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Sobre heróis e o tempo

Por Patrícia Costa

“O mundo não é mais o mesmo! Os mutantes se foram!”(Logan, 2017)

Os mutantes se foram e o que sobrou foi a fragilidade do ser humano, diante de seu maior inimigo, o tempo.

“Envelhecer é tornar-nos vulneráveis, ser velho é estarmos sempre à espreita de não existir. “ (Valter Hugo mãe)

Não há romantismo na velhice, só ferrugem e poeira. Presos dentro de uma carcaça enferrujada, já cheia de buracos, a se deteriorar. A “prisão de Xavier” uma enorme referência ao envelhecimento do corpo à que ficamos presos. Assim como o lugar onde Logan e Xavier se refugiam, que, em muito se assemelha a um asilo, como disse Eliane Brum; “um abrigo inventado para esconder os que não tem lugar no mundo”.

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Se temos a desventura de sobreviver às nossas relações afetivas, carregamos a dor da idade e das perdas. Ficamos sujeitos a subjetividade da memória e com poucas perspectivas de futuro além da proximidade cada vez maior do fim.

Xavier e Logan sobreviveram, como testemunhas da história e de suas perdas. A perda, inclusive de si mesmos. A eterna luta contra seus próprios monstros e contra o tempo, e agora, também, o próprio corpo. O tempo traz uma destituição da vaidade, à medida que o corpo se deteriora, o andar que se dificulta, a mente que já não é confiável e nos prega truques, a visão que vai embora, a garra emperrada, e assim, vamos, pouco a pouco, nos tornando meros simulacros do que um dia fomos. São esses pequenos detalhes na construção desse filme que nos impactam com o peso do envelhecer e da humanidade desses personagens.

Apesar da familiaridade com suas histórias e seus dilemas, nunca eles estiveram tão próximos de nós. O filme de James Mangold nos apresenta a dura história desses homens, sobreviventes de seu tempo, vividos de forma intensa e tocante por Hugh Jackman e Patrick Stewart, que por acaso têm alguns poderes.

As músicas escolhidas como tema nos trailers de Logan, são um retrato quase que fiel do sentimento embebido no filme. Cheias de significado, para além da melancolia que carregam nas imagens que constroem, ““Way down we go” e “Hurt” poderiam ter sido escritas em cima do roteiro de Logan.

“Way down we go” (ladeira abaixo nós vamos). Um retrato desanimador e aflitivo daquilo que é inevitável. Mas temos o que merecemos? Quem sabe?

A desesperança é uma força nessa história, em que a realidade é brutal. No mundo real, os heróis fazem o que podem para sobreviver. No mundo real, os super-heróis trabalham longas jornadas, em empregos que pagam pouco para cuidar daqueles que importam, para comprar remédios e protege-los. No mundo real, faremos o nosso melhor e a vida, ainda assim, vai passar por cima da gente.

O que importa é a jornada, certo?

logan-xavier.jpgA jornada de Wolverine em busca de respostas sobre seu passado e sua luta constante contra seus instintos transformaram a relação de Logan e Xavier num vínculo paternal. E tanto tempo depois se transformaria na luta de “um filho” para cuidar de seu pai e protege-lo da melhor maneira possível, até de si mesmo.

É claro que o mundo não é mais o mesmo. Uma sociedade que valoriza o novo, está sempre em constante atualização e transformação. Em constante substituição do velho, pelo jovem. Mas só você que ama o passado, pois o passado é você, e que não vê, que o novo sempre vem. E assim, supostamente, renovamos a vida e as esperanças.

A imagem do pai é substituída pela da filha. A redenção vem por essa nova relação, pela esperança que ela representa, já que o passado é irremediável. Assim como a dor que ele causa, a lembrança dos erros cometidos, dos sacrifícios feitos, das vidas perdidas.

Muitas vezes penso que se me deparasse com a minha versão de um passado não tão distante, mal seria capaz de me reconhecer. E que difícil seria enfrentar aquilo que consideramos o pior de nós mesmos, que tanto lutamos, as vezes a vida inteira, pra deixar pra trás. Porém, infelizmente, essas versões de nossas existente, as vezes persistem e precisamos enfrentá-las.

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Com poderes ou sem; Como indivíduos ou como grupo; estamos fadados ao fracasso. Nunca tivemos a menor chance contra aquilo que nos oprime. No fim, a ignorância, a ganância e o medo vão vencer e, o que poderia acontecer de mais triste, é que, os que morrerem lutando, terão morrido em vão.

A ideia de que nossos heróis são humanos, e como tal, perecíveis, é de tirar o fôlego, exacerbando a nossa enorme fragilidade. Mas, como nos versos de Johny Cash, “Everyone we know goes away in the end”, No fim todos vão embora. E, quando forem, seguramente, vão nos desapontar e fazer sofrer.

22 de Março de 2017

Por Patrícia Costa

As Princesas e suas narrativas ao longo do tempo – Parte 2

O meu apreço por essas histórias, por essas princesas e suas músicas, que permearam a minha infância, seria facilmente transmitido à minha filha. Com menos de 2 anos ela era capaz de assistir à A Bela e a Fera inúmeras vezes ininterruptamente, e choraria se tirássemos o filme.

Eventualmente, como país do nosso tempo,  começamos a nos questionar sobre o conteúdo desses filmes e sobre a mensagem que essas princesas estavam passando pra ela. E me dei conta que esses ideias românticos, esses modelos de mulheres, muitas vezes iam de encontro à tudo que eu tentava ensinar à ela sobre ser mulher, sobre ser independente, sobre amor próprio, sobre nosso lugar no mundo, sobre questionar e lutar sempre, para ser quem queremos ser.

Foi então que entendi que essas mulheres nunca haviam me representado.

Mas agora em 2009, mais de 10 anos haviam se passado desde o lançamento de Mulan, antes de os estúdios Disney lançarem um outro filme de princesa. Depois de todo esse tempo, o mundo estava ainda mais diferente. As mudanças se faziam cada vez mais necessárias e, com a primeira princesa Negra da história dos estúdios, Tiana em A Princesa e o Sapo, seria a primeira de uma fase realmente inovadora. E, cada vez mais, a cada filme novo essas princesas se aproximam de nós. Não só de mim e da minha geração, mas, principalmente, de toda uma nova geração de mulheres que cresce, agora sim, com mulheres que podem representá-las e empoderá-las, mais e mais a cada filme.

Tiana- A Princesa e o Sapo (The Princess and the Frog, 2009)

download (6)Tiana não é princesa, é garçonete! Mas ela quer mais, muito mais. Ela tem planos, ambições envolvendo sua carreira. Uma mulher negra, primeira protagonista negra da história das animações Disney,  com personalidade forte e gênio difícil; durona e ambiciosa. Em uma bela inversão de papéis, ela é a líder, na tentativa de “salvar” o príncipe do vilão e assim fazê-los voltar a forma humana.

Apesar de tudo parecer muito bonito há uma crítica muito presente no filme ao fato dela escolher a carreira no lugar de se divertir e ter uma família. O filme parece, de alguma forma, uma espécie de lição de moral às mulheres modernas. Uma crítica à busca exacerbada pela carreira, deixando casamento e família de lado. É como se o filme quisesse dizer, que precisamos encontrar um equilíbrio. Infelizmente, em algum momento ela abre mão de seus sonhos por seu amor pelo príncipe. Por sorte, esse não é o desfecho do filme, mas a mensagem está lá. Ela quer buscar a carreira, mas não é feliz. Só encontra  felicidade quando encontra o verdadeiro amor de, mais uma vez, um príncipe.

Apesar de trabalhado de uma maneira inteiramente diferente, o romance está lá. Eles se tornam parceiros, se conhecem e se apaixonam, como iguais, e como iguais quebram o feitiço que os uniu e os aprisionou e conquistam seus sonhos. Surge uma nova ideia de relacionamento, mas ainda assim o relacionamento ainda é o que há de mais importante, o que vai garantir aos personagens o final feliz.

Rapunzel- Enrolados (Tangled, 2010)

Em Enrolados voltamos ao tradicional tema da Donzela em perigo que dá de cara com o salvador, no caso, um bandido procurado. Os sonhos estão de volta e com tudo, mas o desenrolar do filme leva essa princesa cheia de habilidades, a tomar com as próprias mãos o seu destino e lutar por ele. E,apesar da ideia do mocinha que salva a princesa, ela acabando salvando ele tanto quanto ele salva ela.

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 O filme é uma jornada de autoconhecimento, mais do que qualquer coisa.  Uma jornada de amadurecimento, que passa por se apaixonar. O que já é uma perspectiva diferente damaioria das que tivemos aqui, principalmente, quando consideramos o relacionamento entre o mocinho e a mocinha.

O que há de mais curioso é a qualidade dos sonhos dos personagens principais. Enquanto a princesa quer conhecer o mundo e entender de onde vem, ela acaba virando o sonho dele.

