Blonde – Hollywood Através da Desconstrução de Um Ícone

Blonde (2022). De Andrew Dominik. Com Ana de Armas, Lily Fisher, Julianne Nicholson, Evan Williams, Xavier Samuel, Bobby Cannavale e Adrien Brody.

Disponível: Netflix

NOTA_2 Cheese

Ficcionalizar a realidade. Essa é basicamente uma das funções fundamentais do cinema, independente do gênero e da proposta da obra, todo filme de ficção é direta ou indiretamente uma reprodução ficcional da realidade. Com o diretor e roteirista Neo-zelandês Andrew Dominik não é diferente, porém ele trata essa relação de forma mais aberta, já que em seu terceiro filme que têm uma história real como base, ele leva para os cinemas uma história real, mas retratada de forma particular, sem nenhuma intenção e necessidade de respeitar o que aconteceu. 

Baseado no livro de Joyce Carol Oates que tem a mesma proposta, o filme busca reproduzir um retrato de Hollywood e do showbusiness como um todo, ao ficcionalizar a história de um dos maiores ícones do cinema, ao mesmo tempo em que cria um retrato triste, pesado e incômodo de uma mulher que desde sua infância parece fadada a uma jornada de sofrimento brutal, que passa por todas as etapas de sua vida. 

Blonde é um filme difícil, por diferentes razões. O roteiro de Dominik trabalha diferentes momentos da vida de Norma Jeane (Ana de Armas), momentos geralmente ligados a uma figura masculina (ou a ausência dela), como é o caso do pai desconhecido, com o qual ela busca se reencontrar em algum momento. Idealizado por uma foto apresentada pela mãe Gladys (Julianne Nicholson), que de forma sintomática, parece ter sofrido muito do que a filha sofreu, como uma jovem aspirante ao sucesso e mãe solteira em Los Angeles.

O filme trabalha com diversos saltos temporais, que parecem não afetar diretamente a protagonista, que tal qual os ícones, não tem sua idealização de beleza afetada pelo tempo. Trabalhando a dicotomia entre Norma Jeane e seu alter ego Marilyn Monroe (retratado em muitos momentos quase que como uma segunda personalidade), o filme foge um pouco dos holofotes, trabalhando a intimidade de Norma e os bastidores de Hollywood, seja no caminho degradante para o estrelato ou em seus relacionamentos pessoais. 

Interessante como a figura de Monroe surge quase que a margem da vida de Norma, já que a acompanhamos sempre nos bastidores e na intimidade. São várias as cenas em salas de cinema, onde Norma (interpretando seu papel em Hollywood) é ovacionada e endeusada, criando um contraste interessante com a realidade vivida por Norma. Essa relação entre as duas personas de Norma vai perdendo contornos com o desenvolvimento da narrativa, em seu terceiro ato, após tudo o que passou, Norma praticamente não existe mais, soterrada por remédios e pelas exigências de um símbolo sexual hollywoodiano. 

Com algumas cenas pesadas e incomodas, uma escolha pertinente dentro da proposta, Dominik deixa muito pouco para a imaginação do espectador, é tudo muito literal. O filme trabalha poucos diálogos, buscando uma experiência quase sensorial, que misturada a natureza machista e violenta daquele universo e o tom de pesadelo de muitas cenas, tornam uma experiência cinematográfica difícil, sensação reforçada pela longa e desnecessária duração do longa. 

Uma das principais características do cinema de Andrew Dominik é seu aspecto visual. Realizador que sabe construir imagens brilhantes, aqui Dominik perde totalmente a mão de sua abordagem devido a diversos excessos de estilo. Ele parece atirar para todos os lados, brinca com a razão de aspecto da tela, alterna indiscriminadamente (e aparentemente de forma aleatória) entre o colorido e o preto e branco, faz uso de diversos efeitos, câmeras presas aos corpos dos personagens, uma abordagem sem nenhum tipo de sutileza, que parece jogar na tela tudo o que é tipo de estilo e ferramenta cinematográfica, para narrar uma história já complexa por sua narrativa. 

A escolha da atriz cubana Ana de Armas se mostrou curiosa em um primeiro momento, mas é o maior acerto do longa. A atriz dá vida a uma personagem extremamente difícil, em uma atuação visceral, sofrida, que representa diferentes momentos e diferentes personalidades da mesma personagem, além é claro do desafio de encarnar uma das mulheres emblemáticas da história do cinema. Um passo importante na carreira da atriz, que tem aqui seu primeiro papel como protagonista, provando que é uma atriz talentosa, com potencial para grandes papéis. 

Acusado de ser um filme sádico e de fetichizar o sofrimento da protagonista, Blonde é sem dúvidas um dos filmes mais polêmicos do ano. Com uma abordagem pesada, o filme recria a história de Norma Jeane sem nunca dar uma real personalidade a personagem, enquanto cria um retrato do lado obscuro da indústria do entretenimento (e porque não, da sociedade em geral), desmitificando um de seus ícones no processo. Uma pena que tudo isso termine soterrado pelo excesso estilístico e narrativo de seu diretor, em uma obra trágica, em todos os sentidos.     

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