Curtas-Metragens do Oscar 2022

O Oscar 2022 está chegando e o Ratos de Cinema traz as críticas de todos os curta-metragens indicados ao grande prêmio do cinema. Os curtas-metragens são divididos nas categorias Live-action, Documentário e Animação. São filmes de diferentes partes do mundo, que compõe uma seleção que priorizou questões sociais, com diferentes temáticas. deixando questões estéticas e narrativas em segundo plano.

Melhor curta-metragem Live-action

Ala Kachuu – Take and Run

Confesso que fui assistir esse curta sem ter a menor noção do que se tratava (uma prática não muito comum de minha parte) e conforme a história se desenrolava, fui ficando assustado com muito do que eu via. Ala Kachuu é um filme denúncia bem cru, que através de sua narrativa denúncia a situação de mulheres em alguns países do oriente que são raptadas e forçadas a se casar, situação que após consumada a cerimônia passa a ser bem aceita pela comunidade.

A situação é tão absurda que em um determinado momento, o marido/raptor questiona para ela sobre o que ele deveria fazer ? Gerações inteiras de mulheres que tiveram suas vidas roubadas em nome das tradições e dos costumes, uma situação que segue se perpetuando. Destaque para a atuação de Alina Turdumamatova, que consegue transmitir de maneira dolorosa toda a situação da protagonista.

Disponível: https://vimeo.com/670243158 (On Demand)

On My Mind

O longa tem uma história bem previsível e flerta com o amadorismo em diversos momentos. Tem até uma mensagem final que pode comover os mais sensíveis a questões espirituais, mas nada justifica a indicação desse curta ao Oscar 2022. A situação é ainda mais estranha, tendo em vista que o diretor Martin Strange-Hansen venceu o Oscar por um curta-metragem em 2003, logo não se trata do filme de um estreante.

Please Hold

Esse curta mistura a premissa de O Processo de Franz Kafka com Black Mirror. Situado aparentemente em um futuro próximo, um homem é preso por uma polícia automatizada. Preso sem saber qual o crime que cometeu, ele passa por todo o processo sem ter acesso a quase nenhum humano, sendo atendido friamente por máquinas, situação que não melhora muito com o pouco contato que ele tem com humanos. É o único dos curtas de ficção com um caráter mais narrativo, que funciona como um exercício de estilo, trabalhando clichês, um humor ácido e sem pesar a mão nas críticas sociais, apesar delas permearem todo o filme.

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The Dress

Um filme que mistura delicadeza com uma realidade amarga para contar a história de uma mulher que sofre da nanismo em busca de sua primeira experiência amorosa. 

Trabalhando como camareira em um hotel de beira de estrada, a protagonista leva um vida solitária. Calejada por terríveis experiências passadas, ela é quase que invisível para quem passa e sonha com a possibilidade de ter uma experiência diferente da sua realidade e tida por ela como normal. É difícil falar sobre o curta sem entregar nada, mas é um filme sobre o conflito entre sonhos, preconceitos e realidades.

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The Long Goodbye

É um filme bem curto, mas muito eficiente em suas propostas. A ambientação da casa no início consegue construir uma sensação de lar e de família em bem pouco tempo, quando tudo é facilmente destruído por uma espécie de milícia social que age de forma implacável e em conluio com a “lei”. 

Resta ao protagonista seu discurso que expõe algumas das incoerências mais cruéis do mundo e toda a dor de diversos povos expulsos de suas terras, que se tornam excluídos  onde quer que eles estejam.

Palpite do Ratos: The Long Goodbye.

O filme trata da situação de imigrantes, um tema muito atual e cada vez mais debatido.

Melhor Documentário em Curta-Metragem

Audible

É um documentário inspirador que além da natureza do esporte, trabalha a deficiência auditiva como obstáculo, mas ao mesmo tempo como elemento agregador em um time de futebol americano de uma escola para surdos. 