No lugar da donzela sonhando com o príncipe, temos a princesa independente aprendendo a se virar sozinha enquanto o mocinho sonha e se apaixona por ela, abandonando, ele, seus sonhos de riqueza. E ela como princesa, é a responsável por torna-lo príncipe.

Mesmo que presente a temática do amor é abordado de uma maneira completamente diferente, empoderando a personagem feminina frente à seu destino e ao destino do “herói”

 Merida – Valente (Brave, 2012)

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Merida, reúne alguns excelentes elementos de várias princesas anteriores, na construção do mais forte personagem feminino até então.

Ela luta contra a tradição, contra o casamento, defende ser livre e fazer suas próprias escolhas, sonha ser guerreira e ver o mundo. Valente é o primeiro filme em que a princesa não está envolvida em nenhuma trama romântica. Uma presença guerreira e independente.

O cerne é o relacionamento com a mãe, e a luta para poder ser quem ela quer ser, independente das tradições. Luta, luta até fisicamente, contra o pai, para salvar a mãe.

É, um avanço surpreendente e admirável um filme que desconstrói a ideia de que o casamento é o mais importante na vida da mulher e em que os personagens principais são as mulheres

Frozen – Uma aventura congelante (Frozen,2014)

Uma enorme desconstrução de tudo que os filmes de princesas da Disney costumavam ser, se utilizando até de ironia para marcar o quão absurdos eram alguns desenrolares.

O verdadeiro amor, o perigo iminente, o vilão, a vilã, o herói. Está tudo presente na narrativa de Frozen, mas de uma maneira muito diferente.

Existe a imagem de um vilão, na figura de Hans. Mas na realidade elas não estão lutando contra ele. O grande “vilão”, contra o que elas estão lutando são ideias mais abstratas. O medo os segredos, ser aceita por uma sociedade que vê como ruim aquilo que é diferente (aqui, apesar de representado pelo feminino, pela magia, muita coisa é abarcada por essas ideias). A luta contra aquilo que nos destrói de dentro para fora: ansiedade, depressão, medo, culpa.

A fala de Elza para Ana “Você não pode se casar com alguém que acabou de conhecer! ”, ironiza décadas de roteiros de filmes que romantizaram o amor à primeira vista, e o casamento imediato.

O clímax não é uma batalha entre herói e vilão, mas contra o maior vilão de todos o “tempo”. E a redenção vêm sim, pelo amor, mas pelo amor entre as irmãs. A substituição da rivalidade entre mulheres, muitas vezes presentes nos filmes, por uma ideia de companheirismo e irmandade acima de tudo. E a vitória sobre alguns outros quase vilões, nada mais é do que uma vitória sobre elas mesmas, uma vez que Elza controla seus poderes, suas fraquezas desaparecem, deixando de ser um problema.

Muitas pessoas não entenderadownload (4)m o porquê de um filme como Frozen fazer tanto sucesso. Apesar das questões lúdicas envolvendo a magia, o que costura a história, como pano de fundo, é real e revigorante. Muito fácil de se relacionar, ainda que de forma inconsciente, com a ideia de que muitas vezes nossos maiores inimigos estão dentro de nós.

A luta contra o medo e a necessidade de abrir o coração para a família e para o amor. A “desromantização” do amor a primeira vista, construído até como um vilão na história, que faz com que Ana, ingenuamente, não consiga enxergar as intenções de Hans. A “desromantização” dos relacionamentos que precisam, sim, de tempo e convívio para amadurecerem. E acima de tudo a ideia de mulheres amigas, não inimigas, irmãs, que se apoiem para superar seus medos e ir além.

Moana – Um mar de aventuras(Moana, 2016)

Onde chegamos depois de 80 anos de mudanças nessas narrativas? 80 anos de reconstruções e críticas, e de uma necessidade de possuir essas heroínas representando a força que as mulheres têm, representando-as para além dos estereótipos e das dicotomias de bem e mal, construídas ao longo dos anos.

*Para melhor analisar alguns elementos importantes para as conclusões apresentadas aqui o texto contém alguns SPOILERS daqui em diante*

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Moana é uma princesa destinada a ser a líder de seu povo, mas que vive em crise com relação às normas impostas que limitam o acesso destas pessoas ao mar. Quando a sua ilha começa a morrer e a vida de seu povo corre perigo, ela desafia o pai e as regras e parte sozinha em uma jornada para tentar salvar a todos. Se lança ao mar na busca por Maui, o Semideus, responsável por roubar o coração de Te Fiti, a Deusa da criação, pois, acredita que, somente devolvendo o coração de Te Fiti conseguirá salvar sua ilha e seu povo.

Moana é uma espécie de explosão de todos os melhores elementos de empoderamento feminino acumulados ao longo dos anos em diferentes histórias. Ela é forte, aventureira, destemida e quer a qualquer custo realizar sua missão e, para se certificar disso,  coloca seu próprio bem-estar em risco, ela desafia as regras sociais para conseguir seus objetivos, ela é a futura líder e o tempo todo se comporta como tal. Uma coisa bem impressionante é que em momento algum, nem sendo rechaçado, o amor romântico e o casamento são mencionados.

Mauí, por sua vez, é a personificação do machismo nosso de cada dia. A relação deles é um presente da cinematografia de animação, no que diz respeito ao empoderamento feminino. O tempo todo ele faz piadas e tenta diminuí-la, por ser mulher, por ser princesa. E ela passa o filme todo desconstruindo as falas dele. Mostrando para ele que é sim capaz de tudo aquilo de que ele acha que ela não é capaz, por ser mulher. Cada aventura vivida é uma situação diferente em que ela mostra a ele que a ideia que ele tem dela, por ser mulher, está errada. Ela o salva, ela o enfrenta, ela enfrenta os desafios que aparecem, ela encara o que ele não tem coragem de encarar, ela aprende, é criativa, destemida  e vai sempre além.

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Uma outra coisa muito interessante está nos elementos para além da princesa. A Deusa da criação, personificada na figura do feminino, que por si só já é um grande passo. Além disso há também a importância das outras personagens femininas como exemplos dessas mudanças,  na aldeia, por exemplo, elas são representadas realizando as mesmas tarefas que os homens sem distinção.

Tem uma cena, em que o pai dela fala sobre colocar a pedra no topo das demais, no monte das pedras que representam os chefes da aldeia. Todos, antes dele, eram homens. Moana é a primeira mulher a ocupar esse lugar. Não só na sua aldeia, mas também na história dos filmes de princesas.

A princesa, apesar de não ter intenção de lutar, está preparada para enfrentar o Deus do Vulcão para salvar seu povo, a qualquer custo. Ao chegar em seu destino e perceber que a Deusa não está mais lá, mas que a força maligna que inicialmente pensava-se como sendo o vilão era, na verdade, o que a Deusa da criação havia se tornado ao perder seu coração, traz uma nova e surpreendente lição.

Com isso Moana apresenta uma característica muito importante e, até mesmo escassa nos dias de hoje, a empatia. Ela é capaz de olhar além e com compaixão enxergar além do óbvio e ajuda a Deusa.

A ideia de quebra da dicotomia entre bem e mal, é uma grande e surpreendente novidade nessas narrativas, já que, de uma forma ou de outra, esses elementos sempre estiveram presentes. Esse filme nos faz questionar o que parecia óbvio, o mais do mesmo. Nos faz repensar a velha dinâmica dos filmes da Disney, em que temos o herói lutando contra o Vilão. Apresenta a ideia de que o bom e o mau podem estar no mesmo lugar. Quebrando de vez essa ideia de que temos pessoa boas e pessoas más. Ao invés disso,  é possível que, até a Deusa da criação, tenha o mal dentro dela e possa ser levada a optar por ele pelas circunstâncias.

Nenhuma outra princesa jamais foi tão corajosa e tão especial. Não só ao enfrentar o monstro de lava, mas ao fazê-lo com um olhar de amor e compreensão. Não com mais luta e mais ódio. Ao entender que aquele mal possuía uma origem e que o mesmo lugar era habitado pelo bem, Moana consegue restaurar o coração de Te Fiti e voltar triunfante para seu povo e devolver a eles, não só sua ilha com vida, mas ajuda-los a redescobrir o mar e ir além dos seus limites.

Esse filme só poderia ter sido feito nos dias atuais, porque reflete nosso momento. Momento em que estamos mais críticos com relação à mensagem que passamos com essas narrativas. Momento em que nos preocupamos com a maneira que reproduzimos a imagem da mulher na sociedade e da maneira como essas heroínas refletem essas conquistas, ainda longe de serem suficientes.

E que nesses próximos 80 anos os filmes da Disney continuem indo em frente e se reinventando, abrindo portas, e fazendo coisas novas. Sigamos em frente, como disse Disney. E que venha A Bela e a Fera (Beauty and the Beast, 2017)

16 de março de 2017

Por Patrícia Costa

As Princesas e suas narrativas ao longo do tempo – Parte 1

Quando a notícia de que Walt Disney tinha decidido, em 1934, criar um filme longa-metragem inteiramente animado, se espalhou, a indústria cinematográfica Hollywoodiana recebeu a novidade com ironia e a ideia foi tida no meio como “A Loucura de Disney“ (Disney’s Folly).

