia seus limites, como nós geralmente não conhecemos os nossos. Era humano como eu e você e infelizmente pagou o preço por seu talento.

Mas não se engane; Heath não era o Coringa.
Ele era tão parecido com o personagem quanto todos nós somos com aquela persona que criamos todos os dias no trabalho ou vida social. Também não somos esses personagens imaginários e não podemos deixa-los dizer como vivemos nossa vida.

Que o legado de Heath Ledger seja mais que seus filmes e nos sirva de lição. Já pensou hoje qual o preço que está pagando simplesmente por não olhar um pouco mais para você mesmo?

Deixe sua opinião sobre os filmes neste post ou nos mande um e-mail dizendo se concorda ou discorda da gente, deixando sua sugestão ou crítica: contato@ratosdecinema.com.

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2 comentários em “#TBT: Heath Ledger – “Não Sou o Coringa”

  1. Texto impecável. Nuca havia pensado que Heath tinha sequestrado o filme não de um, mas de 2 personagens principais. Num tempo em que filmes de heróis ainda patinavam, Nolan, do alto de todo o seu ego, soube recuar e deixar Ledger ser Ledger.
    Ganhou o cinema!

    Curtido por 1 pessoa

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