Não! Não olhe!

Nope (2022). De Jordan Peele. Com Daniel Kaluya, Keke Palmer, Brandon Perea, Steven Yeun, Michael Wincott e Keith Davis.

Disponível: Cinemas

”E lançarei sobre ti coisas abomináveis, e envergonhar-te-ei, e pôr-te-ei como espetáculo.”

Com essa passagem do Velho Testamento, o diretor e roteirista Jordan Peele abre seu novo longa que traz a natureza do espetáculo e o fascínio incontrolável do ser humano pelo desconhecido como seus temas centrais. Trazendo como protagonistas dois irmãos descendentes do primeiro homem registrado em imagens com movimento e donos de personalidades totalmente diferentes, que precisam se entender para tocar os negócios após a misteriosa morte do pai.

OJ (Daniel Kaluya) é um homem tímido que trabalhava diretamente no rancho com o pai, que morreu em circunstâncias estranhas, causadas pela aparente queda de pedaços de uma aeronave. Emerald (Keke Palmer) é uma jovem extrovertida, antenada com o mundo, que vive fora daquela realidade do rancho. Os irmãos precisam salvar os negócios da família e fazem negócios com Jupe (Steven Yeun), um ex-ator mirim, que dirige um parque temático sobre o velho oeste e que são os únicos vizinhos do rancho. Após a aparição de um estranho óvni, os irmãos veem na situação a oportunidade de ficarem famosos registrando o objeto e começam então um plano para fazer a gravação e descobrir o que está acontecendo.

Como se diz milagre ruim ?.”

Peele é mestre em jogar com as expectativas do público e principalmente na construção de uma ambientação poderosa, que deixa o espectador vidrado na tela. A cena que abre o filme é vista de um único ponto de vista e traz um elemento central que fica no centro da tela, em segundo plano, mas que prende por completo a atenção do espectador. Um elemento o qual passaremos o restante da produção esperando por ele e por mais que ele seja revisitado, não acontece da forma que esperamos. 

O histórico da família enraizada nos primórdios do cinema, o traumático passado de Jupe em uma sitcom, a ligação de ambas as situações com animais, de certa forma, está tudo conectado. O reconhecimento e os limites do ser humano em consumir e produzir espetáculo são questionados, não por acaso o objeto que mata Othis (Keith Davis), é uma moeda que misteriosamente cai do céu. Prenúncio da ganância como tragédia.

Trabalhando personagens completamente diferentes em personalidades e estilos, mas com diferentes propósitos para a mesma situação, Peele constrói um roteiro engenhoso, que assim como seus trabalhos anteriores, monta um quebra cabeça a cada nova descoberta, ainda que aqui ele não esteja realmente interessado em entregar respostas, tendo a principal delas sendo respondida praticamente na metade da projeção. 

Outra característica da obra de Peele, são as diferentes camadas em que o diretor trabalha, seja para passar mensagens, realizar críticas sociais ou até mesmo como easter eggs. Aqui, Peele trabalha de forma mais leve. O filme traz uma trama interessante, porém, mais descompromissada. O humor é mais presente e o filme funciona perfeitamente para quem procura um suspense apenas como entretenimento. Para quem procura uma obra mais profunda, ela também promove alguma reflexão, ainda que em menor grau que seus filmes anteriores. Essa é a maior qualidade da obra de Jordan Peele, conseguir equilibrar entretenimento e temas mais profundos de uma maneira, que uma não necessariamente uma prejudique a outra. 

A história do cinema não fica apenas em seu subtexto, tendo o olhar e a câmera como elementos primordiais dentro do desenvolvimento da história. A história do cinema é revisitada pelas diferentes formas de registro, fazendo um caminho temporal inverso, culminando em um retorno às raízes da sétima arte e consequentemente a forma com que foi feito o experimento visual do jóquei no cavalo. 

Repleto de simbolismos que vão desde o formato do OVNI, até o ato de não olhar, que dialogam com temas mais profundos, enraizados na cultura estadunidense, Não! Não olhe! é mais um trabalho de Jordan Peele em um cinema autoral, que funciona como blockbuster. Dois extremos do cinema que se misturam, mesmo que aqui não encontre o mesmo equilíbrio de seus longas anteriores. Um feito alcançado por poucos diretores e que parece indicar Jordan Peele como um diretor diferenciado, ainda com muito a dizer.

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