 “A Loucura de Walt Disney”, quase mais de 4 anos, um investimento de US$ 1,5 milhões e 2 milhões de desenhos depois, revolucionaria o mundo do cinema. Com técnicas inovadoras e, se feitos os ajustes inflacionários correspondentes, a marca de maior bilheteria de filmes de animação da história, com USS 1,7 bilhões, e a quarta maior da história do cinema, o filme atingiu um patamar importante na história não só da animação, mas do cinema de maneira geral.

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Apesar do cinema ser uma das mais recentes formas de expressão artística, alcançou rapidamente uma enorme complexidade e vastidão, entre conteúdos, formas e técnicas.  A arte e a sociedade sempre estiveram relacionadas. As obras podem ser altamente influenciadas pelo período histórico em que são criadas e costumam carregar, nos seus traços gerais, características que se repetem e refletem uma certa tendência social e cultural da época em que se inserem.

“Aqui, no entanto, nós não olhamos para trás por muito tempo. Nós continuamos seguindo em frente, abrindo novas portas e fazendo coisas novas, porque somos curiosos (…) e a curiosidade continua nos conduzindo por novos caminhos. Siga em frente” Walt Disney

Quase que como que seguindo as instruções de Walt Disney à risca, de fato, desde então, muitas princesas passearam pelas grandes telas e, cada uma à sua maneira, representaram o momento em que foram criadas. As princesas foram em frente e evoluíram junto com a sociedade em que estavam inseridas, e muita coisa mudou desde a pobre princesa indefesa a espera de seu príncipe e perseguida pela madrasta.

Há uma frase de Walt Disney que afirma que ele acreditava na importância do cinema como representação e formação da sociedade que diz que “Filmes podem ter e têm enorme influência na formação de vidas jovens no reino do entretenimento em direção às ideias e objetivos da vida adulta”. Isso é bem simbólico no que diz respeito às representações femininas nesses contos e filmes que passaram a servir como espelho e modelo sociais de comportamento e relacionamentos, substituindo as narrativas orais.

linda-woolvertonA roteirista Linda Woolverton, responsável por alguns dos mais relevantes filmes de animação da história como O Rei Leão (The Lion King, 1994) e a Bela e a Fera (Beauty and the Beast,1991), afirmou em 2014 em uma entrevista que “Todas essas heroínas Disney, essas princesas, são um produto de seu tempo”, “ As princesas que foram criadas nos anos 40 e 50 eram o melhor que uma mulher deveria ser naquela época: você é a boa moça. Você aceita o abuso (…) e apesar de tudo, canta e é legal. Mas não somos mais assim. Agora a gente arrasa”

Sob a luz de março e do dia internacional da mulher vamos passear, numa série em duas partes,  pelas narrativas de algumas dessas mulheres, princesas animadas, ao longo do tempo e da história e olhar de perto o quanto, de fato, essas representações do feminino se modificaram ao longo dos anos:

Branca de neve (Snow White, 1937)

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O ideal feminino cultivado na década de 40, era o da mulher, nossa velha conhecida; bela, recatada e do lar. As mulheres eram, quase que exclusivamente, donas de casa, exímias cozinheiras e cuidavam dos afazeres domésticos e das crianças. Inocentes e indefesas, ficavam à espera do casamento para sair da casa de seus pais e cumprir seu destino de família.

Toda essa noção é muito bem representada pela princesa indefesa que foge da fúria da madrasta, já que ser bonita demais, também é um problema. A mulher deveria ser discreta. A jovem princesa troca seus dotes domésticos por proteção enquanto os anões vão trabalhar. E, enquanto ela sofre as mazelas dessa vida, canta, linda e feliz na espera pelo príncipe encantado que vem leva-la para uma vida de conforto e estabilidade em seu castelo.

Até que ponto essa princesa é um reflexo dessa sociedade existente e até que ponto ela molda essa sociedade reproduzindo como padrão aquilo que se esperava das mulheres da época?

Os produtores afirmam que a maior preocupação na época era com a realização do projeto cinematográfico, da animação em si, e que, o foco não era a história em si ou em criar um personagem progressista, mas em finalizar o trabalho, o que faz sentido, mas não justifica a sequência de princesas que se seguiram.

Cinderella (Cinderella, 1950)  e A Bela Adormecida (The Sleeping Beauty, 1959)

Na década de 50, o momento era o pós guerra, muitas mulheres e crianças, assim como em todas as guerras acabavam sozinhas, já que os homens iam pra guerra e muitas vezes não voltavam. As mulheres começaram a trabalhar em funções anteriormente só realizadas por homens. Com o fim da guerra sumiram esses trabalhos, assim como as creches que garantiam a possibilidade de a mulher trabalhar. O que se viu além disso, foi o “boom” de casamentos e bebês. O filme de Cinderella, apesar de na história a morte do pai ser explicada como natural, carrega a questão das mulheres que se viam sozinhas, situação de fácil identificação na época.

Porém, essa nova realidade não se refletiu nas telas. Socialmente as mulheres carregavam a herança da ideia que nasciam para serem donas de casa, esposas e mães. Há uma enorme passividade tanto em Cinderella quanto em Aurora, que passam a vida sonhando. Sendo o sonho um tema recorrente, o sonhar com o “marido” ideal em forma de príncipe encantado que virá resgatá-la.

Nenhuma dessas mulheres participa das ações que viriam a marcar suas vidas. Sempre impulsionadas por um fator externo, seja a fada madrinha, ou a luta entre a bruxa e príncipe.

No caso de Aurora a gravidade é ainda maior considerando que ela passa uma boa parte da história desacordada. O que talvez explique o fracasso do desenho na época, já que a princesa em muito já não representava aquele momento, o que fez com que os estúdios levassem 30 anos até que a próxima princesa viesse a figurar nos cinemas.

Ariel – A Pequena Sereia (The Little Mermaid, 1989)

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Temos que admitir; se tem uma coisa que Ariel não é, é passiva. Uma representação bem diferente da última princesa, Ariel é cheia de atitude, desobediência e opinião. E está bem dentro do seu tempo, no final dos anos 80. Impulsiva e apaixonada vai atrás de seus sonhos. Mas toda essa maravilhosidade cai por terra quando tudo que ela faz é por causa de um garoto, que é??? Um príncipe!

Ela abandona a família, deixa sua casa, entrega sua voz, para conseguir conquistar um garoto por quem se apaixonou a primeira vista. Tudo bem que tem um pouco de revolucionário no fato de ela ser aquela que “corre atrás” do relacionamento e que busca o beijo, que pode ser sua salvação.

A verdade, porém, é que, a história não se afasta do fato de que o centro do universo feminino continua sendo o príncipe encantado. A mulher continua dependendo exclusivamente da sua aparência, e de ser meiga e adorável, para que no final o príncipe salve o dia, no caso, derrote a Úrsula. Continuamos, então, propagando a ideia de que a felicidade está no outro e este outro é um homem, lindo, jovem e rico com quem vamos casar, ter filhinhos sereios e estabilidade.

Bela (The Beauty and the Beast, 1991), e Pocahontas (Pocahontas, 1995)

Bela e Pocahontas de alguma forma, pensadoras livres, mulheres à frente de seu tempo, que estão indo de encontro ao que a sociedade, a comunidade de que fazem parte espera delas, espera das mulheres. Uma representação já distante da passividade dos anos 40 e 50.

Diferente das mulheres da sua aldeia, Bela gosta de ler, sonha com aventuras e não pensa em filhos ou casamento, como as demais moças da sua cidade. Quer mais do que a típica vida do interior.

Há ainda uma outra mudança na postura de Bela que é o fato de abandonar tudo, abrindo mão de sua liberdade, mas não por amor romântico, mas agora, pela família.

Pocahontas, sem considerarmos às absurdas discrepâncias históricas que acabaram por romantizar o sequestro e o estupro da jovem índia, é também bem diferente. A jovem, personagem fictícia, representa um espírito livre, aberto ao novo e às mudanças, sem medo de arriscar e defender aquilo em que acredita.

Ambas são muito motivadas pelo seu senso de ética, e buscam todo o tempo fazer o que acham certo. Mas outra coisa que as aproxima é o envolvimento com seus algozes. A ideia de se apaixonar por aquele que veio para conquistar o seu território e aquele que a mantém prisioneira, por capricho ou interesses próprios, é no mínimo questionável. Apesar de uma postura independente e de uma visão diferente de mundo os personagens masculinos como ideais de amor romântico ainda são temas recorrentes.

Bela, apesar de, no início da história, querer aventuras, acaba casando com o príncipe e vivendo feliz pra sempre.

