Quebrando Mitos e o poder destrutivo da Masculinidade

Recentemente em uma aula de teoria literária, o ambiente se encheu de riso quando o professor, ao abordar o conteúdo da sua exposição, se viu impelido a explicar que os Mitos que íamos estudar não são pessoas, mas narrativas de caráter simbólico-imagético. Narrativas utilizadas pelos antigos para dar forma e significado ao mundo, para tratar de temas importantes acerca de uma civilização ou tentar dar conta de explicar a própria existência humana ou de um grupo.

Após assistir ao filme de Fernando Grostein Andrade e Fernando Siqueira essa reflexão me veio a cabeça. O quanto é simbólico, o quanto dá forma ao mundo e explica temas da nossa civilização, que a figura de Bolsonaro seja justamente associada a palavra Mito.  

O filme começa e as imagens do presidente são substituídas por relatos íntimos e pessoais de Fernando Grostein sobre a construção de sua própria identidade como homem que vai desde a tentativa de sufocar o menino curioso que gostava de flores aos desafios e ameaças enfrentados na posição de homem gay politicamente engajado. Relatos que passam por um modelo de pensamento que coloca os homens como detentores do conhecimento, da moral determinando, por exemplo, que algumas mulheres são só pra transar, outras para casar; que passa pelo grande numero de crianças e jovens abusados sexualmente; pela construção de uma sexualidade predatória; Pela formação de uma identidade violenta.

O mundo que vivemos é pautado por um modelo de masculinidade hegemônica que tradicionalmente defende valores como a agressividade e a invulnerabilidade, e que se posiciona como detentor do poder e da palavra acima de tudo, das mulheres, da natureza, das comunidades LGBTQIA+, dos seguidores de religiões de outras matrizes não cristãs e até mesmo das necessidades dos próprios homens. É desse, digamos, lugar de fala, de um homem branco de classe média alta, que viveu na pele tudo isso, que Fernando faz sua narrativa.

O filme é um “mix” de emoções e símbolos. O genérico, agressivo, repugnante, discurso machista, em prol do desmatamento, do extermínio indígena, do culto às armas, do negacionismo científico, do fanatismo e Preconceito Religiosos, da misoginia, da homofobia, do culto à violência, da violência do Estado, da violência contra a mulher, do Ufanismo – todos esses discursos nocivos e cruéis, costurados à ideia da Masculinidade como fio condutor, que evita que a história se perca, num mar de questões terríveis.

A experiência é uma crescente de desconforto que chega a deixar a respiração em suspenso em alguns momentos. Cada fala é como um soco no estômago e tudo vai se empilhando, se acumulando deixando um rastro de nojo e raiva. E alterna relatos mais pessoais, com imagens de arquivo e depoimentos de Políticos, militares, líderes indígenas, quilombolas confeccionando a obra com maestria e coragem onde cada frase, cada imagem, cada detalhe ,por mais terrível que seja, foi colocado exatamente onde deveria estar. O objetivo claro de evidenciar esses elementos e o quanto eles foram importantes na crescente desse movimento de extrema direita pautado nesse modelo de hipermasculinidade que levou o pais a se tornar um verdadeiro show de horrores.

O documentário é bem construído. O material disponível é vasto e é muito interessante ver como ele foi editado. Como há claramente um fio narrativo amarrado pelas imagens de arquivo, mas quebrado pela interferência da vida que acontece apesar desses moldes, apesar da persistência desse modelo. Os relatos sensíveis, francos e pessoais, sobre os diretores e a vida real que segue caminhando paralelamente ao horror, os amores que continuam sendo vividos, como as flores tão importantes para o Fernando Grostein, brotando em meios adversos. Os relatos de pessoas que são e foram diretamente afetadas pelos discursos proferidos pelo atual presidente do Brasil e aborda de forma franca as consequências da disseminação desse tipo de discurso.

O cinema documental brasileiro, mais uma vez atinge níveis de excelência e impressiona. E, não por acaso, o filme lançado pela internet já atinge enormes marcas de público. Os diretores afirmaram em entrevistas que o filme ficou sendo adiado porque os acontecimentos os impediam de finalizar a produção, já que as coisas continuavam e continuam acontecendo produzindo mais e mais materiais relevantes, como os discursos do último 7 de setembro.

A ideia do quanto esse modelo pautado é toxico e catastrófico brota instintivamente conforme avançamos assistindo à obra, mas junto vem também a ideia de que ao pensar nessa condição de Masculinidade assim, como tóxica damos a ela um caráter individual, monstruoso, como se ela fosse restrita à algumas pessoas, aos Bolsonaros do mundo. Grostein afirmou em entrevistas que “Bolsonaro sequestrou a masculinidade” e é aqui que a obra se despede dos autores.

O filme é muito maior do que a proposta inicial de Fernando Grostein e Fernando Siqueira. Já que esse culto à masculinidade ligada “ao autoritarismo, à brutalidade e à pulsão pela morte.” Não foi invenção desse governo, mas que rege o poder masculino desde a invenção do mundo ocidental ou pseudo ocidental, como é o caso do Brasil. Esse velho modelo que ganha força, não só no Brasil, mas no mundo, encontrou em Bolsonaro, tal qual em Trump, um mero instrumento de amplificação daquilo que já estava sedimentado nas bases da nossa constituição social. “A masculinidade do bem”, defendida pelos autores, infelizmente não existe. Os valores que fazem dessa masculinidade positiva, são valores humanos que nada tem a ver com a entidade masculina, como defendido pelo autor John Stoltenberg.

É um filme desagradável, aflitivo, desconcertante, capaz de embrulhar o estômago. Porém necessário. Que deveria ser visto por todos. Mais uma vez é preciso repetir o óbvio, é preciso reforçar o horror. O mais interessante e até triste talvez seja pensar que as pessoas que mais precisam ver esse e tantos outros documentários brasileiros, que abordam assuntos basilares para nossa vida em sociedade, não o farão. Mas a obra possui algo que é capaz de tocar a todos e, quem sabe, fazer rever alguns pequenos posicionamentos, fazer questionar algo que está além da figura mitológica assombrosa, fabricada no personagem Jair Bolsonaro: A masculinidade como um todo, na sua essência, e todo seu poder de destruição. Porém o desenvolvimento do filme deixa claro, de muitas formas, como estamos tratando de algo muito mais “mitológico”, que dá forma a maneira como estamos inseridos no mundo, que é capaz de explicar muito da natureza e da experiência humana, da natureza e da experiência humana da nossa brasilidade.

Assista este filme AQUI.

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Dois Documentários e um País

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