Duna e o Mistério da Vida, uma realidade a ser vivenciada

“Um início é um momento muito delicado”

Frank Herbert, Duna

É certamente um desafio e uma empreitada tentar dar vida à uma história tão marcante cujo tecido já está costurado à nossa cultura, talvez de forma irreversível e indissociável. São tantos os livros, filmes, heróis, histórias que se inspiram no que foi criado em Duna, que talvez não sejamos nem capazes de contabilizar. Na verdade, a maioria de nós, consumidores ávidos da cultura ocidental, nem faz ideia do quanto é diariamente influenciado por tudo que foi colocado em andamento quando as areias de Arrakis tomaram forma.

Em 1965 o escritor estadunidense Frank Herbert escreveu uma história que é muito mais do que a criação de uma nova realidade ou a projeção de um futuro pós tecnologia. Produto de um visionário, não é à toa que os seus escritos arrastem ainda hoje, multidões de fãs que se renovam geração após geração. O universo que Herbert construiu olha para o que é ser humano e destrincha questões universais que nunca tinham sido abordadas no gênero da ficção científica. O diretor Dennis Villeneuve conquistou ao longo de sua carreira uma grande admiração exatamente por possuir um olhar muito próprio para este cinema, entendendo que mais do que a tecnologia ou o futurismo a matéria humana é a especiaria que faz dessas histórias relevantes.

Duna é um filme imponente, cuja majestosidade técnica arrebata o expectador já desde as primeiras cenas. Um espetáculo audiovisual que impressiona, com fotografia soberba de Greig Fraser e trilha hipnotizante de Hans Zimmer. Depois de pelo menos uma década de heróis com superpoderes, já não somos estranhos aos efeitos especiais, porém, o que impressiona em Duna é a nitidez e verossimilhança, que faz com que nos perguntemos como tais feitos foram alcançados. Nada parece artificial demais. Há uma preocupação não só em criar um universo, que é muitas maneiras mágico, mas em fazer isso de forma crível. 8 mil anos no futuro e uma realidade de grandiosas naves, helicópteros libélula, mosquitos espiões assassinos, viagens espaciais, mas cada detalhe é construído dentro de mecânicas familiares a nossa existência e compreensão. Nada parece surreal demais, futurístico demais. E por mais que seja tudo hipnotizante e que fiquemos de fato maravilhados, a verdade é que a expectativa era de que o filme entregasse justamente isso: Grandiosidade e assombro.

O desafio seria mesmo o contar da história, considerada difícil, cheia de detalhes, nuances, até confusa por vezes, complexa, longa, com diversos personagens importantes, certamente não parece tarefa fácil. E mais uma vez, somos maravilhados. Em um mundo cada vez mais movido pela volatilidade das redes sociais, de vídeos rápidos e narrativas curtas e dedos velozes, sempre buscando o próximo entretenimento de no máximo 60 segundos, Villeneuve e sua equipe foram, no mínimo, ousados. Escolher produzir um filme de 2horas e 35 minutos que meramente apresenta um universo e seus personagens é quase um atrevimento. Petulância que deve incomodar muitas pessoas, mas, que a meu ver, foi uma escolha brilhante.

O filme se ocupa de menos da primeira metade do livro 1, em que Herbert criou um mundo, construído nos pormenores, apresentou detalhes, personagens, intenções. E Villeneuve escolheu começar a sua versão dessa história nos assombrando justamente com a riqueza desse mundo e de seus personagens. Um universo regido por um imperador e dividido em casas, que carregam tradições e costumes próprios, tem em seu cerne um planeta, Arrakis, onde é produzido o que eles chamam de especiarias, um importante elemento, cunhado das areias, que possibilita as viagens intergalácticas, sendo assim valiosíssimo. O planeta, que era colonizado pela casa Harkonnen, vai mudar de mãos, por ordem do imperador, e passará a ser explorado pela casa Atreides, em ascensão no império. E é justamente nesse momento de transição que somos apresentados à história.

Apesar de optar por um início mais lento, de apresentação, não faltam elementos instigantes e tensões que prendam e tornem a história cativante a ponto de nos deixar agarrados na beira da poltrona, elementos que causem angústia pela expectativa do que virá a seguir. Mesmo imaginando ou sabendo o que pode acontecer em alguns momentos é possível ficar totalmente imerso e conectado com a história.

O grande elenco que conta com Timothée Chalamet, Zendaya, Oscar Isaac, Rebecca Ferguson, Dave Bautista, Jason Momoa, Stellan Skarsgård, Javier Barden entre outros grandes atores, garante ainda mais a nossa conexão com a história e seus personagens, já que as atuações em sua grande maioria são certeiras e tornam todo o universo e suas relações ainda mais verossimilhantes. Há um choque de emoções nas relações que é interessante, ao mesmo tempo que existe uma formalidade exigida por certas posições e por uma nítida tradição, há também um afeto que perpassa pela maneira que os personagens se conectam e interagem. Há alguns diálogos importantes e marcantes, mas muito acontece nos silêncios. Um outro ponto bastante positivo é a presença de diversos idiomas usados em diferentes momentos por diferentes povos, inclusive uma presença importante da linguagem de sinais.

Imperialismo, colonização, exploração, política, religiosidade, sobrevivência, são questões que atravessam a história da humanidade e com as quais podemos nos relacionar diretamente e que fizeram e fazem de Duna um épico. Muitas das questões abordadas no livro foram, na época, consideradas pioneiras, nunca havia se pensado em ecologia e na importância intrínseca de preservar o planeta e a natureza para a sobrevivência humana. E ainda hoje , quase 60 anos depois essas questão seguem mais relevantes e vivas do que nunca.

O filme foi lançado em alguns países simultaneamente nos streamings e nos cinema e por aqui não vai demorar muito para chegar a HBOmax . Porém, apesar de o diretor ter dito que o filme pode ser visto e muito bem recebido em qualquer plataforma, a experiência de assistir Duna em uma boa sala, com um bom sistema áudio é insubstituível. A imersão proporcionada pela sala de cinema segue sendo única e incomparável. Além disso, é bom manter em mante que esse é apenas o começo da história e que nada é muito bem o que parece. Nas palavras de Frank Herbert, “Não há final real há apenas onde você para de contar a história”, e certamente o filme de Villeneuve nos deixa querendo muito mais, ansiosos por mais, com a certeza de que “É apenas o começo”.

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