Jasmine (Aladdin, 1992)

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A princesa de Agrabah, assim como Bela e Pocahontas, é aventureira e vai de encontro às normas do seu tempo e da sua sociedade patriarcal, que determina que ela deve se casar. Ela foge e questionas as imposições sociais sobre o casamento arranjado que precisa aceitar de acordo com as leis patriarcais de seu pais. Mas a objeção ao casamento acaba no minuto que ela acredita ter encontrado o homem ideal, romântico, bonito, aventureiro. Objetificada pelo vilão ela usa da sedução para ganhar tempo para que o príncipe disfarçado de “diamante bruto”, pobre porém cheio de ética e boas intenções, possa salvar a todos das garras do vilão.

Jasmine em muito se assemelha à representação feminina no cinema, de maneira geral. Uma roupagem moderna, mas sem perder o apelo tradicional da sexualização e submissão.

Mulan (Mulan, 1998)

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Mulan, apesar de não ser em momento algum da realeza, nos formatos principescos tradicionais, entra para o rol das princesas, mulheres heroínas Disney como uma das mais importantes nas mudanças da representatividade feminina.

A família e a honra são as molas propulsoras. A história não gira em torno do amor por um homem. É sobre proteger sua família, lutar e salvar a China, sobre descobrir quem é em meio a uma sociedade tradicional. Sobre se tornar mulher e ser forte o bastante para enfrentar o que vier pela frente.  O romance não está descartado, está lá, bem lá atrás, como um pano de fundo pouco importante e que em nada interfere no desenrolar da história.

Mulan vai além, chamando a atenção para a determinação de certos papeis sociais, às limitações presentes no universo feminino pelas imposições culturais. Ressalta a força feminina e o fato de que podemos ser qualquer coisa, até guerreiras.

O filme Mulan daria fim à um ciclo. Os estúdios levariam mais de 10 anos para lançar outro filme de princesa. Nesses primeiros 60 anos a representação feminina foi da típica dona de casa á guerreira, ainda que disfarçada de homem, salvadora de sua pátria e da honra de sua família.

Que caminhos essas representações seguiram desde sua retomada em 2009 até os dias de hoje? Fique ligado nos textos das próximas semanas e saiba mais sobre as mudanças na representação das mulheres nos filmes de princesa ao longo dos anos.

9 de Março de 2017

Por Patrícia Costa

“12 filmes no festival de Berlim, nenhum no Cinemark”

Um “meme” publicado por Bruna Moreira que falava sobre a presença de 12 filmes brasileiros no festival de Berlim contra a presença de nenhum nas bilheterias circulou nas redes sociais na última semana levantando algumas questões sobre o cinema nacional. A figura foi compartilhada em larga escala e reproduzida e aplaudida como verdade absoluta. Mas até que ponto esse meme reflete a realidade do cinema brasileiro?

A primeira exibição de cinema no Brasil aconteceu em 8 de julho de 1896, no Rio de Janeiro, por iniciativa do exibidor itinerante belga Henri Paillie. Naquela noite, numa sala alugada do Jornal do Comércio, na Rua do Ouvidor, foram projetados oito filminhos de cerca de um minuto cada, com interrupções entre eles e retratando apenas cenas pitorescas do cotidiano de cidades da Europa. Só a elite carioca participou deste fato histórico para o Brasil, pois os ingressos não eram baratos.

Os ingressos continuam não sendo baratos e continuam limitando o acesso de uma grande parcela da população, mas 121 anos depois as taxas de crescimento do cinema nacional são as maiores de todos os tempos. A produção cinematográfica brasileira passou por muitos altos e baixos ao longo desse tempo e hoje, surpreende por, em “tempos de crise”, continuar crescendo fora da curva.

Bilheteria
Indicador 2011 2012 2013 2014 2015
Público 143.206.574 146.598.376 149.518.269 155.610.429 172.943.242
Público filmes brasileiros 17.687.772 15.654.862 27.789.804 19.058.142 22.485.736
Público filmes estrangeiros 125.518.802 130.943.514 121.728.465 136.552.287 150.457.506
Participação de público dos filmes brasileiros 12,35% 10,68% 18,59% 12,25% 13,00%
Renda Bruta (R$) 1.449.997.621,20 1.614.022.222,83 1.753.200.571,83 1.955.909.695,99 2.350.161.302,17
Renda filmes brasileiros (R$) 161.487.064,41 158.105.660,79 297.072.056,07 221.853.128,60 277.679.147,86
Renda filmes estrangeiros (R$) 1.288.510.556,79 1.455.916.562,04 1.456.128.515,76 1.734.056.567,39 2.072.482.154,31
Lançamentos 337 327 397 393 446
Lançamentos brasileiros 100 83 129 114 129
Lançamentos estrangeiros 237 244 268 279 317
Lançamentos brasileiros sobre total 29,67% 25,54% 32,49% 29,01% 28,92%
Ingressos per capita 0,74 0,76 0,74 0,77 0,85
Preço médio do ingresso 10,13 11,01 11,73 12,57 13,59
Fonte: 2002 a 2008: Filme B. Exceto, números de lançamentos brasileiros: Filme B e Apuração ANCINE – 2009 a 2015: ANCINE / Sistema de Acompanhamento da Distribuição em Salas de Exibição (SADIS).

Em 2016, com 143 filmes lançados, o cinema nacional bateu recordes, atingindo o maior número de filmes lançados em sua história. Foram 143 longas-metragens, 97 do gênero ficção, 45 documentários e uma animação, segundo dados da Agência Nacional de Cinema (Ancine).

O crescimento do parque de exibição, com o aumento do número de salas, parece de alguma forma impulsionar também o desenvolvimento da produção nacional. Foram mais de R$362 Milhões. Parece um número expressivo, mas esse número perde força quando o colocamos no montante e percebemos que isso é apenas 16,5% do consumo nacional. É positivo pensar que são 3% a mais do que os 13% de 2015, mas em um mercado de mais de R$ 2,6 bilhões, fica a pergunta: Cadê o público do cinema nacional?

O cinema brasileiro, como disse Fernanda Ezabella em sua coluna tempos atrás, se tornou uma espécie de vedete do Brasil no exterior. Os 12 filmes presente no festival de Berlim são um bom reflexo disso. Arranca elogios e prêmios nos festivais europeus, exporta diretores e atores para grandes estúdios internacionais e com uma certa constância vive cada vez com maior intensidade a expectativa de safras cada vez melhores anualmente. Porém, segue-se dizendo que encontrar o público, continua sendo um de seus maiores desafios. O público brasileiro não assiste aos filmes nacionais?

Então nos deparamos com os números das maiores bilheterias de 2016, em que das 10 filmes de maior bilheteria do ano, 2 pertencem a filmes brasileiros. Minha Mãe é Uma Peça 2 (2016) levou mais de 9 milhões de pessoas às salas de cinema e Os 10 Mandamentos (2016) 11 milhões, sem levar em consideração as polêmicas envolvendo as bilheterias do filme.

# Filme Estúdio Arrecadação Público Total
1 Capitão América: Guerra Civil Disney/ Buena Vista R$143.508.000 9.605.100
2 Batman vs Superman: A origem da Justiça Warner Bros.. R$132.460.000 8.561.200
3 Minha Mãe é uma peça 2 Downtown Films/Paris Films R$121.000.000 9.144.831
4 Esquadrão suicida Warner Bros. R$118.010.000 7.883.600
5 Os Dez Mandamentos- O Filme Downtown Films/Paris Films R$116.409.000 11.259.000
6 Procurando Dory Disney/ Buena Vista R$113.499.000 8.197.900
7 Deadpool Fox Film do Brasil R$81.927.000 6.043.000
8 Doutor Estranho Disney/ Buena Vista R$75.970.000 4.821.122
9 A Era do Gelo o Big Bang Fox Film do Brasil R$71.273.000 5.262.600
10 X-Men: Apocalipse Fox film do Brasil R$67.372.000 4.288.400

Com uma análise rápida concluímos que os filmes estão sendo produzidos em profusão, e que, aparentemente, o público brasileiro vai sim ao cinema ver os filmes brasileiros. Mas de alguma forma essa conta parece não fechar. 16% é um número pequeno considerando o tamanho da produção nacional. Foram 143 filmes. Quantos filmes brasileiros você lembra de ter visto em cartaz nos cinemas no ano de 2016? O “meme” em questão, critica, não a falta de produção, mas ausência dessas produções nas salas de cinema.

O cinema brasileiro já passou por diversas fases desde 1897 com as primeiras produções: Chanchada, pornô chanchada, cinema novo, a época da Embrafilmes e Retomada, são só alguns dos momentos que marcaram a história do movimento cinematográfico no país.

Um momento em especial e um episódio em questão me fazem pensar na situação do cinema nacional.

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Com a extinção da Embrafilme e de outros órgãos do setor cultural em 1990 a produção cinematográfica brasileira sofreu grandes perdas. Porém, em 1995, com baixo orçamento a diretora Carla Camuratti produziu o filme Carlota Joaquina, Princesa do Brasil (1995), Uma sátira do desembarque da corte portuguesa na América, com Marieta Severo e Marco Nanini.