Partindo de um dos atletas como protagonista, o filme insere outros atletas na narrativa, mas trabalha sempre ao redor de Amaree e de sua história, servindo de fio condutor para que possamos conhecer um pouco dos desafios, preconceitos, alegrias, tristezas e conquistas dos membros do time e de todos os que fazem parte daquela comunidade.

Disponível: Netflix

Onde Eu Moro

Tratando de um tema atual e urgente, o documentário apresenta várias pessoas que vivem nas ruas e/ou em abrigos e que por diferentes motivos ou situações estão presos nessa condição. Ao não selecionar um personagem, o filme não consegue se aprofundar em nenhuma das histórias, também não sendo eficiente em construir um retrato social dessas pessoas nas cidades abordadas. 

As cenas de casas habitadas tendo seus moradores observados do ponto de vista externo enquanto praticam ações do cotidiano são interessantes, criam um paralelo com o desejo e a esperança dos personagens, mas o excesso desse artifício, junto com o uso de timelapse, acaba cansando, funcionando como uma transição pouco inspirada entre os momentos do curta. 

Sem explorar os motivos que levaram ao aumento alarmante de pessoas nessa condição, nem de questionar as autoridades sobre propostas para lidar com a situação, o filme emociona em alguns momentos mas é vazio como um todo, sem nunca se aprofundar em seu tema e em seus personagens.

Disponível: Netflix

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The Queen of Basketball

A maior qualidade sobre esse documentário é justamente um dos fatores mais relevantes do cinema (em especial do documentário), o de dar voz, de apresentar histórias incríveis que muitas vezes não são conhecidas. Aqui conhecemos a história de Lusia Harris, um importante nome da história do basquete americano, mas que não tem a sua importância tão conhecida, uma injustiça que o documentário ajuda a resolver.

Um dos grandes nomes da história do basquete feminino universitário, a atleta não fez carreira simplesmente por na época não haver a profissionalização do basquete feminino. Situação que mudou posteriormente por suas vitórias. Fez história com sua força, seja como primeira pontuadora das olimpíadas em sua modalidade, seja como mulher que foi convidada para o draft da NBA masculina, Lusia não teve a oportunidade de seguir no basquete, mas fez da educação que o esporte lhe proporcionou um agente transformador, para mudar a realidade de toda sua família. 

O formato de depoimento coberto por imagens de arquivo é bem convencional e já levou o New York Times ao Oscar em outros anos, mas principalmente se tratando de um documentário sobre basquete, a montagem é muito engessada, sobressai o carisma de Lusia e sua história incrível, mas a narrativa não ajuda o curta como obra cinematográfica.

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Três Canções Para Benazir

O curta traz um ponto de vista diferente da complexa situação do Afeganistão, um olhar de um jovem afegão que vive em condições precárias, sem acesso a saúde, educação e saneamento básico, pretende abandonar sua família (esposa e filho prestes a nascer) para se alistar no exército buscando uma fuga para sua realidade.

Mostrando o campo de refugiados pelo seu interior, chama a atenção a vigilância constante de aviões e dirigíveis que cruzam os céus em diversos momentos e as condições e a desesperança de todas aquelas pessoas vivendo sobre a constante ameaça da guerra e do Talibã. Essa ambientação funciona melhor que a história do protagonista em si, já que a história dele é pouco desenvolvida, tendo como conflito principal a falta de apoio de sua comunidade.

É triste constatar como em um país devastado a décadas pela guerra, o chamado as armas possa ser a única solução para toda uma população, alimentando um ciclo aparentemente sem fim.

Disponível: Netflix

When We Were Bullies

O curta é uma obra bem intencionada. O seu realizador revive uma situação pesada de bulling que ele cometeu na escola e através de sua maturidade e do forte sentimento de culpa, ele resolve procurar seus amigos da época, indagando o que todos eles se recordam daquele acontecimento.

