Medida Provisória

Medida Provisória (2020). De Lázaro Ramos. Com Alfred Enoch, Taís Araújo, Seu Jorge, Aldri Anunciação, Flavio Bauraqui e Emicida.

Disponível: Cinemas

Medida provisória é o filme de estréia do ator e roteirista Lázaro Ramos na direção de longa-metragens e é uma adaptação da peça Namíbia, não!, de Aldri Anunciação, peça esta dirigida pelo próprio Lázaro para o teatro em 2011. A história retrata o Brasil em um futuro distópico em que o governo sanciona uma medida provisória em uma ´´iniciativa de reparação“ pelo passado escravocrata, obrigando todos os cidadãos negros a migrarem para a África na intenção de retornar para suas origens. Essa medida afeta diretamente a vida do casal Capitú (Taís Araújo) e Antonio (Alfred Enoch) e do seu primo André (Seu Jorge), que vivem juntos em um apartamento e agora precisam lidar com essa situação que vai mudar suas vidas e o país.

Passada em um futuro aparentemente próximo, o filme retrata um Brasil em que a comunidade negra segue em sua resistência e vem conseguindo vitórias significativas. O longa abre com um tom leve, buscando um humor que até surpreende dada a natureza da obra, mas tão logo a medida provisória começa a vigorar o tom do longa muda drasticamente, mesmo que nunca abandone esse humor por completo.

O roteiro escrito a oito mãos traz o autor da peça e o próprio Lázaro como autores, mas o grande problema do filme acontece justamente nessa transposição do texto original para o cinema. Abraçando sua natureza teatral, o filme expõe suas idéias quase que totalmente de forma verbalizada, tirando a força das imagens, a força imagética da obra é quase inexistente.

Curioso é que nas poucas cenas em que as imagens são privilegiadas como meio narrativo, elas funcionam, como quando o filme busca em duas rápidas sequências estabelecer a sensação de perigo e de alerta do negro dentro da sociedade. Essa oralidade excessiva acaba mastigando muitas das informações, enfraquecendo momentos de forte força dramática.

Sem entrar nos aspectos sociais, políticos, financeiros e diplomáticos da situação, o longa nunca consegue alcançar o tom de urgência que os acontecimentos dentro da obra deveriam provocar, introduzindo inclusive elementos narrativos que terminam sem nenhuma função. A prisão e exportação de mais da metade da população do país nunca é sentida em larga escala, nem mesmo as ruas vazias surgem durante o filme.

Os realizadores buscam contar uma história micro dentro dessa situação, uma decisão acertada, mas é uma pena que a grande maioria dos personagens não tenha o mínimo de desenvolvimento. A começar pelos representantes da repressão, que funcionam como os vilões da obra. A escolha de Renata Sorrah e Adriana Esteves (duas atrizes reconhecidas por seus papéis como vilãs), se mostram escolhas de elenco  pouco inspiradas, já que as duas pouco podem fazer com personagens tão caricatos. O que vale também para o núcleo dos políticos (desde já a cena do sorvete de chocolate é uma das piores cenas do ano), caricaturas completas que não funcionam nem como crítica a classe política vigente, outra espécie de caricatura difícil de acreditar.

O trio principal funciona bem melhor. O sempre carismático Seu Jorge quase rouba a cena, funcionando muitas vezes como um desnecessário alívio cômico, seu personagem é responsável por manter uma espécie de leveza dentro da situação. O casal Antônio e Capitu são o centro moral e dramático da obra, sendo Capitu a personagem mais forte, dona do discurso mais poderoso. Já Antônio é um personagem que vai perdendo sua força durante o desenvolvimento da história, se limitando a ficar preso em seu apartamento, esbravejando pela sacada quando o copo transborda.

Fechando com uma virada absurda, que não encontra justificativa em nada do que foi apresentado anteriormente, Medida provisória é um filme de extrema importância e relevância temática, ainda mais por ser realizado por um grupo de artistas reconhecidamente engajados na luta contra o racismo e da preservação e difusão da cultura negra. É uma pena que uma obra tão significativa e emblemática, termine se afundando em sua verborragia e seu didatismo. É um filme mais importante pela sua existência, que pela necessária mensagem que ele busca passar.     

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