Em uma época em que as salas exibindo filmes nacionais vendiam poucos ingressos, o filme Carlota Joaquina, marca a “Retomada” do cinema nacional, levando mais de um milhão de espectadores ao cinema com grandes nomes e um formato novelístico, bem semelhante ao encontrado nas produções televisivas. Mas como? Como em tempos tão dramáticos para o cinema nacional se conseguiu números tão expressivos?

Existe uma “lenda”, muito pertinente para as considerações feitas aqui, sobre o filme e sua distribuição. Aparentemente, Carla produziu, mas os exibidores não queriam distribuir o filme. Ela, então, do próprio bolso, bancou a exibição por 2 semanas em uma sala de cinema na zona sul do Rio de Janeiro. Na primeira semana a repercussão do filme com o público foi tão positivo que a casa prolongou a exibição por mais duas semanas.

A diretora colocou o filme embaixo do braço e saiu Brasil a fora, eliminando assim a figura do distribuidor. Como resultado teve um aumento do seu lucro e conseguiu uma marca, até então, impossível para o cenário da época.

O processo de levar um filme às salas de cinema e mantê-lo, ainda que apenas por uma semana, em cartaz,  é de um custo exorbitante. Entre publicidade e distribuição, os custos acabam limitando o acesso de muitas excelentes produções nacionais às grandes salas e ao grande público.

As grandes produções internacionais continuam ocupando a maioria das salas. E, de certa forma, isso acaba criando um hábito. Os filmes que chegam com maior alcance ao grande público, com raríssimas exceções, são filmes de grandes estúdios e distribuidoras, como se pode perceber com os dois filmes nacionais de maior bilheteria de 2016, ambos da Downtown Films/ Paris Films.

Os filmes que chegam com maiores investimentos às grandes salas são filmes com uma plataforma muito mais mercadológica, sendo, de certa forma, mais do mesmo. Comédias, com atores e comediantes conhecidos nos velhos formatos de sempre, algumas cinebiografias e uma ou outra exceções, limitando a experiência do telespectador e o acesso à grande variedade de filmes no catálogo das produções nacionais.

É claro que o cenário atual não é mais o mesmo de 1995, o cinema nacional hoje é muito mais forte que na época e está se expandindo. Atualmente temos órgãos e empresas que se encarregam de dar ao cinema nacional uma maior visibilidade. Se analisarmos os números percebemos que isso nada tem a ver com, se é que algum dia teve, a qualidade ou a quantidade da produção nacional.

A distribuição continua muito desleal, principalmente, se consideramos os filmes independentes com baixo orçamento. Para tentar amenizar essas disparidades existe um decreto, no caso de 2017  de N.º8944, que garante anualmente ao cinema nacional uma “cota de tela” que assegura que os complexos de exibição exibirão no mínimo, uma certa variedade de filmes nacionais por número determinado de semanas, reservando espaço em suas grades de programação para essas produções.

Para o ano de 2017, filmes nacionais tem que ser exibidos por pelo menos 28 dias no ano. O número mínimo de títulos brasileiros diferentes também aumenta progressivamente até chegar aos 24, para complexos com 16 ou mais salas. Esse mecanismo possibilitará um mínimo de 166.669 dias de exibição de filmes brasileiros no ano de 2017, uma média de 53 dias/ano para cada sala de cinema. Isso equivale 14,5% de espaço para exibição de filmes nacionais para o ano de 2017.

14,5% de espaço de exibição. 16,5 % do consumo nacional. A proximidade desses números parece indicar uma relação direta entre eles. Será que alguma coisa pode ser feita para aumentar ainda mais a presença das produções locais na vida dos brasileiros?

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A não ser que todos os produtores coloquem seus filmes embaixo do braço e saiam por aí, como Carla Camurati, vendendo seus filmes de porta em porta, ou outras alternativas sejam encontradas, seguimos com 12 filmes no festival de Berlim enquanto temos apenas 1 ou dois nos cinemas do país.

23 de fevereiro de 2017

por Patrícia Costa

It’s a man’s world

A letra da famosa música de James Brown parece ressoar pela nossa sociedade ainda como eco de como as coisas funcionam. Atual como nunca, o protagonismo masculino continua em voga e se reflete em diversas áreas. Fizeram os carros para leva-los além das estradas, os trens para transportar as cargas pesadas, os barcos para a água, e o cinema para reforçar seu lugar de destaque e personagem principal na sociedade.

Muita coisa mudou desde a primeira exibição cinematográfica paga, em 1895, no que diz respeito às representações de gêneros, mas, infelizmente, não tanto assim.

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Algumas mulheres sempre tiveram destaque nas produções cinematográficas. Theda Bara, consagrada com o filme Escravo de uma paixão (A fool there was, 1915), é considerada a primeira mulher fatal, ainda na época do cinema mudo. Ela foi seguida por outras grandes representantes da figura feminina no cinema. Mary Pickford, Greta Garbo, Marlène Dietrich, Mae West, Ingrid Bergman, Ava Gardner, Rita Hayworth, Carmen Miranda, Marylin Monroe, Audrey Hepburn, Jane Fonda.

Divas e estrelas do cinema. Muitas são as mulheres reconhecidas e produzidas pela indústria cinematográfica. Filhas e esposas obedientes, donas de casa exemplares, donzelas em perigo, assim eram a maioria dos papeis, personagens, em sua grande maioria, altamente sexualizadas, orbitando em torno de personagens masculinos que carregavam as histórias.

A hipersexualização marcou em muitos papeis as carreiras de diversas estrelas e ícones femininos no cinema. Assim como Dolores Haze, mais conhecida como Lolita (Lolita, 1962), na adaptação de Stanley Kubrick  para o clássico de Nabokov, uma adolescente objeto da luxúria de seu padrasto;

Rita Hayworth, em Gilda (Gilda, 1946), Apesar de protagonista e uma das poucas que tem o filme carregando seu nome no título, é uma ode à sensualidade; Marlene Dietrich, Lola Lola, do clássico O Anjo Azul (Der Blaue Engel, 1930), em uma atuação que seria ousada e sedutora até pelos padrões de hoje com mulher que fez um respeitado e severo professor perder tudo o que tinha;

E, a também marcante e inesquecível, Carrie Fischer, no papel da Princesa Lea, na trilogia Guerra nas Estrelas, prova com seus penteados em coque e seu antológico biquíni de meta, que continua sendo fetiche para muitos, como a criação desses símbolos ultrapassa gerações.

Hoje em dia, é inquestionável que temos muito mais mulheres em papeis que vão além desses estereótipos, claro. Mas, seguindo a temática musical “Old habbits die hard” (Velhos hábitos são difíceis de perder), com Mick Jagger, as mulheres continuam sub-representadas no cinema e ainda carregam em sua grande maioria, principalmente no cinema Hollywoodiano, os estereótipos de sempre.

Quantos e quais foram os últimos filmes que você assistiu em que a mulher não se enquadrava em um desses estereótipos, entre a super sexualização e a donzela em perigo?

Infelizmente o número de produções que foge desses padrões ainda é muito pequenos em comparação com o volume da produção cinematográfica de maneira geral, principalmente, se considerarmos os filmes de maior bilheteria do cinema.

Em tempos de premiação no cinema, muito se fala sobre o protagonismo, seja ele negro ou feminino, sobre diversidade, sobre signos e significados. E, alguns estudos refletem e deixam bastante claro o quanto a desigualdade de gênero no cinema continua sendo uma questão muito relevante.

Em um estudo realizado pelo “Center for the study of women in Televinsion & Film” (centro para o estudo das mulheres na televisão e cinema), que considerou os 100 filmes de maior bilheteria de 2015, alguns dados, apesar de não surpreendentes, são bem impressionantes:

  • 22% dos protagonistas são mulheres
  • 18% dos antagonistas são mulheres
  • 34 % dos papeis principais são compostos por mulheres
  • 33% dos papeis com fala são ocupados por mulheres

Esse estudo conta ainda com uma série de outros dados como a idade desses personagens, a etnia, a profissão ocupada por eles, personagens em posições de liderança, direção e equipe. Esses dados são prova irrefutável de que as mulheres continuam sendo sub-representadas, que existe uma grande manutenção dos estereótipos de gênero, de que as oportunidades nas produções são muito desiguais e evidência também a ausência de diversidade étnica nessas produções.

Mas para além da presença, que é nitidamente restrita, quantas vezes atentamos para como essas mulheres são representadas?

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Em 1985, a cartunista americana, Alison Bechedel, em um de seus quadrinhos, “Dykes to watch out for” (sapatões em quem ficar de olho), criou uma maneira de avaliara presença das mulheres no cinema. É um teste bem simples que consiste em 3 perguntas:

  1. O filme conta com pelo menos 2 personagens femininas que possuem nomes?
  2. Essas mulheres têm pelo menos uma conversa?
  3. Esse diálogo é sobre alguma coisa que não inclua um homem ou homens?

Parece um teste fácil e é! O que torna ainda mais impressionante a quantidade de filmes que surpreendentemente não consegue cumprir essas 3 simples exigências.