Artisticamente pobre, o documentário traz o realizador correndo atrás de lembranças que aparentemente só ele tem com toda a vivacidade, situação que se desenvolve para o grande clímax que simplesmente não acontece por pura covardia do realizador, já que nunca conhecemos de fato as lembranças da vítima de toda a situação. O lado mais pertinente da história fica de fora, após passados tantos anos, a vítima não ganha sua oportunidade assumir o protagonismo por pura covardia do realizador, seja por medo da verdade ou da falta de lembranças do elo mais fraco, sepultando em definitivo suas próprias lembranças do passado.

Palpite do Ratos: The Queen of Basketball.

Uma história poderosa que mistura esporte e inclusão. Difícil não levar.

Melhor Curta-metragem de Animação

Affairs of the Art

Com uma estética bem incomoda (me remeteu a algumas animações usadas pelo Pink Floyd em The Wall), o filme trata da relação da irmã da protagonista com a morte. Uma menina cruel desde sua infância até a vida adulta, que mostra um fascínio pela morte, começando pela crueldade com animais, seguindo com a morte de parentes. 

O curta trabalha a ideia de que a irmã se tornou bem sucedida em sua crueldade e veracidade, deixando a protagonista sempre em segundo plano. Após uma epifania, ela resolve retomar sua ligação com as artes.

É um filme confuso em sua proposta e em sua mensagem.

NOTA_1,5 Cheese

Bestia

Bestia é um pesadelo em forma de animação. Baseado em fatos reais, o filme conta (sem diálogos) a história de Ingrid Olderöck, uma agente da ditadura de Pinochet que torturava mulheres de formas extremamente cruéis (pra dizer o mínimo).

Surpreende e incomoda (de uma forma boa) uma história tão pesada e violenta retratada como uma animação em stop-motion. Trabalhando os personagens com diferentes tipos de material, seja porcelana ou lã, o filme cria desde seu primeiro momento uma atmosfera muito pesada, ressaltada pela fotografia obscura e principalmente pela trilha sonora que é muito eficiente em desenvolver o clima do curta. 

Essa mistura de horror com trechos do cotidiano torna a narrativa ainda mais assustadora, misturando com os delírios da protagonista, cria-se um pesadelo narrativo doloroso de assistir, que ao ser um retrato da realidade provoca uma desesperança sufocante.

Disponível: https://vimeo.com/ondemand/bestia (On Demand)

Boxballet

Esse curta russo conta a história da relação entre um boxeador em fim de carreira e uma jovem bailarina. Sem fazer uso de diálogos, é um filme com uma estética que lembra os quadrinhos europeus e trabalha o contraste da natureza das duas profissões. 

O filme busca explorar também os diferentes tipos de violência presente nos dois ambientes e como a relação criada pelos personagens acaba influenciando a forma com que ambos lidam com seus ambientes. Um filme sobre contrastes, aprendizados e reações.

disponível: https://vimeo.com/660286410/description (É o primeiro filme).

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A Sabiá Sabiazinha

Uma simpática animação que tenta ser um musical de natal, mas funciona como um conto sobre aceitação das diferenças. Uma animação que mistura estilos estéticos com uma pegada voltada para o público infantil. É o único dos indicados com uma pegada mais leve, acaba destoando em estilo e certamente é o filme de maior orçamento.

Disponível: Netflix

The Windshield Wiper

Os trabalhos de Alberto Mielgo tem essa estética de uma realidade estilizada, que se popularizou em Spiderverse. O filme trabalha várias pequenas histórias tendo questionamentos sobre o amor como ponto de interseção entre elas. 

Contando com um tom pessimista, o curta transita entre histórias ora focadas no sensorial e em outras que buscam uma crítica social da modernidade que enfraquece frente a outros momentos. É um curta que não aposta em uma narrativa, mas sim em ideias e sentidos em uma construção que não encanta, mas entretém em sua curta duração.

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Palpite do Ratos: Bestia.

De longe o filme mais obscuro, ousado e relevante. O cinema chileno mostrando sua força mais uma vez.

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