A queda da Casa Gucci

“Sobre a casa e toda a propriedade, pairava uma atmosfera peculiar à eles e ao entorno direto – uma atmosfera que não tinha nenhuma proximidade com ar do céu, mas que exalava um aroma fétido das árvores se deteriorando, das paredes acinzentadas e do lago silencioso- um vapor pestilento e místico, denso, inerte, quase imperceptível e plúmbeo.”

Edgar Alan Poe, A Queda da Casa de Usher

Poucas coisas se igualam ao arrebatamento da paixão, àquelas sensações únicas dos primeiros encontros, à sensação de viver um conto de fadas, quase como se uma névoa magica pairasse sobre a cabeça dos amantes no início de um relacionamento, capaz de tirá-los do eixo e fazê-los até largar tudo em nome do grande amor. O encontro de Patrizia Reggiani e Maurizio Gucci, construído no início do filme, é gostoso de assistir, o casal tem uma química envolvente, que nos faz questionar e até duvidar dos caminhos que levaram essa história ao conhecido e trágico final. De cara a habilidade de Lady Gaga e Adam Driver de serem presenças marcantes e de construírem personagens carismáticos e cativantes chama atenção.

Logo somos introduzidos à família, ao universo Gucci, e a uma serie de outros personagens que completam o elenco grandioso. O primeiro momento de Patrizia deslumbrada por uma casa grandiosa, repleta de elementos que remetem a uma certa tradição, com empregados, comidas caríssimas e ostentosas obras de arte na parede dura o tempo que a névoa que envolve as paixões leva para se dissipar. A grandiosidade da Casa Gucci vai aos poucos se mostrando, tal qual a casa de Usher, do famoso conto de Edgar Allan Poe, decrépita, apodrecendo com um lago silencioso de águas fétidas, mas cujo assombro vai além de seus limites, e se expande ao universo em que está situada.

A história de amor de uma mulher de origem humilde, que se casa com o herdeiro da família Gucci, quase uma cinderela que deu muito errado, já que o desfecho está longe de ser o de um conto de fadas, certamente tem seu apelo. Porém, optar por expandir a história para além do relacionamento direto dos dois, trazendo as questões familiares, as políticas empresariais e até uma certa politicagem por trás do mundo da moda, evidenciou um dos maiores problemas do filme do diretor Ridley Scott, o roteiro.

O filme parece não saber muito bem sobre o que quer falar e acaba negligenciando todos os aspectos. O filme é muito bem carregado por Lady Gaga nos dois primeiros atos, mas há muitas pontas soltas, inclusive no relacionamento dela com o Maurizio de Adam Driver. O roteiro falha terrivelmente em construir as relações, principalmente a dos protagonistas após o casamento. Há uma mudança brusca de personalidade que não é justificada por praticamente nada que acontece no filme. Há um indício claro de uma ambição e de uma manipulação por parte de Patrizia, mas tudo é muito superficial e mal construído, há muita coisa a ser preenchida pelos achismos do expectador. A narrativa é bem linear e novelesca, com alguns excessos, mas muito mais faltas, no fim, vemos pouco sobre o mundo moda, pouco sobre quem são esses personagens, pouco sobre os bastidores, pouco sobre como certos importantes aspectos da história se desenvolveram, inclusive o crime.

Visualmente muito bonito e com um figurino maravilhoso, o filme tem muitos bons momentos, em sua grande maioria devido as belíssimas atuações. Adam Driver tem o dom da atuação minimalista e mesmo com um personagem não tão bem desenvolvido é capaz de as vezes com um olhar indicar que o filme está prestes a mudar de rumo. Os atores conseguem fazer muito com o material que tem e carregam o filme, com destaque para a relação de Aldo e Paolo Gucci, vividos respectivamente por Al Pacino e Jared Letto, cuja caracterização e performance são tão impressionantes que é praticamente impossível reconhecer o ator. A dinâmica entre eles é uma das melhores coisas do filme, junto com a trilha que se destacou quase como um personagem, já nos trailers. Apesar de perder um pouco da força a trilha é um dos grandes destaques, capaz de arrancar sorrisos e fazer cantarolar.

Ainda que desde o título o filme desse a entender que não era necessariamente sobre Patricia Reggiani, ela é o fio condutor da história por mais da metade do filme e quando a história caminha para a conclusão, em que a sua presença é crucial para entender os caminhos que a levaram às escolhas que fez, o filme a abandona e tudo que leva ao ápice é corrido, chegando a ser quase anticlimático.   

Mas tem uma sutileza na construção do final que leva o filme para um lugar do qual pouco se fala, mas que foi muito comum na vida nas mulheres, principalmente no passado, em que o lugar da mulher era ser a esposa, estar ao lado do marido. Há pelo mundo uma legião de mulheres que construíram impérios ao lado de seus maridos, que os impulsionaram e os fizeram ser grandes homens, que os ajudaram a conquistar o mundo, mas que foram fácil e rapidamente substituídas por versões mais jovens, mais aprazíveis socialmente. A frieza de Maurizio com relação ao fim do casamento e à Patrizia é palpável, mas mais uma vez o roteiro é insuficiente, já que não explora os acontecimentos ou as nuances do fim do relacionamento.

Beleza, amor, ganância, traições, morte, são elementos potentes na formação de uma grande história. Casa Gucci e a metáfora dessa bela, rica e grandiosa casa cercada de glamour, mas corroída por dentro pelos lados mais feios e obscuros do ser humano é sem dúvida uma história com potencial. O filme de Ridley Scott é bom, tem belos momentos e atuações, mas parece querer retratar as nuances sórdidas das relações pessoais, mas o roteiro quase pueril o impede de dar um mergulho mais profundo na natureza humana, que é feia e corrupta e não há lição a ser aprendida, só um rastro de destruição e morte.  

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s