Filmes como:

 Avatar (Avatar,2009)

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Apesar de ter personagens femininas fortes e importantes falha ao não ter uma única cena de diálogo entre elas. Elas até dizem frases uma para a outra, mas que não se podem ser  consideradas como diálogos. Em uma única cena em que Neytiri e sua mãe conversam, ou melhor, tem uma acalorada discussão, o assunto é “Jake”.

A trilogia original de Guerra nas estrelas  (Guerra nas estrelas, 1977; O império contra-ataca, 1980; O retorno de Jedi, 1983)

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A série tem apenas três personagens femininas, Princesa Léa, Mon Mothma e Beru Lars (Aunt Beru) que em nenhum momento conversam umas com as outras.

A completa trilogia do senhor dos anéis (A Sociedade do Anel, 2001;  As Duas Torres, 2002; O Retorno do Rei, 2003)

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Em aproximadamente 10 horas de filme nenhuma das 3 mulheres, apesar de serem personagens fortes, jamais interagem, nunca ocupam a mesma cena, muito menos desenvolvem um diálogo. Considerando o tamanho do elenco e a quantidade de personagens e extras que passeiam pelo filme, diria que é uma situação no mínimo improvável.

Porém, passar ou não no teste não, necessariamente, determina a qualidade do filme. Nem mesmo se esse filme carrega ou não a pauta feminista. Falhar, não quer dizer necessariamente que o filme seja terrível, misógino e contra as mulheres. Ou que um filme aprovado carregue bandeiras feministas e seja importante para pautas de gênero.

Uma boa maneira de ilustrar isso é colocando lado a lado filmes como Crepúsculo e Gravidade.

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Por incrível que pareça, o filme Crepúsculo (Twilight, 2008), com uma temática retrógrada, da mocinha que faz de tudo, abandona sua família, sonhos, mortalidade para casar e viver feliz para sempre com o vampiro, passa no teste já que possui um diálogo entre Bela e sua mãe sobre mudar para uma nova cidade.

Enquanto em Gravidade (Gravity, 2013), com sua interessante e corajosa protagonista feminina, falha no teste, já que a protagonista não interage com outras mulheres, assim como em Corra Lola, Corra (Run Lola run, 1998), que possui uma protagonista considerada das mais completas do cinema.

O teste de Bechedel, definitivamente, não pode ser a única ferramenta utilizada para para avaliar o “feminismo” no cinema. Mas isso não o torna menos relevante. Mais de 30 anos depois continua servindo como grande alerta e ilustrando de forma simples um problema evidenciado por pesquisas recentes, que é a desigualdade de gênero na indústria cinematográfica.

Uma coisa está clara, o universo cinematográfico continua pertencendo aos homens e, apesar das crescentes estatísticas, os números ainda são muito desiguais e o cinema continua sendo um mundo masculino.

15 de fereiro de 2017

por Patrícia Costa

É possível separar a obra do autor?

Recentemente o filme Manchester À beira-Mar (Manchester by the sea, 2016) me provocou uma das experiências mais dolorosas que tive em uma sala de cinema em muito tempo. O roteiro, a fotografia, os personagens, principalmente os personagens, me tocaram de um jeito muito profundo. Casey Affleck me arrebatou com seu silêncio e sua solidão, com sua culpa e sua dor. Estava tudo ali, cada nuance da sua atuação se desenrolando diante de nossos olhos e nos contaminando com sua dor e nos emocionando à media que o filme se desenrolava.

Manchester-by-The-Sea-1200x520.jpgPor fim, sai vociferando entre os amigos que por mim podiam dar todos os prêmios para ele.

Alguns dias depois ouvia à um “podcast” enquanto esperava minha vez em uma fila de supermercado, quando começaram a falar sobre o filme e suas chances no Oscar, foi quando pela primeira vez tomei conhecimento de que Lee Chandler e Cassey Affleck não são a mesma pessoa. E que choque o meu! Que tristeza! Fiquei completamente sem saber o que fazer, ou o que sentir.

Esse episódio me remete a um outro, em que durante um show, O cantor Lenine, que é muito carismático durante suas apresentações, respondeu com muita simpatia à uma fã entusiasmada que gritou “Lenine, eu te amo! ”, “Ama não!! Você ama minha música, meu trabalho! Você nem me conhece! ”

Será que somos capazes de separar o artista da sua arte? Será que devemos fazer isso? Quantas vezes nos apaixonamos por aquele ator dos nossos filmes favoritos (Rutger Hauer foi meu primeiro grande amor), ou suspiramos por aquele cantor da nossa música favorita, ou o músico da nossa banda do coração. O que faz com que nos “apaixonemos” por esses artistas, apesar da relação que temos com eles nada ter a ver com a realidade além de seus trabalhos? O fascínio que a arte exerce sobre o público é muito mais complexo do que nos damos conta.

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Existem muitos estudos que falam da relação da arte com o tempo, com o momento em que ela foi desenvolvida. A arte é de certa forma um reflexo do que o artista vive, do mundo que o cerca, de suas influências. Arte e história andam muito próximas. Por esse ponto de vista podemos concluir que a arte é meramente um reflexo do tempo em que o artista vive?

É possível! Mas me parece simplista e restritivo ver a arte como uma manifestação atrelada exclusivamente aos valores de um tempo. Essa relação deixa de fora muitas outras questões como a apropriação da obra pelo público, os meios de comunicação que disseminam as obras, diferentes manifestações artísticas que dialogam com cada obra, são muitas as perspectivas a serem levadas em consideração.

Estamos em um momento de extremos maniqueístas em que as relações que fazemos entre o bem e o mal parecem muito bem definidos, como que saídos de um conto de fadas. Mas a verdade é que essas definições são muito menos simples do que parecem.

As vezes pessoas boas fazem coisas ruins e pessoas ruins fazem coisas boas. Picasso era machista e misógino, O compositor Richard Wagner um fervoroso antissemita, Heidegger possuía envolvimento com o regime nazista, Gandhi tem acusações de abuso sexual e Walt Disney era racista.

Será que essas informações lançam por terra todo o resto construído por esses artistas? Somos, como indivíduos capazes de rechaçar por completo toda a obra de uma determinada pessoa por suas posições pessoais?

Em algum momento eu já consegui, como quem traça uma linha imaginária, colocar a obra de um lado e o artista de outro. Hoje já não consigo mais fazer isso com tanta facilidade. O que mudou? O mundo mudou! Eu mudei! Mudamos sempre! E a arte, apesar de não ser limitada por isso, é, também reflexo do momento histórico e do mundo em que está inserida.

Os limites do que é aceitável e do que é execrável não são mais os mesmos. Há a necessidade crescentes de transpor certos limites, de criar novas formas de ver as coisas. A necessidade de afirmar certos grupos, de condenar certas posturas para que possamos caminhar deixando velhos hábitos nocivos para trás.

Homens que faziam no teatro papéis de mulheres porque as mulheres eram proibidas de atuar, a presença de negros na propaganda e no cinema somente como criados, a mulher como a dona de casa, donzela em perigo e até o professor Girafales que fumava na sala de aula são alguns exemplos de como os nossos conceitos mudaram ao longo do tempo.

O que mudou para mim especificamente? Não sei ao certo. Mas talvez uma noção de que tudo carrega significado de alguma forma e de que em algum nível absorvemos esses significados ainda que inconscientemente. Talvez uma noção de que todos os nossos posicionamentos e até os não posicionamentos, são, de alguma forma políticos, até nossa relação com a arte.

Chantal Mouffe, filósofa belga, diz que “não se pode distinguir entre arte política e arte não política, por que todas as formas de práticas artísticas ou contribuem para a reprodução de um sentido comum dado – e nesse sentido são políticas –, ou contribuem para a sua desconstrução crítica. Todas as formas artísticas têm uma dimensão política”. E nesse caso, considera-se então que “Toda arte é política”, em alguma dimensão.

Filmes como Manchester à Beira-mar, O Nascimento de uma Nação (The Birth of a Nation, 2016), O Último Tango em Paris (Last Tango in Paris, 1972), Meia-noite em Paris (Midnight in Paris, 2011), O Pianista (The Pianist, 2002), além de serem filmes altamente conceituados, indicados e ganhadores de vários prêmios são filmes que carregam de certa forma uma áurea de polêmica envolvendo artistas que fazem parte desses projetos.

O Nascimento de uma Nação, cotado para vários prêmios em 2016 perdeu todas as chances e acabou sendo “esquecido” após uma acusação de estupro sofrida pelo diretor Nate Parker em 1999 ter vindo à tona, sendo fortemente rechaçado pela crítica. Esse era o primeiro grande filme do diretor. Um diretor negro e um filme sobre a escravidão. Me pareceu fácil e óbvio que as pessoas boicotassem e criticassem, sendo a acusação tão grave. Mas as coisas não são tão simples assim, não é?

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O que acontece quando o diretor/ator/artista em questão é alguém mais conceituado. Woody Allen carrega serias acusações de abuso feitas por filhos e enteados. Você deixaria de ver um filme do Woody Allen? Ele deixaria de ser indicado e de ganhar prêmios? Deixaria de gostar de antigos e queridos clássico da carreira do diretor? Será que ele iria tão rapidamente, ou de forma tão generalizada para a fogueira? Blue Jasmin (2013) e Meia-noite em Paris  estão aí para provar que é não é bem assim que funciona.

Johnny Depp é acusado de bater na esposa e hordas raivosas de fãs do ator imediatamente atacam a mulher. Será que alguém deixaria de assistir aos filmes do Johnny Depp?

Marlon Brando, juntamente, com Bertolucci geraram muita polêmica no ano passado por conta da cena de estupro do filme O Último Tango em Paris. E depois disso como fica nossa relação com O Poderoso chefão (The Godfather, 1972), Beleza Roubada (Stealing Beauty, 1996)?

Talvez eu não consiga deixar de amar Dirigindo no Escuro (Hollywood Ending, 2002), A Rosa Púrpura do Cairo (The Purple Rose of Cairo, 1985) e  O Poderoso Chefão, mas ao mesmo tempo o olhar que tenho sobre algumas obras não é o mesmo.

Um filme como O Homem Irracional (Irrational Man, 2015), me parece simplesmente de gosto duvidoso e não consigo mais ignorar o desconforto causado, por exemplo, pelo discurso de Steve Carrell explicando o porquê de estar tendo um caso com uma mulher mais jovem em Café Society (2016), apesar de ser um bom filme.

A verdade é que essas questões são muito mais complexas e menos maniqueístas do que gostamos de acreditar e, muitas vezes, nos falta coerência, já que é muito fácil lançar mão do discurso  “Arte é política”, mas desde que eu não precise rever ou repensar aqueles artistas e obras que me são queridos.

Casey Affleck, teve, sem sombra de dúvida, uma das melhores performances do ano, e ganhar um prêmio seria mais do que merecido, mas que mensagem será que carrega o fato de premiar um artista gravemente acusado de assédio? Eu, pessoalmente, depois de tomar consciência do fato já não sei como me posicionar.

Será que ainda vou vociferar por aí que ele deveria ganhar tudo? É claro, que isso não diminui a qualidade da atuação e do trabalho dele nesse filme em questão. Mas será que é possível separar o artista da obra?

8 de fevereiro de 2017

por Patrícia Costa

Perdas e Danos

“Eu não consigo derrotar isso!” (Manchester à Beira-Mar, 2016)

A vida é um emaranhado de batalhas, muitas das quais nunca conseguimos terminar, quiçá vencer. A morte talvez seja a maior delas. A finitude é vista pela grande maioria de nós como um terrível mal que precisa, de alguma forma, ser, no mínimo, contornado.

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Desde as primeiras representações de que se tem notícia o estranhamento e o terror diante da morte sempre existiram. Nas cavernas de Lascaux, Chauvete e Altamira, alguns dos mais importantes sítios arqueológicos do mundo, as pinturas encontradas nas paredes de cavernas (pinturas rupestres) revelam o incômodo que a morte provocava no homem mais de 30 000 anos atrás.

A presença da morte nas representações sociais sofreu muitas mudanças. Com o passar do tempo e o aumento da expectativa de vida, o ser humano se distanciou da morte, muito presente em momentos anteriores da história em que a expectativa de vida era de 30 anos e entre surtos de doenças e guerras a morte era uma presença constante. Atualmente a morte é cada vez mais um tabu, ficando fora das conversas, do dia a dia e principalmente do conhecimento de crianças.

Ao longo da história o ser humano vem buscando diversas maneiras de entender e até mesmo lutar contra sua condição efêmera, tendo a religião e a arte como suas maiores aliadas. A necessidade de encontrar um sentido para a nossa existência e para os rumos que a vida toma estão diretamente ligados à maneira como lidamos com a morte. Além da nossa própria mortalidade, talvez seja ainda mais difícil, lidar com a perda de pessoas que nos cercam. Pais, mães, filhos, irmãos, amigos, amores.

Talvez, como disse Kafka, o sentido da vida seja que ela termina. Tudo, de alguma forma, termina.

O cinema tem o poder de nos levar além, mas o que faz com que um filme mexa com a gente mais do que outros, muitas vezes de temáticas semelhantes, nem sempre conseguimos determinar.  As relações que fazemos com o cinema as vezes são profundas e vão além do nosso entendimento. Mas eu recentemente tive a oportunidade de ver dois filmes em sessões seguidas e fiquei com a sensação de um tema comum e de uma abordagem comum que me tocam talvez muito mais do que quaisquer outras: A perda, a finitude, a efemeridade e fluidez da vida e de tudo o mais que existe, das relações que fazemos, das pessoas, das coisas, dos momentos.

Assisti a La La Land – Cantando Estações (La La Land, 2016) e em seguida Manchester à Beira-Mar (Mancehester By The Sea, 2016).

Sai do cinema, de certa forma, arrasada. Era como se de alguma forma eu não tivesse forças para lidar com aquelas perdas. De alguma forma aqueles filmes remeteram à minha vida, à minha próprias finitude. E a experiência de assistir aos dois, assim em sequência, foi, simplesmente, devastadora. Levei, talvez, alguns dias para me recuperar e aquelas questões me perseguiram e perseguem até aqui à esse texto.

É claro que os dois abordam a questão da finitude de formas completamente diferentes. Mas de alguma forma passam igualmente pelo fluxo inexorável que é a vida e o tempo e o quanto apesar de difíceis as batalhas que traçamos a vida sempre continua.

1 Ticket für 2 Museen: „Wien 1900“-Highlights in MAK und LEOPOLD MUSEUM

“A morte de um ente querido é uma coisa estranha. É como subir a escada para o seu quarto no escuro, e achar que tem mais um degrau… quando não tem. O seu pé afunda no ar, e acontece um grande momento de grande susto.” (Desventuras em série)

A maneira como a morte é retratada no cinema é, na maioria das vezes, muito aquém da realidade, possivelmente por essa necessidade de nos distanciarmos dela. Por vezes banalizada como num vídeo game em que corpos caem como folhas das árvores, sem nenhuma espécie de realidade atrelada a eles. Sem sentimentos, dores, família ou até mesmo sangue. Puro entretenimento. Por outras é uma exacerbação de certos momentos e sentimentos dramáticos em uma tentativa óbvia de nos fazer chorar.

Porém as vezes, só as vezes, nos deparamos com algumas obras que exploram a morte, “os fins”, a partir do que há de mais simples na vida, a rotina, de onde nada parece nem remotamente interessante. Aqueles momentos reais, simples, em que muitas vezes nada acontece, mas são cheios de memória e significado e sentimentos mais reais do que qualquer tentativa de recriar momentos dramáticos. Um olhar, uma incapacidade de olhar, um silêncio, um diálogo.

É incrível e sempre me faz querer aplaudir de pé, ainda que com o peito em ferida aberta, quando diretores como Ken Loach, Michael Haneke e Alejandro Iñárritu e Lars Von Trier nos fazem sentir tanto a partir do simples, daquilo que passa despercebido no meio da rotina, explorar o que tem de trivial no cotidiano, e nos tiram desconforto, suspiros e lágrimas do que muitas vezes parece nada.

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Em “Manchester a beira” Lee Chandler, vivido por Cassey Affleck, tem que voltar para sua cidade natal após a morte de seu irmão. O filme aborda as diferentes maneiras com que as pessoas lidam com a morte, e mais, aborda a realidade da “vida após a morte”, que muitas vezes não deixa muito tempo para os momentos super dramáticos que costumamos ver no cinema, mas dão lugar a situações como reconhecer o corpo, ter que lidar com o enterro e todas as burocracias que se seguem.

E, tudo isso enquanto chega a roda viva e carrega tudo pra lá trazendo o trabalho, a escola e a vida que insiste em não considerar aquela perda como relevante para além do que está dentro do peito.

Há uma cena em que Patrick (Lucas Hedges), sobrinho de Lee, e filho do falecido Joe Chandler (Kyle Chandler), está conversando com os amigos no sofá depois de voltar pra casa após a morte do pai. Acho que muitas pessoas que já perderam pessoas próximas, devem ter passado por isso. Esse momento de se reunir com os seus e passear pelas lembranças e simplesmente rir da pessoa que se foi, como se o riso celebrasse o que ficou.

Essa cena imediatamente me transportou para o enterro da minha avó em que eu e meus primos ficamos um bom tempo parados debruçados sob o caixão rindo das maluquices dela, de gritar o nome da gente pelo condomínio na casa de praia, de proteger meu primo de tudo, do bolo de laranja, de colocar a gente de castigo, como se esse passeio por quem ela era fosse uma espécie de homenagem, e depois disso tudo acabar falando de coisas aleatórias, num exercício imediato de conscientização de que a vida continua.

A vida sempre continua, mas muitas vezes nós, não, somos então um outro! Porque tem coisas que, simplesmente, não conseguimos derrotar!

1 de fevereiro de 2017

por Patrícia Costa.

Passageiros ou Bela adormecida?

“Lendas são lições e elas carregam a verdade” essa citação do filme Valente (Brave, 2012) também carrega muita verdade. Ela remete a um tempo além do tempo em que contar histórias era mais do que puro entretenimento, um tempo em que contar uma história era partilhar os saberes, os costumes, as tradições, normas de comportamento e memórias e a leitura que um determinado grupo fazia do mundo.

Com o passar do tempo a sociedade transformou essas histórias e foi suavizando-as e trazendo-as para sua própria visão do mundo, ou para o que queria do mundo, a medida que as narrativas deixaram o entorno das fogueiras e adentraram as casas e os quartos das crianças. Mas será que o tempo em que as histórias possuíam significados além do simples entretenimento ficou para trás?

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Os Contos que ficaram famosos nas palavras dos irmãos Grimm, já haviam sido adaptados por eles à sua realidade, tendo em suas versões originais, de Perrault e na história em que foi inspirada, do italiano Giambattista Basile, conteúdo muito mais sombrios e realistas. Eles foram transformados ainda mais ao serem utilizadas por Walt Disney. Olhamos para os contos de fadas hoje em dia de maneira muito diferente.

Em grande maioria nós, mulheres já não queremos mais ser a princesa em perigo, esperando ser salvas pelo príncipe encantado. Nós pais, não queremos mais que nossas filhas tenham como ideais a doce princesa indefesa.

Assim como aconteceu ao longo da história, mais uma vez estamos, como sociedade, mudando essas narrativas e acrescentando a elas a leitura que mais nos representa, à medida que se altera a nossa realidade e a leitura que fazemos e queremos do mundo que nos cerca. As princesas que buscamos hoje em dia não se parecem mais com a branca de neve, dona de casa, dos anos 40, que vai lavar, passar, cozinhar em troca de abrigo e segurança. São as “Meridas”, que protagonizam sua própria história, que lutam para escolher seu próprio destino apesar de ainda sofrerem pressões sociais para se enquadrarem em certos padrões aos moldes das princesas da Disney como Branca de Neve, Cinderela, A Bela Adormecida e Ariel.

O cinema, assim como outras narrativas, carrega ideias e símbolos que vão além das histórias contadas, estão embebidas nas imagens, nas palavras, nos personagens e além delas. Símbolos e recursos que estão carregados de significados e muitas vezes, assim como os contos de fadas, falam diretamente com a sociedade.

E aí chegamos a Passageiros (Passengers, 2016), então, alerte-se para o fato de que, definitivamente, a partir de agora o texto estará repleto de SPOILERS.

O personagem de Chris Pratt acorda antes do tempo previsto, após uma falha em sua cápsula de hibernação, e se encontra por tempo indeterminado sozinho em uma espaçonave em direção ao futuro em outro planeta, em processo de colonização. A quantidade de questões envolvendo seres humanos em isolamento é infinita e as possibilidades também. Definitivamente é uma narrativa com potencial. Potencial para explorarmos, inclusive, os nossos próprios limites e noções quanto ao que é certo e errado. Uma pessoa sofrendo as consequências do isolamento que tem ao seu alcance centenas de outras pessoas, 4999 para ser exata, cairia inevitavelmente na questão moral sobre acordar outras pessoas.

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Bom, aí ele vai lá e acorda uma pessoa. Mas, espera! Quem é essa pessoa? Uma pessoa aleatória? Uma pessoa que poderia ajudá-lo a resolver problemas, um médico que poderia ajudá-lo a voltar a dormir, um engenheiro? Não. Ele acorda a Jennifer Lawrence. Que não é ninguém mais do que uma mulher bonita que ele viu deitada lá, e “se apaixonou” por sua beleza, dentro dos padrões estéticos tradicionais (fato gerador de toda uma outra problematização).

Será que é por acaso que o nome da personagem de Jennifer Lawrence é Aurora? Mas quem é Aurora? Para quem não sabe ou não lembra, Aurora é ninguém menos que a Bela adormecida. A jovem princesa, rica e solitária, e não esqueçamos indefesa, que, após cair sob um sono profundo, é acordada por um príncipe que estava passando por ali e cai de amores pela beleza da jovem. E, com um beijo de amor a desperta, salvando-a de um destino terrível. Essa versão já se assemelha o suficiente a história de Passageiros para ser preocupante, ao considerarmos que a ideia da princesa indefesa resgatada pelo príncipe não nos representa mais e carrega uma mensagem completamente diferente daquela que buscamos atualmente.

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Porém, a jovem Jennifer Lawrence, aurora moderna, não estava em perigo, ou precisando ser salva, só estava indefesa. E, a sua beleza e o fato de que o personagem assim o quis, pois estava “apaixonado”, foi o suficiente para justificar a decisão de “acorda-la”. Uma aula sobre o que não fazer em se tratando de consentimento.

O que muito se assemelha a versão original do conto da bela adormecida oriunda da tradição oral, que tem tons muito mais sinistros, uma vez que um rei que passava e descobre a jovem, ao vê-la linda adormecida, a estupra porque “se apaixona” pela beleza dela. O conto original vai além, já que a princesa engravida. Uma história pra Almodóvar nenhum botar defeito.

A ideia de associar a personagem de Jennifer Lawrence a Bela adormecida, já seria ruim por si só, uma vez que como sociedade estamos em processo de mudança das nossas narrativas. Uma vez que a bela adormecida não nos representa mais. E a pobre moça indefesa, resgatada pelo príncipe encantado, da sua vida ruim, ou da sua solidão existencial, já não encontra espaço na leitura que queremos fazer da nossa sociedade.

As narrativas cinematográficas são muitas vezes mais complexas do que gostaríamos de crer. “Ah, as feministas estão loucas! ”, muitos vão dizer. “É só uma história de amor no espaço!” Outros vão vociferar. Estabelecemos, em algumas poucas linhas, que as narrativas dificilmente são simples, determinamos que o contar histórias agrega às narrativas uma serie de valores que definem nosso tempo, nossos preceitos, normas sociais e cultura.

Qual é então a mensagem por trás de Passageiros? Se você é um cara legal, e boa pinta, e está passando por um momento difícil, ou se você ama a menina o “consentimento” não importa? E você pode até ficar com a menina, pobre indefesa, no final, e viverem feliz pra sempre? Ou será que é só um típico filme romântico ruim sem muita profundidade e com muitas cenas clichês em que reproduzimos o ideal da bela donzela em perigo (mesmo sem  que ela esteja em perigo)? Ou será mesmo só uma versão piorada do Titanic no espaço?

O grande mérito de Passageiros é fazer com que essas questões passem por baixo dos radares, e que, por fim, acreditemos que o filme não é tão ruim assim, e nada do que está presente ali é “algo de mais”, enquanto essas mensagens, sejam elas explicitas ou não, permanecem como reflexo do momento em que vivemos.

16 de Janeiro de 2017

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2 comentários sobre “Rata.doc

  1. Muito boa reflexão! Confesso que quando comecei a ler o texto sobre padrões dos contos de fadas, viesse a seguir uma reflexão sobre “Moana” e fiquei ainda mais ansiosa para saber a opinião da Patrícia sobre a nova “princesa” da Disney.
    Parabéns pelo texto e sucesso no site!

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  2. Cara Patricia, permita-me ser do contra sobre o seu texto “É possível separar a obra do autor?” (8/2/17)

    Concordo e compreendo seu questionamento. Realmente é difícil separar a pessoa do artista, uma vez que conhecemos bem quem é o artista. Mas será que realmente conhecemos bem ou conhecemos o que a mídia expõe. Você certamente vai lembrar do caso Escola Base que destruiu a carreira de diversos professores. Ou exemplos mostrados em filmes como A Caça e Notas de um Escândalo, que provam que o ser humano tem sempre uma visão limitada dos fatos. O que dizer de toda a questão envolvendo o nome de Mel Gibson aos comentários antissemita que fez? (Faltou ele no texto).

    Veja, não é tão fácil assim, como você disse. Não estou defendendo estupradores e pedófilos. O lugar deles é na cadeia, e se por serem artistas foram absolvidos de seus crimes, isto é um gravíssimo problema da justiça americana, mas nunca de suas artes.

    Minha pergunta é: Casey Affleck, Brando, Bertolucci foram acusados de assédio. Ok. Foram condenados?
    Sou seu amigo há anos. Você me conhece melhor do que qualquer pessoa. Amanhã uma ex-namorada me acusa de assédio e um juiz me condena. Você deixa de ser minha amiga?

    Será que tudo que sai na mídia sobre alguém é a verdade. Será que sempre que a justiça condena alguém está certo. Acho que a questão do seu texto é bem mais profunda. Bjão.

    (PS. Sou inocente quanto as questões que escrevi ai em cima. São meramente suposições. Não vá tirar conclusões precipitadas. Fim do sarcasmo)

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